Edmundo Pedro tem neste momento oitenta e nove anos, Nuno Teotónio Pereira oitenta e seis. O primeiro nasceu três dias antes do fim da Primeira Guerra Mundial, o segundo no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano.

Conhecem-se bem, são amigos, participam em múltiplas actividade de carácter cívico. Continuam imparáveis, grandes resistentes durante a ditadura, militantes persistentes em tempos de democracia (*). Têm hoje, sobre o mundo e sobre a vida, posições muito semelhantes.

Juntei-os, no passado dia 27 de Maio, numa conversa da qual tenho quase duas horas de gravação. Utilizarei hoje apenas uma pequeníssima parte de tudo o que ouvi e guardei – nem chegarei sequer à idade adulta destas pessoas que nasceram ambas em Lisboa, mas em contextos que dificilmente poderiam ter sido mais diferentes.

Edmundo Pedro (EP) vem do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica, mas nem por isso alheada de preocupações sociais.

Curiosamente, a vida viria a reuni-los, durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que agora tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «O meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Comecei por ler excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

Em Fevereiro, EP, então com dezassete anos, foi preso pela terceira vez. Passou algum tempo numa esquadra em Benfica, foi transferido depois para o Aljube e mais tarde para Peniche. NTP continuava no Liceu Pedro Nunes e, em Maio desse mesmo ano, viveu intensamente a criação da Mocidade Portuguesa:

«Com alguns colegas do liceu, logo corremos a uma loja da Rua das Portas de S. Antão para comprarmos as fardas. (…) A partir dai, fiz uma carreira fulgurante na Mocidade, envergando orgulhosamente o uniforme com a camisa verde e o S de Salazar na fivela do cinto, e participando nas marchas pela Avenida da Liberdade abaixo fazendo a saudação fascista (…) Salazar era criticado por nunca ter vestido uma farda e só timidamente fazer uma ou outra vez a saudação fascista».

Muito mais curioso é perceber como ambos viveram, em posições absolutamente antagónicas, o grande acontecimento desse ano de 1936: o início, em Julho, da Guerra Civil de Espanha.

Escreve NTP:

«Apaixonei-me, acompanhando meu Pai, pela causa nacionalista. Ouvíamos sofregamente todas as noites o noticiário do Rádio Clube Português, dirigido pelo major Botelho Moniz (…). Amante da geografia, arranjei rapidamente um mapa da Península, onde ia registando os avanços das colunas franquistas na direcção de Madrid».

Escreve EP, então preso em Peniche:

«Vivemos o primeiro mês da guerra civil sob uma enorme tensão. (…) Acabámos por dispor de um rádio rudimentar que nós próprios construímos (…) que nos permitia, com alguma dificuldade, ouvir as emissões do Rádio Clube Português. (…) Arranjámos rapidamente um mapa onde assinalávamos as posições dos dois lados. (…) Saltava à vista que a área controlada pelas forças da República era muito maior do que aquelas que os fascistas detinham».

Riem-se ambos quando lhes leio estes textos. Quase nem querem acreditar e repetem, várias vezes: «É curioso, muito curioso!»

EP faz notar que teria certamente combatido em Espanha se não tivesse sido preso pouco antes da data em que deveria partir para a União Soviética, para uma estadia planeada pelo PCP. Como tantos outros, teria vindo combater ao lado dos republicanos, «onde se julgava estar a decidir-se o percurso e o destino da revolução mundial».

Em Lisboa, NTP envolveu-se na organização de uma grande coluna de camiões que levou até Sevilha mantimentos para as tropas franquistas.

Estranhos paralelismos.
Passaram-se, entretanto, mais de setenta anos e está quase tudo por contar: como viveram o desenrolar dos acontecimentos durante a Segunda Guerra Mundial (EP no Tarrafal, NTP já anglófilo), a campanha de Humberto Delgado em 1958 (quando NTP inicia a tua caminhada em direcção à esquerda e uma longa actividade de resistente católico), as invasões da Hungria e da Checoslováquia – e por aí fora.

Outros textos virão.
Deixei o Edmundo sentado ao computador, quase no fim do segundo volume das Memórias, que quer lançar em Novembro por ocasião do seu 90º aniversário. Atravessei a cidade para levar o Nuno a uma sessão sobre Lisboa, que iria prolongar-se pela noite dentro.

Incansáveis, preocupados com a situação actual do país e do mundo, transmitem força e determinação a todos os que os rodeiam – com uma simplicidade desconcertante, corações do tamanho do mundo e cabeças cheias de projectos.

(*) Biografias de Edmundo Pedro e de Nuno Teotónio Pereira.

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