Vai saltando a tampa da amnésia com que a “transição” enclausurou a memória dos espanhóis. Os falangistas reciclados a toda a velocidade e que, mais tarde, desaguaram maioritariamente no PP, foram, natural e imediatamente, os grandes beneficiados com o pacto dos silêncios sobre o passado. Os tabus instituídos tacitamente alimentaram a ilusão de que era possível uma democracia pós-franquista, democrática mas com o rei fabricado por Franco, a manutenção da iconografia feita de exaltação de Franco e da gesta dos vencedores na guerra civil, com os arquivos do ditador (incluindo a matéria de Estado) sepultados nas mãos da família (um caso único em que a família de um ditador renegado herdou, com direito a sequestro, os documentos do Estado circulados no escritório do ditador). Os partidos dos antifranquistas espanhóis, ainda sob o sindroma do medo tecido durante décadas pela ditadura e cientes das suas fragilidades na afirmação pública e popular, com o “exemplo português” a crepitar-lhes ao lado, temendo uma hipotética regressão sob forma violenta, cederam, cambiando amnésia por consolidação democrática. O resultado mais vivo desse pacto, gerido por Suarez e vigiado pelo rei, em que a Igreja, Gonzalez e Carrillo ajudaram à missa, foi uma geração inteira de espanhóis educada na ausência de memória, portanto sem passado, e um país surreal, democrático na aparência e nas formalidades, pintalgado de norte a sul, este a oeste, com as evocações, loas e monumentalidade dedicada ao ditador e aos vencedores armados pelo nazi-fascismo, servida por um cultura construída em cima de interdições históricas, grotesca no seu enorme buraco negro plantado na memória colectiva. Tirando extremistas marginais, ninguém queria assumir-se como herdeiro das décadas de ditadura brutal e assassina de Franco, mas minguavam os que queriam enfrentar a ferida por sarar aplicando-lhe a tintura e a compressa feitas de verdade, de justiça e de catarse. Neste contexto, em que os políticos democratas baquearam, o papel de rebeldia foi assumido por jovens historiadores e descendentes das vítimas de Franco, os primeiros exigindo conhecimento e rigor, os segundos pugnando, sobretudo, pela identificação e direito a sepultura das ossadas dos fuzilados pelo fascismo espanhol e espalhadas pelos campos e valetas de toda a Espanha. Os dois governos Zapatero, apesar de inúmeras tibiezas e insuficiências, têm direito à honra de colocarem a política com o passo acertado pela história.

A proliferação da historiografia sobre a guerra civil e o franquismo, apesar das lacunas importantíssimas pela falta de acesso a documentos valiosos e fulcrais, é uma evidência para quem visita Espanha e espreita as livrarias. O tabu está quebrado. Há os que fazem recuperação da memória e recolocam os vencidos dentro da história. Há os neo-franquistas, e são bastantes, que diluem responsabilidades tentando relativizar os crimes (lembram os estalinistas estúpidos e estupidificantes daqui que, sobre o Gulag, referem os delinquentes dos Estados Unidos; sobre a queda do Muro de Berlim assobiam para o Muro de Jerusalém). Há polémica e querelas para todos os gostos. Mas a história pula e avança.

Julián Casanova, na foto, é um jovem historiador espanhol. Juntamente com o seu colega Carlos Gil Andrés, acaba de editar uma ‘Historia de España en el siglo XX’. Num debate vivo e interessantíssimo promovido pelo jornal “Público” (acessível aqui), Julián Casanova responde a várias questões colocadas pelos leitores do jornal e que tocam várias facetas da problematização sobre o passado franquista. Das respostas de Casanova destaco a lembrança do que mais é esquecido sobre a ignomínia franquista: não saciado com as cem mil pessoas que Franco assassinou durante a guerra civil, no após-guerra, como vencedor sedento de sangue e vingança, sentado no seu poder absoluto, fuzilou ainda mais cinquenta mil espanhóis (no período 1939-1946). Em tempos de revivalismo vampiresco, recordar o gosto de Franco por sangue de adversários e diferentes, não destoa.

Publicado inicialmente no Água Lisa.

pide guerra colonail

Dalila Mateus, num livro editado há tempos atrás mas que é uma referência da historiografia dedicada à guerra colonial (*), portanto sempre actual, aborda as actividades da Pide/DGS nas antigas colónias no período 1961-1974, uma questão que ainda é tabu, até pelos desassossegos que desperta em grande parte dos militares que participaram naquela guerra. A historiadora expõe os mecanismos de actuação da Pide/DGS em África e os meios que dispunha e que utilizava (na medida do que é possível saber-se e escapou à destruição dos arquivos). Além de demonstrar que o que se passou nas frentes das guerras coloniais foi um genocídio intermitente gerido contra as populações africanas (confirmando a caracterização feita pela ONU), para além de actos de brutalidade generalizada e de máxima crueldade praticados pelas Forças Armadas, sobretudo durante o primeiro período da guerra mas que se verificaram pontualmente até ao fim, o grosso das acções de obtenção de informação, infiltrações entre os guerrilheiros, atentados contra os seus líderes, tortura de prisioneiros, gestão de prisões e de campos de concentração (onde o internamento era ordenado pela própria Pide, sem julgamento e como sendo um ”acto administrativo”de “fixação de residência”) foram cometidas à Pide/DGS. Ou seja, na maior parte dos casos, as Forças Armadas passavam para a Pide a maior parte do “trabalho sujo” relativamente a militantes, simpatizantes ou suspeitos de simpatias para com as causas nacionalistas.

Esta “repartição de tarefas” assentou numa cumplicidade e complementaridade totais e absolutas. Para além de permitir que as Forças Armadas salvaguardassem a sua imagem de “combatentes” apenas “guerreiros”, cumprindo uma qualquer ética castrense, e com margem para a chamada “psico”, o trabalho entregue à Pide “ganhou” em “especialização” e em “eficácia” (embora, por regra, as operações ofensivas tenham sido conjuntas). Mais, tornou as duas organizações numa espécie de irmãs siamesas em que uma não podia viver sem a outra. As operações militares faziam-se com base nas informações da Pide, a Pide trabalhava os prisioneiros feitos pelas Forças Armadas. Neste sentido, as torturas, os assassinatos, as prisões indiscriminadas, cometidas pela Pide durante a guerra colonial, foram crimes da polícia política mas mancharam, na mesma dimensão de iniquidade e responsabilidade, os comandos militares irmanados com a polícia. E sabendo como sabiam o que a Pide aplicava aos guerrilheiros, a co-responsabilidade é absoluta.

Como entender a resistência havida após o 25 de Abril, em extinguir a Pide em África, em que, sobretudo em Angola, ainda trabalharam durante muito tempo integrados na PIM (Polícia de Informação Militar)? Como entender a excelente apreciação que a maioria dos oficiais de carreira fazia sobre os méritos da Pide em África? Como entender que o Alto-Comissário em Moçambique (Vitor Crespo), onde a Pide foi desmantelada mais cedo, se tenha encarregado de destruir os ficheiros da Pide? Como perceber a ausência de escrúpulos dos militares golpistas após o 25 de Abril trabalharem em estreita colaboração com ex-pides, retomando velhas cumplicidades? Finalmente, como perceber que, enquanto na metrópole, a Pide era odiada pela população, em África ela era considerada e acarinhada pela maioria dos colonos (por vezes, mais estimada que os militares que faziam a guerra)? A resposta a estas últimas questões está, como hipótese, na noção que os militares profissionais tinham que não haveria condições para fazerem a guerra sem a Pide. E sabiam que a Pide “fazia bem” o papel que lhe estava atribuído (a maioria dos guerrilheiros reconhece isso, sendo uma das raras excepções a prosápia estúpida de Marcelino dos Santos da Frelimo que afirmou que a Pide não sabia nada). Compreende-se assim que, no início da pós-revolução, a Pide continuasse viva e bem viva nas ainda colónias. Ou pela integração no PIM, ou, clandestinamente, a ajudar a “resistência branca”, transbordando depois para o combate ao MPLA e, em Moçambique, na criação da Renamo.

