A. J. Lebre. Trabalhador da construção civil reformado
(Nesta história, só o nome A J. Lebre não é verdadeiro.)

1948 – Mértola, «Alentejo profundo»

Juntámo-nos uns quinze. Mais rapazes que raparigas. Eu tinha dez anos, já andava a trabalhar nos montes com o meu pai havia um ano, mas agora não tínhamos trabalho. Íamos à bolota para assar. Há semanas que passávamos fome. Éramos sete irmãos, só o meu pai trabalhava e não era sempre. A minha mãe só nas mondas ou nas ceifas.

Fomos apanhados. O coiteiro viu-nos e correu connosco, mas antes agarrou a minha irmã mais velha que já tinha treze anos, chamou-lhe nomes e empurrou-a.

O caso soube-se na aldeia e os homens não perdoaram os insultos e foram à procura do coiteiro. É o guarda do monte ou do couto, mas era o nome que a gente dava. Como ele andava armado, um dos homens levava uma espingarda de caça. Houve uns tiros para o ar mas o meu pai e um vizinho apanharam dois anos de cadeia e o que levava a espingarda apanhou três anos.

Eu ia visitar o meu pai à prisão e ficava lá com ele para comer. Aquilo era um água quente com pão mas era melhor que nada. Era como em nossa casa. A comida era pão e uns feijões. Às vezes, um fiozinho de azeite ou um pedacinho de toucinho. Cheguei mesmo a dormir às escondidas na prisão com o meu pai. A prisão de Mértola era uma casa por cima e outra por baixo. Os presos tinham umas enxergas no chão, um buraco para as necessidades e um lavatório pequenino para lavar a cara. Não achávamos diferença. Em casa também nunca ninguém tomava banho. Os rapazes tomavam banho no rio, no verão. Os homens só às vezes para refrescar. A nossa casa tinha dois quartos, um com chão de ladrilhos e o outro e a cozinha de terra batida. Numa cama de tábuas, dormíamos dois com os pés para baixo e dois com os pés para cima. As minhas três irmãs dormiam num colchão no chão.

Quase todos os anos, antes do 1º de Maio, se apareciam papéis do partido ou contra o Senhor Uva, que era o dono de quase toda a terra, a Guarda ia a nossa casa e à de mais dois ou três e prendiam-nos preventivamente. Estavam presos uma semana, depois largavam-nos. Na terra ao lado, havia ricos mas na nossa éramos todos pobres. Só quando vim para a região de Lisboa, para a construção civil, é que me fui dando conta da miséria em que tínhamos vivido. Mas mais por ver a vida dos outros, porque a minha ia melhor mas pouco melhor que na terra.