O parágrafo seguinte, da autoria da jornalista Ana Machado, foi publicado há alguns meses no Público online. Ele aproxima-nos do clima tenso e pungente que o formalismo datado da transmissão radiofónica à qual se refere – gravada no momento da partida de um dos primeiros contingentes de soldados destinados a Angola, logo após o início da Guerra Colonial – foi incapaz de disfarçar. Quem possua uma recordação vívida desses momentos, tornará por instantes ao seu próprio passado e confirmará a precisão do relato.

«Estamos em Junho de 1961. No Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, a multidão reuniu-se para ver partir um dos primeiros contingentes de soldados a partir para a Guerra Colonial. Há fanfarra, hino e ambiente de festa. O repórter lança-se no seu discurso, previamente revisto, onde fala da grandiosidade do império e do céu azul na partida, despedindo-se com um ‘boa viagem rapazes e até breve’. Mas o microfone da rádio, que não obedece a ordens, não conseguiu fazer calar os gritos de dor de mulheres e mães que se ouvem de fundo, ao longo de toda a reportagem.»

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