Parte dos oficiais de carreira profissionalizados na guerra colonial (muitos deles com três comissões feitas) deram a “volta política”, participaram na descolonização e seguiram o paradigma político do MFA. Mas um número significativo de oficiais de média e alta patente (a partir de Major na altura do 25 de Abril) foi incapazes de digerir a descolonização e entender o papel da Pide como sendo um alicerce do regime (o que, sendo verdade, não abona sobre o regime). É que não foram as Forças Armadas (só por si) que fizeram as guerras nas colónias, a Pide (só por si) tão pouco. Foi uma e outra. Foi o regime salazarista-marcelista. Quando o regime caiu, o colonialismo caiu e a descolonização só podia ter como ponto de partida o ponto de chegada do colonialismo português. O “depois” “devia” ter sido diferente e melhor. Mas o “depois”” que houve partiu do “antes” herdado. Alguns militares da época não o entenderam na descolonização e cada vez o entendem menos, servindo a profusa literatura de memória e análise que publicam, em blogues e em livros, como demonstração dessa fixação, porque o ressentimento cresce com o tempo, sem que a catarse tenha sido feita. À força de “justificarem”, perante a sociedade e eles próprios, os anos de profissão naquelas guerras, perderam essa capacidade, a da catarse da participação de uma guerra injusta, impossível de vencer, iníqua nos meios utilizados e nos crimes cometidos, directamente ou com sua colaboração.

(*)A Pide/DGS na Guerra Colonial – 1961-1974, Dalila Cabrita Mateus, Ed Terramar.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

Soldado ferido

Nas «eleições» de 1969, a guerra colonial, então particularmente acesa em Moçambique e na Guiné, foi o principal separador das posições das duas agregações oposicionistas – a CDE reproduzia o posicionamento do PCP e apostava forte na denúncia máxima e possível da guerra colonial com partido implícito pelos movimentos de libertação; a CEUD evitava referir o tema e quando este era incontornável procurava um posicionamento não radical sobre a guerra e punha em cima da mesa a quimera retórica de defesa de «autonomias». Nas «eleições» seguintes, as de 1973, já a oposição se apresentou unificada e o posicionamento acerca da guerra colonial, entretanto agravada, retomou o essencial das posições da CDE de 1969.

A guerra colonial era, para o regime, a grande questão política tabu. Caetano, por convicção e pela pressão dos ultras nacional-colonialistas entrincheirados atrás do Presidente Tomás, continuava o dogma-mito herdado de Salazar: «não discutir o Ultramar», continuar a guerra. Então, colocar sequer a questão da guerra colonial, discutindo saídas para ela, mesmo que tímidas, configurava uma traição à pátria. Tal não era sequer permitido durante as «campanhas eleitorais» (se tal fosse feito, e normalmente era-o no último discurso, o representante das «autoridades» intervinha e fazia terminar a sessão, a que se seguia, por regra, uma carga policial). Mas Caetano não só prosseguiu a guerra colonial, como o fez recorrendo a «operações sujas» e outras em larga escala perante o progressivo agravamento das situações militares em Moçambique e na Guiné, gerando uma dinâmica de «tudo ou nada». E, nesta via, aprofundou-se a «fusão», na máquina de guerra colonial, entre a polícia política (PIDE) e o exército colonial. Logo no início de 1969, pouco tempo depois de Caetano suceder a Salazar, o então líder da Frelimo (Moçambique), Mondlane, foi assassinado na Tanzânia através de uma encomenda-bomba, o que desencadeou não só uma crise na Frelimo como uma atribulada luta pela sucessão na liderança. E, no ano seguinte, Kaulza de Arriaga (comandante-chefe) montou uma das operações militares mais gigantescas e recheadas em meios humanos e militares ocorridas na guerra colonial, a operação «nó górdio».  Em resultado final, a Frelimo expandiu a sua área de intervenção guerrilheira em Moçambique. Na Guiné, Caetano deu luz verde a Spínola e à PIDE para uma das mais vastas e custosas operações de tentativa de aliciar e corromper uma das frentes do PAIGC, ocorridas no norte no «chão manjaco», e que terminou em Abril de 1970 quando os guerrilheiros atraíram a uma cilada um grupo de elite dos oficiais do exército português, massacrando-o. Spínola e a PIDE, com o acordo prévio de Caetano, reagiram no final de 1970 através de uma operação com grandes meios («mar verde») de invasão da Guiné-Conacry e que tinha, entre os objectivos, assassinar o Presidente deste país (Sekou Touré) e colocar um «partido amigo» no poder, assassinar Amílcar Cabral e o núcleo dirigente do PAIGC (sediado em Conacry), destruir a força aérea e a frota naval guineense, libertar os prisioneiros militares portugueses. Só o último objectivo foi alcançado (mas a troco de um número ainda maior de «comandos africanos» deixados no terreno e posteriormente fuzilados). Em 1973, como culminar de uma operação de infiltração da PIDE, foi conseguido o velho objectivo de assassinar Amílcar Cabral. A este desaire, a perda do seu líder carismático, o PAIGC respondeu, através de novo e sofisticado armamento, com a prática neutralização do domínio do espaço aéreo pelo exército colonial e declarar a independência unilateral da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecida por dezenas de países membros da ONU.

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muro berlim

Estamos à beira dos vinte anos passados desde a queda do Muro. Esse Muro que foi o símbolo maior, um autêntico ícone, da separação radical de dois mundos, dos pontos de vista político, ideológico e social, em permanente confronto até à vitória de um sobre o outro, um desfecho de antagonismos herdados de 1917 e há muito anunciado que alimentou medos de décadas de que se iria «resolver» pela via da hecatombe nuclear e que, surpreendendo todos, se deu de uma forma instantânea e pacífica, porque o comunismo simplesmente tinha apodrecido (como aqui, em Portugal, acontecera ao fascismo de Caetano). Nesse momento histórico, o Muro, caindo, transmutou-se, por via da dinâmica dos símbolos, de emblema maior opositivo entre capitalismo democrático e comunismo totalitário para o sinal maior da vitória de um e falência do outro.

Nunca vi, ao vivo, o Muro que a maior parte das pessoas conhece através da imagem, o Muro odiado, conspurcado, repleto de graffitis obscenos, humorísticos ou artísticos, decorado com repulsa que ia do talento irónico até ao ódio, aquele Muro em que o ocidente cuspia na antítese comunista. Mas conheci, no princípio da década de 80, um outro Muro no lugar do mesmo Muro, um Muro limpo, sepulcral, bélico e emblemático da luta de classes, o Muro visto de Berlim-Leste, então capital da RDA. E ainda hoje, quando se fala do Muro, é esse Muro que remexe a minha memória. Em viagem turística, com dois casais metidos num velho Fiat 127 atafulhado de apetrechos campistas, todos militantes empenhados do PCP, ali estávamos, eu e os meus companheiros de viagem, após quatro mil quilómetros de estrada e calcorrearmos a Checoslováquia e a RDA, a olhar para a face comunista do Muro, o lado do mundo que Lenine iluminava. O percurso tinha sido feito até à Porta de Brandenburgo, onde o Muro apresentava uma espécie de «barriga», por uma zona em que raros eram os berlinenses que ali passeavam ou simplesmente circulavam, o meio envolvente era dissuasor, fortemente policiado e militarizado, a vista alcançava a «terra de ninguém» e, ao fundo, o Muro com a sua frieza de betão, um betão lívido a fazer de horizonte após ouriços de arame farpado numa faixa de terreno que se sabia minada. Entre espaços repetidos, elevavam-se as guaritas com guardas armados de kalash e binóculos. Por muito que isso me apetecesse, e na altura apetecia-me muito e acima de tudo, eu não conseguia encontrar naquela imagem gélida, bélica, desumanizada, petrificada a betão, a classe operária que eu tudo fazia por servir e seguir, as lutas dos trabalhadores, os gritos anticapitalistas contra a opressão, a igualdade e a fraternidade que procurei no comunismo, a camaradagem representada na vida do partido, a festa da festa do avante, o Cunhal contado a admiradores, seguidores e crédulos, muito menos amanhãs mesmo que afónicos. Mais que para fora, o Muro pareceu-me apontado para dentro, também para mim, comunista e internacionalista, marxista-leninista pois claro. E a visão do Muro, enquanto claustrofobia totalitária, reencontrei-a quando o vi de novo á minha beira estando sentado numa esplanada durante uma visita à beleza de Potsdam, perto de Berlim, dando-me a dimensão tentacular daquele polvo de betão. Apesar do choque, o Muro não me trouxe, então, indignação ou protesto. Simplesmente, engoli-o, por disciplina e fidelidade, como outros que ainda hoje andam enfartados com gulags e lubiankas a inchar-lhes o estômago transformado em sede de pensamento político e absorvedor de neurónios para serem corroídos pelo suco gástrico.

