Cinco crónicas contra o esquecimento

(1) 21 de Janeiro de 1965

Imaginem que têm dezassete anos.

Imaginem que entraram há pouco tempo na Universidade, fizeram novos amigos, alargaram os vossos interesses e os temas de discussão.

Imaginem que é de manhã, estão na Faculdade, aguardam os amigos de sempre… e eles não chegam.

O tempo vai passando, e eles não chegam.

Imaginem que, em vez deles, chega alguém que recebeu um telefonema. Um telefonema de uma mãe que dizia: «O meu filho foi preso esta manhã».

Estão agora noutro tempo, um tempo anterior a 25 de Abril de 1974. Mais precisamente, em 21 de Janeiro de 65 – o dia em que a PIDE, numa só manhã, a partir de uma denúncia, prendeu dezenas e dezenas de activistas do movimento estudantil.

Imaginem que os telefonemas continuam a chegar. Que sabem de uma liceal, de quinze anos, presa. E de uma casa onde, depois de prender dois rapazes, irmãos, a brigada da PIDE pergunta à mãe: «A senhora não tem mais nenhum filho? Só estes dois?»

Imaginem a tristeza, a indignação, a ira, a raiva que se apodera de vós.

Conseguem imaginar? Conseguem imaginar o que é ter 17, 18 anos e saber, numa manhã, que dezenas dos seus amigos, aqueles com quem ia ao cinema, conversava pelas ruas, jogava matraquilhos, estão agora na prisão? Sabendo também que o seu único crime é pertencerem a um partido, proibido é certo – porque proibidos são todos, excepto o do Governo?

Conseguem imaginar a raiva a obrigar-vos a agir, a denunciar bem alto essas prisões, a fazer manifestações de rua, mesmo sabendo que podem ser presos também?

Conseguem imaginar o que é ter dezassete ou dezoito anos e enfrentar diariamente o medo, e desafiar esse medo?

Conseguem imaginar tudo isso quando, hoje, saem para uma manifestação de estudantes, ou olham para os estudantes na rua, protestando contra a PGA ou as propinas, com canções, com burros, com bonecos de papelão?

Conseguem imaginar – mesmo quando, com cargas policiais ou vigilâncias do SIS, vos relembram esse tempo?

Peço-vos que imaginem. Porque era assim viver em Portugal, antes de Abril de 1974. Há apenas vinte anos.

Lida na RDP-Antena 1, em Abril de 1994. Publicada em O escritor, nº 4, Dezembro de 1994.

Hino de Caxias

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