Hoje, quando vejo pedaços expostos do Muro que engoli em Berlim-Leste há quase trinta anos atrás, graffitados como não o conheci, sinto-os como se tivessem saído de dentro de mim por via de vómitos, admirando-me com as dimensões daquilo que um ser humano, abdicando da inteligência e da lucidez, sobretudo do juízo sem amos, pagando o preço da tranquilidade de uma paz ideológica, é capaz de olhar sem ler na escrita do betão, o que petrifica ideais, sonhos e utopias.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

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É natural. Julgo que acontece o mesmo a todos. Perdemos a memória dos primeiros tempos da infância. Dessa fase, ficará um ou outro flash mas terá de ser algo muito marcante para resistir à erosão do tempo e à necessidade da nossa capacidade para memorizar expelir recordações e registos para receber outras, mais recentes. Qual a idade mais recuada em que nos recordamos de nós próprios? Exceptuando uma grande alegria ou um enorme desgosto de tempo mais infantil talvez seja a fase do início escolar e mesmo assim através de um ou outro breve episódio. O certo é que pouco me lembro dos meus primeiros anos de vida. Por isso, muitas vezes dei comigo a olhar as fotografias guardadas de quando era muito pequeno e perguntar-me: mas este sou (fui) eu? E nunca me conseguia rever na personagem retratada, ligando imagem e realidade vivida.

Entre as fotografias que guardaram de quando eu era criança, havia uma (não sei onde pára) que me despertava especial curiosidade. Teria os meus quatro anos. O ambiente do cenário era campestre, tinha uma flor na mão e usava um enorme chapéu de palha de adulto para me proteger do sol. O meu riso foi captado escancarado pelo fotógrafo e deve ter sido assim por cauda da novidade de ser retratado pois não me lembra outra qualquer fotografia minha em que estivesse tão risonho. Mirei e remirei essa fotografia vezes sem conta. Aquela foto era uma espécie de redenção da minha absoluta e persistente falta de fotogenia. Achei sempre que nela tinha ficado muito bem e que nunca tinha voltado a ser tão bonito. Melhor, ficou cá para mim a certeza de que, na altura da fotografia, foi a única vez em que a beleza foi generosa para com a minha figura tão vulgar quanto desinteressante. Mas havia mais, olhando-a, a minha atracção por aquela fotografia tinha ainda qualquer coisa de misterioso que me prendia a ela e que ia além do riso, da flor e do chapéu grande. Durante anos, volta e meia, vasculhava no álbum familiar à procura dela. Tornou-se uma obsessão. Havia algo que ou não batia certo ou então faltava ali.

Um dia, teria os meus catorze anos, percebi num instante o que me levava a perscrutar insistentemente o raio da foto. Desvendei o mistério num ápice. É que a fotografia estava excelente mas o fotógrafo tinha-me cortado os pés no enquadramento. Não entendi como é que estando eu tão bonito, o fotógrafo (o meu Tio Luís) tinha feito aquele enquadramento desajeitado e logo ele que se ufanava de ser mestre amador naquela arte. Resolvi exprimir a minha indignação e lavrei o meu protesto verbal. Mas o artista tinha as suas razões. O meu tio explicou-me que me enquadrara sem pés porque eu estava descalço por ainda não ter ganho estatuto social suficiente para calçar sapatos, sandálias ou chinelos que fosse e decidiu poupar-me a essa evidência da minha desqualificação social (só depois, arrancado aos meus pais e à minha aldeia de Trás-os-Montes, com a vinda para a cidade, onde se proibia circular-se descalço, entregue aos meus tios e pais substitutos, passei a ter direito a sapatos). Percebi a boa intenção mas achei mal que a vergonha (do fotógrafo, não a minha) tivesse impedido que a melhor de todas as minhas fotografias me mostrasse incompleto, sem direito aos meus pés.

 
(Texto revisto de um post publicado no blogue Água Lisa)

dissidente  

Com atraso, verifiquei só agora que em Julho passado fez dez anos que faleceu o António Graça, funcionário clandestino do PCP durante muitos anos, torturado e preso durante seis anos pela PIDE, dirigente daquele partido e depois impulsionador de uma das mais importantes dissidências no PCP no final da década de 80. 

Sobre António Graça, transcrevem-se duas evocações. A primeira é da autoria de Raimundo Narciso: 

«O António Graça era um dos quatro ou cinco membros do Comité Central que em 1987 e 1988 desenvolveu, naquele órgão do PCP, uma assinalável actividade crítica à linha política da direcção de Cunhal. Demitiu-se em 1991. Foi desde muito novo um destemido lutador contra a ditadura fascista e militante do PCP. Desenvolveu nos anos cinquenta e sessenta, como quadro clandestino do PCP, importante actividade política que o levou à prisão durante seis anos a partir de 1964. Submetido a torturas pela PIDE para denunciar companheiros, resistiu a tudo. Por isso, no PCP, pertencia à galeria dos heróis, até ao momento em que contestou as orientações e as práticas da direcção do partido. Foi um dos iniciadores do INES e da Plataforma de Esquerda. Não aderiu ao PS nem foi para a Política XXI. Defendia que os ex-comunistas deviam, com outros, criar um partido próprio. António Graça, foi membro do CC do PCP de 1979 a 1988, participou nos trabalhos da Comissão de Extinção da PIDE/DGS em 1974 e 75. Nos anos seguintes, foi responsável pelos serviços de informação do PCP. Era um quadro político com grande experiência, argúcia e uma prodigiosa memória. Faleceu com 60 anos, em 1 de Julho 1999. Era muito respeitado e estimado pelos seus companheiros políticos. Era meu amigo. Era teu amigo.» 

(depoimento incluído numa entrevista que Raimundo Narciso concedeu em Abril de 2004 ao blogue «Água Lisa».
 
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livro da terceira classe

Tenho experiência de como temos de domar o bárbaro que transportamos em cada um de nós. Desde cedo. Desde tão cedo que essa minha experiência de criança é ainda hoje uma cicatriz na minha memória.

Andava na então Terceira Classe, tinha dez anos. Lembro-me bem do professor. Era um ser frio e duro. Mas não me lembro que tivesse olhos porque eles estavam escondidos atrás de umas lentes muito grossas. Mas sentia-se o seu olhar gelado de severidade a sair por baixo do Crucifixo ladeado pelas caras sombrias de Salazar e Carmona. Naquele tempo, usava-se palmatória para castigar maus comportamentos ou falhas na aprendizagem. A aplicação de castigos físicos ou de humilhação aos alunos integrava o sistema educativo salazarista e não era contestado, porque não era sequer contestável, nem sequer pelos pais. Por isso, uma régua grossa de madeira fazia parte dos instrumentos de «ensino e disciplina» que ornamentavam a mesa professoral. Mas o professor da minha Terceira Classe, severo e cruel na aplicação de palmatoadas, lembrou-se de refinar o seu sadismo, recorrendo à sus difusão pela transformação dos castigados em castigadores. Periodicamente, organizava uma espécie de sabatinas em que um miúdo fazia uma pergunta sobre matéria escolar a outro. Se este não soubesse a resposta certa, o perguntador tinha direito a dar uma reguada na mão do ignorante. Ele queria envolver-nos e integrar-nos no mundo de lobos em que a mente do desgraçado vivia. Usava, assim, uma espécie de pedagogia de torturador.

Um dia, um mau dia, calhou-me fazer a pergunta crucial a um companheiro de classe. Senti uma importância prepotente a subir ao cimo dos meus dez anos. Rebusquei a pergunta mais complicada que consegui construir. O desgraçado do colega não fazia a mínima ideia quanto à resposta. O professor proferiu o veredicto: dá-lhe uma reguada. Aquela desproporção de poder apoderou-se de mim e senti a luxúria do domínio sobre outro. Peguei na palmatória e atirei-lhe uma reguada com toda a força que tinha. O meu colega contorceu-se de dor e ficou com a mão inchada durante uma semana. Eu tinha ultrapassado o «Mestre». Senti um profundo mal estar e assustei-me com a minha bestialidade. Eu tinha mudado de campo de uma forma instantânea. E da volúpia sádica desci à vergonha, à mais profunda das vergonhas. Ainda hoje sinto essa cicatriz nas minhas lembranças de infância. Por ter aprendido cedo demais a facilidade com que de pisado se passa a canalha, o frasquinho com o antídoto para o veneno do domínio nunca saiu do meu bolso. 
 
 
(Originalmente publicado no blogue Água Lisa)

Juan José Millas - O Mundo

Juan José Millás não teve sorte com as dores de infância, elas foram muitas. Mero acaso pois nenhuma criança escolhe, incluindo as dores. As escolhas ficam sempre para a idade adulta, sobretudo a de banalizar a memória, tentando viver sem ela, ou preferir entender que todos os trajectos começam ali, na infância, onde estão todos os enigmas e todas as chaves para nos entendermos. Uma lucidez acerada e um invulgar talento de escrita podem, ainda, fazer o que Juan José Millás conseguiu no seu romance O Mundo (*): a revisitação da infância, no seu tempo e lugar, como quem vai ao cinema e está tudo ali, projectado, em movimento. E perceber-se que, na vida vivida, a infância está sempre a espetar-nos. Tudo dependendo da memória e da coragem de a ela se «descer». 

Quando há alguns meses atrás foi editada a versão portuguesa de O Mundo, folheado e comprado o livro, desconfiei que tinha ali um fascínio literário à minha disposição. Decidi guardá-lo para o ler mais tarde, em relax favorável a não perder pitada dos sabores. Fiz bem, sobretudo porque é inevitável a tentação de se fazerem viagens paralelas quando se acompanha um escritor em viagem de vida. No caso, com a ajuda particular de eu e o escritor termos vivido semelhanças dos tempos de crescimento, na mesma pequenez e na mesma asfixia, confirmando as enormes semelhanças entre as castrações operadas pelo franquismo e pelo salazarismo. E, visto por este ângulo, está ainda por avaliar quanto as décadas das noites ibéricas marcaram as infâncias portuguesa e espanhola, directa e indirectamente através de pais tristes. 

Livro lúcido e saboroso, uma autêntica viagem ao fazer-se humano, O Mundo tem um brinde – a figura de «Vitaminas», um dos personagens que vai ficar, arrisco, como um clássico da literatura. Impossível pedir-se mais a um livro da melhor literatura, hispânica mas tão perto. 

(*) – O Mundo, Juan José Millás, Editora Planeta

 
(Publicado no blogue Agua Lisa)

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Com os meus sete anos de idade tive direito às minhas primeiras férias de praia no Algarve. Iria para Sagres a banhos durante dois meses nas férias grandes. Na altura, primeira metade da década de 50, o Algarve não era terra de turismo, exceptuando a Praia da Rocha e pouco mais e mesmo aí com dimensões muito modestas. Os algarvios viviam, a maioria muito mal, da agricultura, da pesca, das conservas e da indústria corticeira concentrada em Silves. Aliás, nos seus modos de viver, a pobreza algarvia era uma continuidade da pobreza alentejana, numa homogeneidade de paisagem humana e social, com a excepção da dimensão das propriedades agrícolas (mais concentrada no Alentejo e mais dispersa no Algarve) e que só as serranias de fronteira davam conta da mudança de província. E se o turismo em todo o Algarve era minúsculo, em Sagres o único forasteiro (turista) a banhos era eu. A razão deste tamanho privilégio devia-se à Dona Francisca, uma algarvia nómada que fazia temporadas de costura como modista em Lisboa, recolhendo-se à sua terra durante o verão em retorno à sua condição de pequena camponesa e cujos magros proventos compunha com os ganhos amealhados a costurar na capital. Como a senhora costurava para a minha Tia Ana, foram ajustadas com ela umas férias algarvias para o sobrinho enfezado e a quem talvez o iodo e umas braçadas ajudassem a encorpar. E foi assim, em suplemento de receita para a Dona Francisca, que ela se dispôs a ser minha hospedeira turística e eu usufrui dessa regalia a poucos acessível de me tornar um dos poucos turistas no Algarve da época.

Mas para veranear em Sagres, havia que lá chegar e usando os vagarosos meios de transporte daquele tempo e em que poucos eram os passageiros com tal destino. Fui metido mais a mala de bagagem na camioneta da carreira da Companhia dos Belos que saía de Cacilhas e ia até Faro. A mala foi guardada no tejadilho da camioneta juntamente com as tralhas dos restantes passageiros. De cada vez que a camioneta parava, o motorista subia ao tejadilho através de uma escada metálica e descarregava as malas e embrulhos dos que se apeavam e iam indicando quais os seus pertences e depois carregava as mercadorias acartadas pelos novos passageiros que se iam juntando à viagem. Eu tinha a recomendação que devia descer em Lagos, onde a Dona Francisca me esperava para me levar, noutra ligação rodoviária, para Sagres. Era a minha primeira viagem entregue a mim próprio. Perguntei como é que eu saberia quando tinha chegado a Lagos. Explicaram-me que Lagos era uma terra grande e a camioneta parava num largo, logo que lá chegasse disso me daria conta. Tentei fixar estes pormenores que eram fundamentais para me orientar. Repeti para comigo diversas vezes: “Lagos é uma terra grande e lá, a camioneta pára num largo”. Feitas as despedidas, a camioneta arrancou. Ao passar por Setúbal, a viagem já me parecia muito comprida. Tanto o tempo demorava a passar e o desfilar da paisagem pela janela me surgia monótona que me convenci que, passado que era essa tal terra grandinha de Setúbal, já não devia faltar muito para o meu destino. O Algarve, Lagos, devia ser um bocado mais à frente mas não muito. A camioneta entra em Alcácer do Sal sem me aperceber do nome da terra em que tinha entrado, vejo compridos casarios e dou com a camioneta a parar num largo. Sobressaltei-me com aquela visão de um largo, lembrando que a camioneta parava em Lagos num largo, apresto-me a sair, suando com o receio de passar Lagos e ir parar a um destino mais longínquo onde nunca mais encontraria a Dona Francisca. Peço ao motorista que tire a minha mala do tejadilho. Indico qual é e num instantinho já a tinha ao pé de mim. Olho em volta e não vejo sinal da Dona Francisca ou de quem, a seu mando, desse sinais de me esperar. Aflijo-me sem capacidade de reacção, a mala ao meu lado em companhia inerte. O motorista prepara-se para retomar a marcha mas um sexto sentido fá-lo reparar no meu ar em bloqueio aflito. Desce da camioneta e pergunta-me se está tudo bem. Eu explico que não vejo quem me vinha buscar a Lagos para me levar para Sagres. “Lagos? Sagres? Estamos em Alcácer”. É a minha vez de não entender o que se passava. “Alcácer? Mas eu quero ir para Lagos”. O motorista volta a carregar a maleta no tejadilho da camioneta, manda-me subir e diz para estar tranquilo que, quando chegasse a Lagos, me avisaria. A viagem pareceu-me interminável. E, para atrapalhar, em quase todas as terras onde a camioneta parava, havia largos. Fixava crispado o motorista pois estava sempre com um tremendo medo de o homem se esquecer de mim e passar à frente de Lagos. A solução era fixar, placa a placa, os nomes de todas as terras. Mas os nomes que ia vendo desfiarem-se perante os meus olhos nada me diziam. Cercal seria antes ou depois de Lagos? E Milfontes? E Aljezur? A concentração e o nervoso eram tantos que não toquei na merenda que me tinha sido preparada para a viagem para os confins do Sul. Não me podia distrair e o nervoso afugentava a fome. Lá cheguei a Lagos, com aviso prévio dado pelo motorista. E passada mais uma viagem adicional, já estava instalado na casa da Dona Francisca para início das minhas primeiras férias algarvias, estreando o turismo de praia em Sagres.

No regresso, tudo foi mais fácil. A camioneta dos Belos parava em Cacilhas e imobilizava-se a olhar para o Tejo, a bisbilhotar os passageiros dos cacilheiros. No meu raciocínio de então, formulei o juízo definitivo de que as camionetas estavam muito mal organizadas. Elas deviam sair de um sítio até outro sem paragens pelo meio que só serviam para baralhar os passageiros. O certo é que daquelas longas férias de praia algarvia só acessível a um forasteiro privilegiado, mais que dos banhos e das brincadeiras, que foram prazenteiras e com muito bom trato da hospedeira, no que a minha memória ficou mais marcada foi a odisseia e sofrimento para chegar a Lagos, uma terra onde a camioneta parava num largo.

 
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

 
Biografia de João Tunes

Lenine  

Anos oitenta do século passado. Moscovo sob o mando do velho e doente Andropov. A conferência sindical internacional em que participava integrando a delegação da CGTP decorria burocrática e sonolenta na vetusta e simbólica Sala das Colunas. Não era mais que um número para a contabilidade das iniciativas pacifistas contra a “guerra das estrelas” no que tocava aos mísseis americanos na Europa. Discursos a fio a convidar mais ao bocejo que ao interesse. Estavam ali Sindicatos das sete partidas como podiam estar organizações de jogadores de damas ou de matraquilhos.

Tempo frio. Escapadelas não resultavam porque não valiam a pena. Uma vez, um intérprete russo convidou-nos para bebermos uma cerveja lá fora. Vamos a isso. Entrámos numa espécie de tugúrio, metia-se uma moeda numa ranhura e saía uma mijoca para dentro de uma caneca. As canecas, depois de usadas, eram apenas passadas por água antes de servirem para o próximo cliente. Casa cheia com indivíduos em pé, tristes como o tempo, a beberem por beberem, cada vez mais tristes e silenciosos conforme mais bebiam. Imagem de uma sociedade imobilizada sem que, no entanto, alguém se atrevesse então de profetizar a implosão que não tardaria.

Às tantas, a Mesa da Conferência avisa que vai haver um intervalo para uma cerimónia importantíssima. Motivo não explicitado. Ora, o que for se verá. Tudo metido em autocarros. Destino: Mausoléu de Lenine. Enorme fila de visitantes alinhados ao longo da Praça Vermelha. Nós somos VIPs, passamos à frente da fila. Ninguém protesta. Entramos, a segurança manda-me abotoar o kispo e colocar as mãos em pose de solenidade. Passagem rápida frente à múmia. Lá estava ele, Lenine, com cara cor de cera. Saímos. Cerimónia terminada, culto necrófilo prestado, regresso à sala das Colunas para mais discursos e mais sonolência.

Nunca entendi o que fazia ali aquela múmia, excepto que combinava bem com um país povoado por almas em cera, sobretudo quando discursavam. Mesmo assim, tive sorte de só ter visto só uma múmia. Em tempos, ela já tinha tido companhia. Aliás, aquela múmia foi para ali para que a outra, a de Estaline, quando chegasse a sua vez, pudesse ir para o seu lado. Depois, a segunda múmia, já quando não passava de uma múmia, caiu em desgraça e foi deslocalizada para o cemitério do Kremlin, enquanto a primeira múmia ainda lá está. Solitária. Sem consenso sobre o seu destino. Fica, não fica. Vai ficando.

 
[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

 
Biografia de João Tunes

Alfredo da Silva  

Para se conhecer a tradição da cultura patronal portuguesa será incontornável conhecerem-se os discursos (o público e o escondido) do maior patrão da indústria portuguesa de todos os tempos, Alfredo da Silva, que, através da CUF e à sombra do proteccionismo salazarista, construiu aquele que chegou a ser o maior complexo industrial da península ibérica e um dos maiores na Europa. Que, pelo gigantismo industrial da rede de actividades e empresas que criou e que os Mellos, seus herdeiros, ainda ampliaram mais, criou também a maior concentração operária portuguesa, aglutinando uma enorme migração de camponeses que fugidos das fomes nos campos (das Beiras, do Alentejo e do Algarve) constituíram o típico “proletariado CUF” que ainda hoje marca a paisagem humana e social de Alcântara e, sobretudo, da cidade do Barreiro. 

Com formação académica virada para os negócios, herdeiro de uma média fortuna, tarimbado na actividade bancária e na administração da Carris, Alfredo da Silva era um genuíno e entranhado homem de visão larga para o negócio e a criação empresarial mas senhor de um posicionamento profundamente conservador e reaccionário. Grande patrão, era autoritário de tipo autocrático, violento nos ódios, germanófilo, monárquico, sidonista, antisindical e antidemocrático. E plasmou todas essas características numa adesão indefectível ao salazarismo, sendo um dos esteios das oligarquias em que o regime do “Estado Novo” se sustentou. Na criação inicial do seu império industrial nas duas margens do Tejo mas progressivamente expandido na vasta área industrial barreirense, que coincidiu com o período republicano e com um sindicalismo de forte influência anarquista pela frente, Alfredo da Silva envolveu-se no embate brutal frente às reivindicações operárias (em que as mulheres ocuparam lugar de destaque na luta) que procuravam minorar as terríveis condições de exploração que era arrastada pela gigantesca e impiedosa grande industrialização cufista. Enfrentava contestações e greves com toda a brutalidade, indisposto a cedências, não permitindo que continuassem com emprego os que não se mostrassem dóceis e se destacassem em qualquer acção de classe. Mas, simultaneamente, desenvolveu um estilo patronal de tipo paternalista e assistencialista para com os seus empregados e operários, que gerou e expandiu um mito (que ainda hoje perdura) de “patrão amigo e protector”. Esta dualidade, nem sempre percebida, gerava reacções contraditórias, donde terá sido o patrão mais odiado pelos sindicalistas e o mais amado pelos “operários agradecidos” (os baixos salários e as condições de alta e intensiva exploração do trabalho eram “compensados” por uma rede de assistência médica, habitação social, escolas, previdência, abastecimento de géneros, associativismo desportivo, actividades lúdicas). Assim, a Operárias da CUF em grevehistória da CUF é também a de grandes e duras greves, primeiro no período republicano (1910-1919), depois em pleno salazarismo (com destaque para as de 1943), a que se seguiu um longo período de “acalmia” que o aparelho repressivo se empenhava em vigiar e jugular (a GNR estava implantada com quartel dentro das fábricas, os aparelhos internos da Legião e dos “bufos” da PIDE eram expeditos a denunciar os movimentos reivindicativos logo na fase de germinação, as células comunistas eram alvo de controlo e repressão).     
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avante
 
Numa vila de forte concentração fabril assente em três pólos (CUF, oficinas ferroviárias, corticeiros) onde as colectividades proliferavam como cogumelos, agregando afinidades e gerando rivalidades, era nesses locais que se concentrava o grosso do convívio e a partilha das paixões menores, onde a distensão pós-laboral encontrava o seu espaço de catarse. O primeiro passo para a inserção era escolher e escolher pressupunha optar entre grandes ou médios amores e pequenos ódios, depois havia que fazer o itinerário da iniciação, a que se sucedia a fusão cultural com os rituais e os símbolos até se atingir o estágio identitário. O operariado dominante, em termos demográficos e sinaléticos sócio-políticos, transpunha para a colmeia associativa do Barreiro reproduções possíveis, aquelas que eram passíveis de romperem a malha da vigilância repressiva, das suas organizações produtivas, incluindo as respectivas hierarquias (os empregados e a aristocracia operária dominavam os órgãos dirigentes), formas culturais próprias, os seus mitos e as aproximações às camadas urbanas estabelecidas fora dos muros das fábricas. Nesta rede social de convívios compensadores de realidades laborais, com códigos sucedâneos vincados, as maiores dificuldades de escolha e inserção estavam, naturalmente, reservadas aos jovens, particularmente aos que estudavam e que tinham adquirido afinidades que extravasavam a fixação paranóica na urbe onde as fábricas eram pólos de dominação e opressão, em que uma «cultura fabril» prolongava a sua centralidade económica. De tal forma o conseguia, misturando tradição, reconhecimento, consciência e insubmissão, traços muito próprios e genuínos nos barreirenses, que os grandes mitos humanos circulantes, enquanto referências exaltadas, caminhando a par e em espantosa conciliação, eram Cunhal (o herói-mártir da resistência) e Alfredo da Silva (o super-patrão da CUF e adepto da gestão paternalista-assistencialista). O que representava um milagre cultural e político pela completa ausência de antinomia com que a maioria dos barreirenses fazia a gestão harmoniosa destes dois símbolos afectivos, tão opostos na luta de classes, mas tão próximos no afecto da admiração dos gratos. 

No início da década de sessenta, o Café Tico-Tico, colocado bem no centro do Barreiro, na avenida mais nobre, junto ao mercado e ao jardim do núcleo urbano (o Parque), assume uma dimensão convivial excêntrica relativamente às colectividades, operando uma espécie de importação dos espaços gregários e lúdicos homólogos que vincavam Lisboa, ali tão perto e tão longe. Rapidamente, o Café Tico-Tico transformou-se no pólo de encontro da pequena e média intelectualidade do Barreiro. Com um piso térreo onde abancavam os clientes mais maduros e onde pontificava o Mestre Cabanas, um idoso combatente antifascista, artista autodidacta em gravura sobre madeira, e que ali montara a sua banca de realização estética. O piso mais alto, em forma de varandim, com vista para o movimento em baixo, era o poiso preferido de estudantes que liam ou descansavam os livros e cadernos de estudo, galhofavam e ensaiavam namoros, enquanto os mais dados às aventuras intelectuais, cruzavam apreciações definitivas sobre os últimos livros publicados ou jogavam xadrez.

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Lenine no rio 

Havia (e haverá, pois julgo que ainda estará vivo,) no Barreiro, uma pessoa chamada Estaline de Jesus (julgo que Estaline por parte do pai e Jesus por parte da mãe) o que era uma prova viva que as religiões sempre se encontram. Nunca o conheci pessoalmente apesar de ele ser, pelo impacto do nome, uma referência da terra, mas será de uma geração mais nova que a minha, o que explica que dele só fale por eco. Não tenho, assim, testemunho a dar sobre este famoso barreirense.  

Mas tenho um sucedâneo que, sobre esse, posso prestar testemunho directo e vivo na memória. Continuando no mesmo Barreiro que gerou o Estaline de Jesus, nos anos 50 do século ido, tive um colega de escola e turma, que se chamava, por nome próprio, Lenine (este sem santidade cristã acopolada). E ainda hoje re-oiço os ecos dos gritos das nossas futeboladas de recreio em que nós, os outros putos (reles mencheviques por falta de brasão revolucionário no apelido), desesperados pelo egoísmo de posse de bola do craque que era bolchevique por vontade parental, lhe gritávamos a pulmões cheios: “foda-se, passa a bola, ó Lenine!”, o que, em tresleitura, até parece um slogan de dissidentes. O que é uma falsa aparência pois aquele Lenine era catita, questão de fome de posse de bola à parte, e sobre bolchevismo, a malta, naquela idade, sabia menos que nada. Mas este Lenine, enquanto Lenine no nominativo, não durou muito (o titular do nome, esse, deve ser um reformado sobrevivo e cheio de genica, pelo menos são estes os meus votos). É que, como se compreende para a época, o nome deste meu estimado colega de meninice não era bem visto pelas autoridades, tanto mais que, no Barreiro da época, reinava uma repressão de chumbo, estando sob ocupação militar da GNR que acolitava os olhos e as matracas da PIDE. 

Entre os vigilantes mores da situação estabelecida e dos bons costumes, contava-se, como quase sempre esteve no fascismo, a Santa Madre Igreja. E o padreca, nosso professor de Religião e Moral, tirou a peito aliviar o bom do Lenine daquele nome ímpio que lhe constava no Registo. E conseguiu-o, após pressões e chantagens várias, exercidas sobre a família. Não me recordo qual o nome substituto pelo qual, numa qualquer operação manhosa de crisma, o Lenine passou a chamar-se à luz da Igreja e do Registo. Mas o que garanto é que, para nós, os inconscientes mencheviques seus camaradas em escola e recreio, ele continuou a ser “o Lenine“, sobretudo quando das nossas futeboladas acesas. Falando só por mim, mas não duvidando que não terei sido caso único, cresceu, deste modo, uma imensa curiosidade em saber quem era esse tal Lenine, não aquele puto egoísta de posse de bola mas o inspirador baptismal, que tinha um nome proibido de se chamar. Este é um dos paradoxos da minha educação política e ideológica, obtida no santo mistério da contradição, que ainda hoje não renego como dívida eterna à Santa Madre Igreja dirigida por Cerejeira.

 
Biografia de João Tunes

José AugustoDesde a infância até à adolescência, ter-se um ídolo, ou vários, é uma âncora fundamental para a saúde do crescimento. Depois, em idade adulta, o culto dos ídolos já é mais discutível – pode dar para o torto quando deriva de infantilização tardia ou ser uma bengala útil que ora se usa e se vai metendo em repouso. O problema dos ídolos é que eles são fugidios, deixam marcas fortes pelo rasto de mimetização e depois seguem viagem para dar lugar a outros ou devolvendo-nos à orfandade de refúgio para darmos conta de nós. Por instinto, vamos lidando com as projecções nos nossos ídolos, gerindo a sua volatilidade entre presença e ausência e ainda, parte dura, a sua intangibilidade. Pelo meio, é a boa gestão desta relação com os ídolos que nos dá a paz do equilíbrio por não sermos forçados nunca a medirmos, taco a taco, a dimensão da nossa «pequenez» perante tanta «grandeza», a do ídolo, podendo viver, com autoestima, um talento ou fama emprestadas. Mas o problema original da lide com os ídolos surge em conseguir tê-los à mão de semear, mas que pode, por proximidade com o imaginário, matá-los ao abrir da redoma. Se a distância desaparece e eles passam do ideal para a realidade, ou caem com os seus pés de barro e adeus vindima, afinal são humanos como nós, ou então são mesmo grandes e supremos e sentimo-nos mal ao medirmos as alturas relativas. Assim, para poder ser fonte de saúde, o herói deve estar suficientemente longe mas em altar onde façamos as nossas missas.

Arrasto, na minha memória, a sombra dos meus ídolos passados. A mais forte é, como costume, a do primeiro na fila da lembrança. Que, para não fugir à regra dominante dos miúdos varões, foi um jogador de futebol. Era o José Augusto, famoso extremo direito, então ainda a jogar no Barreirense mas já a gozar de fama mais que merecida. Um dia, tinha para aí os meus onze anos, fui cumprir uma das obrigações terríveis que um miúdo tem de suportar devido à ditadura dos adultos, a de cortar o cabelo. Havia uma barbearia bem junto ao campo do Barreirense com quem estava ajustado o contrato de, todos os meses, me cortarem o cabelo. Aquilo era um tormento, o feitio do corte estava pré-escolhido pela autoridade familiar, tinha um remoinho capilar que era indomável, custava-me esperar ouvindo conversas intermináveis sobre assuntos de adultos que nada me diziam e parecia-me infindável aquele tanto tempo de tesouradas e aparadelas com uns toques agressivos na cabeça de cada vez que tendia a virá-la para o lado errado ou deixá-la descair. O barbeiro tinha já iniciado a sua sessão de tortura quando se senta na cadeira ao meu lado, ali mesmo ao pé de mim, o José Augusto, o craque. Ia dando, emocionado e intimidado, as minhas miradas de soslaio para o meu herói, subitamente ali à minha beira, na singela distância entre duas cadeiras numa barbearia. O tempo foi passando e, enquanto eu ia sendo tratado secamente pelo profissional que cuidava da minha rebeldia capilar num crescendo de irritação para com ela, o colega que tratava do José Augusto era só mesuras e deferências para com o cliente famoso, um orgulho da terra e do clube. E a minha tortura arrastou-se, nesse dia, muito mais que o normal pois quem cuidava de mim era todo vagares e paragens na função para poder beber os pormenores que o José Augusto, ali ao lado, confidenciava sobre peripécias de jogos e treinos. Não gostei da experiência daquela proximidade que, antes, daria tudo para a conseguir. Porque em vez de ganhar grandeza com a proximidade do meu herói, senti-me ainda mais desprezível e irrelevante. Em vez de crescer, eu fui ainda mais reduzido à condição de miúdo irrelevante. Nada passaria a ser melhor, para mim e para a minha fama, não aprendi sequer uma finta ou um remate imparável, por ter, naquele dia, cortado o cabelo com o José Augusto ao meu lado. E um craque que viria a espantar todo o mundo com o seu talento de exímio extremo direito, a quem prestara culto embevecido, apeou-se ali em mistura com o meu cabelo aparado por uma tesoura de barbeiro. De vez em quando, cruzo-me com ele quando vou ao Barreiro, ambos envergando os nossos cabelos brancos. Presto-lhe um cumprimento de anónimo com a deferência mínima devida para com um ídolo apeado numa sessão de barbearia.

[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

Biografia de João Tunes

alfaiate 

Sou do tempo em que o pronto-a-vestir ainda não tinha aparecido e estava, portanto, longe de se ter apoderado do mercado das fatiotas. Quando se queria um fato, recorria-se a um dos alfaiates que eram, então, artesãos numerosos e respeitados. E a concorrência permitia uma escolha amadurecida. Quando se encontrava, por mestria ou simpatia, um alfaiate que nos apanhava bem os pormenores das linhas do corpo, então dava-se uma fidelização. Mas o normal é que os serviços de uma alfaiataria fossem prestados a todos os varões da família, dos mais velhos até os mais novos e por escolha do patriarca. 

A construção da vestimenta tinha os seus preceitos e vagares. Havia, primeiro, a escolha do tecido, normalmente adquirido numa loja-armazem da baixa lisboeta, após demorada investigação das relações preço-qualidade e só depois, matéria-prima na mão, o artesão entrava em funções numa sucessão de cerimónias com várias fases e suas demoras. A abrir, a sessão de se tirarem as medidas que quase imitava uma investigação anatómica. Depois havia as tormentosas sessões de provas que se iam repetindo para ajeitar mangas, bandas, pregas na cintura, as alturas mais os comprimentos e mais as larguras. O alfaiate de giz branco empunhado, alfineteira no braço, dava-nos voltas e mais voltas, repetindo a verificação do efeito das correcções em novas sessões aprazadas e até que a obra fosse considerada acabada. Uma seca, que no caso dos juniores desafiava a sua atávica impaciência para com tão repetidos e enfadonhos rituais.

Por economia caseira, calhava-me herdar os fatos que o meu Tio Luís ia pondo de parte por terem atingido o prazo do uso. Porque o custo do tecido pesava, e muito, no orçamento. Então, o alfaiate desmanchava os fatos usados e ia dispondo as partes dos tecidos do avesso. Quando tudo estava revirado, eu lá ia às provas tirar medidas e ajustar os pedaços de pano até que, do fato usado do meu tio, virado do avesso e com ajuda do mérito da diligente tesoura, lá saía o meu fato «novo». «Está como novo», era o que me diziam. Mas havia sempre um problema insolúvel. Na altura, usava-se, na banda esquerda do casaco, uma ranhura (cuja designação técnica se me varreu da memória) que era o sítio onde se podiam colocar emblemas, cujo uso era corriqueiro na época. Da volta do tecido das bandas, resultava que a ranhura, que devia estar à esquerda, ia parar ao lado direito. Assim, os meus fatos só eram «como novos» na aparência distraída porque a malvada da ranhura ao lado direito estava lá, bem visível, a assinalar o ferrete de se tratar de um «fato revirado». E parecia-me que toda a gente que passava por mim olhava para a ranhura do meu casaco e me gozava por eu estar a usar os fatos do meu tio. Claro que, assim, só usava fato se a isso fosse obrigado. A certa altura, apareceu a moda de se usar uma ranhura em cada banda do casaco, o que prefigurava uma solução para a minha tormenta. Depois, veio rápido o uso e abuso do pronto-a-vestir. Finalmente, o abandono das ranhuras nas bandas dos casacos. Tudo mudanças demasiado tardias para mim. O «mal» estava feito e sem hipótese de reconciliação. Desde miúdo que só enfio um fato no corpo por estrita obrigação. Que tem de ser muito, mas mesmo muito, solene.

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Biografia de João Tunes

Barreiro 

O longo caminho junto à muralha que dava para o Tejo e virada para Lisboa era sítio preferido pela miudagem nas suas formas próprias de entreter o tempo e inventar aventuras. O baixo casario em fieira corrida concedia um amplo espaço em terra e erva brava para todas as guerras de índios e futeboladas em que cada um se sentia o José Augusto ou o Faia. Para mais, um moinho antigo mas conservado estava ali prontinho para inspirar fantasias quixotescas. Vinha-se em bando deste a Igreja da Senhora do Rosário e só se parava depois de passar a Igreja Matriz no Arco Casal e então era tempo de pausa a olhar o cais sempre cheio de enormes barcos a despejar minérios para as fábricas da CUF e a levar sacos e mais sacos de adubos para fertilizar campos e até roças coloniais. Uma estirada pela marginal do Barreiro dava e sobrava para se chegar ao fim com vontade de ir para casa matar sedes e afagar o estômago. O dia já estava ganho. Seguir mais adiante, mesmo quando vontade sobrava, raramente calhava. Depois de se estar cheio de água do Tejo por dentro dos olhos e as botas escalavradas recheadas de pés doridos a pedirem descanso, ali na fronteira entre a vila e a Fábrica, pouca vontade havia de entrar na zona negra de pó e fumo. Mas uma vez ou outra, em que os ímpetos estavam mais afoitos e com pouca vontade de desmanchar a tribo, lá íamos pela estrada incrustada dentro da Fábrica até ao Bairro Operário disputar território a outras maltas. No nosso maniqueísmo tribal, a marginal era nossa, a malta do Barreirense, enquanto a garotada do Bairro Operário só podia estar enfeudada ao rival Desportivo da CUF. Nós éramos vermelhos e bons, os outros eram verdes e não valiam um caracol. Não tinha mais nada que se saber.

A estrada que retalhava a Fábrica era atravessada, a meio, por uma linha férrea de via reduzida por onde se levavam e traziam produtos entre o armazém e o cais. O movimento de comboios de mercadorias era constante pelo que a incursão tinha o aliciante suplementar de nos encher os olhos com o mistério que vinha à mistura com o vapor das locomotivas. Passada a linha férrea, erguia-se, num dos lados e integrando as instalações da CUF, um enorme quartel da GNR com sentinelas diligentes e espingardas a tiracolo. Demorou tempo até entendermos o que fazia aquele enorme Quartel metido dentro de uma Fábrica. Se ali se trabalhava, os guardas vigiariam os fumos e os adubos? Se a população vivia dos dois lados da Fábrica, e, em princípio, seria aí que os meliantes fariam das suas, porque raio os gnrs se encafuavam no meio dos sacos de adubo? Era a idade da inocência. Faltava-nos saber que, ali na Fábrica, a malta enfarruscada que punha a Fábrica a deitar fumo, uma vez por outra, também fazia greve. E isso era, no tempo, uma coisa tão grave e tão criminosa que se tratava primeiro à coronhada, depois em arrastos, por levas, para os cabecilhas serem entregues à PIDE.

Quando me explicaram a razão porque havia um Quartel plantado no meio da Fábrica e passei a notícia aos da minha tribo, todo o bando ganhou respeito pelos nossos adversários do Bairro Operário. Decidimos que não era justo afrontá-los mais. Bastavam e sobravam os olhares aterrorizadores dos gajos da espingarda ao ombro. Claro que não podíamos ficar com a fama de cobardolas e a justificação que demos para nós próprios foi que afinal a rapaziada do Bairro Operário também era adepta do Barreirense. Ora a malta do mesmo Clube não anda à batatada uns aos outros. Ou não deve. E nós começávamos a aprender essas coisas dos deveres.

 
 
(*) Terá sido caso único nas fábricas portuguesas. Quando das greves na CUF do Barreiro da década de 40, a então vila fabril passou a ser ocupada militarmente pela GNR, situação que se manteve até 1974. E um quartel daquela força militarizada foi instalado dentro das próprias instalações da empresa. Inclusive, os militares da GNR tomavam as suas refeições na cantina da CUF, num turno próprio e antes dos empregados e operários da fábrica. 

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Biografia de João Tunes

guerra

 
A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.

 
2 – O engenheiro amigo dos cães 

O Alferes Miliciano Teixeira foi incorporado no serviço militar logo após terminar o Curso de Engenharia Mecânica no Técnico. Era a vida daquele tempo. Não era mais nem menos que os outros. Vá lá que o incorporaram como responsável pelo serviço de manutenção das viaturas, o que o resguardava da pior sorte daqueles tipos que iam para atiradores, sapadores ou quejandos. Podia ter-lhe calhado melhor que a Guiné, lá isso é verdade. E, dentro da Guiné, teve de lhe calhar logo o batalhão de Catió, perto da fronteira maldita com a Guiné-Conacri, onde o PAIGC circulava com quase todo à vontade. Mas, «do mal o menos», dizia ele várias vezes para com os seus botões. É que, resguardado na sede do batalhão, tratando de pneus, diferenciais, sistemas de transmissão e afinação de motores, aquilo até servia de exercício prático para os conhecimentos teóricos acumulados e evitava andar pelo mato, a dar tiros de G3 e a desviar-se de tiros de kalashnikov.

O Teixeira era um conformista. Não contestava a sociedade, passou sempre ao lado das lutas estudantis e só ambicionava uma carreira numa grande empresa, onde pudesse demonstrar o seu gosto pela Mecânica. Não gostava de política e muito menos de lucubrações estéreis sobre os males da sociedade e os remédios para os males do mundo. Não era ele que ia mudar as coisas que estavam mal, que já assim estavam quando ele veio ao mundo. Os males já vinham de trás e, com certeza, não estavam à espera dele para endireitar o que estava torto. Ele aprendeu a endireitar máquinas, os gajos do governo e da política que endireitassem o resto. Era pacato nos hábitos e moderadamente sociável. Achava-se feio e, por isso, tinha uma posição defensiva quanto a namoros, festas e convívios. Tirando os pesos e alteres que ele praticava persistente e solitariamente, não apreciava exercícios desportivos que exigissem coragem física. Coragem que ele sabia que lhe faltava. Sentia-se até um bocado cagarolas. Sabia que não era pelo encanto pessoal que faria carreira. Restava-lhe não arranjar chatices e aplicar-se nos seus conhecimentos. A boa hora iria chegar. Pelo menos, eram os conselhos que os pais lhe davam.
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Embarque de tropas 

Melhor dito seria o aforismo se cantasse assim: «quem vai à guerra dá e leva, nunca volta como foi». Sim, não é possível participar-se numa guerra e não se mudar enquanto pessoa. Uns mais, outros menos, mas todos. Nos treze anos de guerra colonial (1961-74), centenas de milhar de jovens portugueses participaram nela, vivendo-a na fase do remate consolidado da personalidade. Sob condições mais ou menos cruéis, algumas extremas na dor sofrida ou causada ou observada, em grupos de partilha que durante o tempo de guerra foram o seu cúmulo exclusivo da família, dos amigos e da sociabilidade, cada um dos jovens lançado na guerra, os que regressaram, voltaram diferentes. Quando o fim da guerra chegou, uma revolução que virou e revolveu a sociedade portuguesa, ou não seria revolução, lançou esses antigos combatentes de fresco, ainda com a memória da guerra recalcada mas viva debaixo da pele, num novo desafio de mutabilidade profunda. Sendo a revolução feita e dirigida por militares, em que a motivação revolucionária muito teve a ver com o cansaço da guerra e tendo a descolonização como fito principal, o 25 de Abril e o que se seguiu foi, em termos vivenciais, um prolongamento adaptado da experiência da guerra ou, pelo menos, um regresso simbólico a ela. Só a civilização completa da democracia, com os militares a regressarem definitivamente aos quartéis e o país entregue aos partidos, permitiu ao larguíssimo sector masculino da sociedade portuguesa que tinha vivido a guerra colonial e a revolução, fazerem a catarse possível, adiada e lenta destas duas experiências fundas e companheiras. Hoje, longe que vão a guerra e a revolução, com a maioria dos antigos combatentes a calçarem as pantufas dos anciãos, com os cordelinhos da população activa e decisória entregues às gerações nascidas e criadas sem guerra nem revolução, numa sociedade em crise profunda de crenças e valores, em que a esperança mora pouco, assiste-se à maioria destes recorrerem à lembrança de si e do convívio com os camaradas de armas dos tempos de guerra como panaceia de conforto existencial, esgravatando as marcas fortes da juventude ida. Não admira. 

Cada qual é melhor observador dos outros que de si próprio. De mim mesmo, só sei que mudei muito nos meus dois anos de guerra colonial na Guiné (1969/71). Mas não me peçam pormenores porque não os esgravatei. No entanto, vim da guerra rico em observação de mudanças, espantado de ver como a guerra tanto muda as pessoas. Assisti (e partilhei, pois as mudanças eram feitas em grupo coeso e fechado) a quem mudasse muito e quem aparentasse mudar pouco. Houve de tudo, desde mutações profundas e desestruturantes até os que conseguiam passar a ilusão que foram e voltaram apenas dois anos mais velhos quando apenas se deu com eles mudarem mais por dentro que por fora. Mais que o episódico e o pitoresco das cenas de guerra, o que guardo de memória da guerra foram as mudanças que observei nos meus companheiros de belicismo obrigado. Talvez por isso funcionar como espelho escolhido para saber que, naqueles dois anos, também eu mudei, mais que uns e menos que outros. Dessa memória revisitada, escolho dois casos (os nomes foram alterados) para partilha de ocasião.         

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lisboa 

62 tinha sido um «ano em grande». O refluxo era inevitável e 63 fora fraquíssimo, quase tudo encolhido. Era preciso que a maré voltasse a subir. Na última semana de Abril, o «nosso orientador» montou o estado-maior em casa de uma colega nossa e minha namorada da altura, convocando a malta de confiança. Tudo escolhido a dedo. Tínhamos trabalhinho para toda a noite, fora o aviso. Distribuem-se os tempos de chegada, com cinco minutos de intervalo. Não convinha ir tudo à molhada e recomendava-se que cada um partisse de um sítio diferente e aparecesse com ar de ir passar uma noite de farra estudantil.

Quanto estávamos todos reunidos, oito no total, o «orientador» destapa um monte debaixo de uns jornais velhos e mostra uma série de sacos de lona que na altura se usavam para levar toalha e outros apetrechos para os banhos na praia. Os grupos já estavam seleccionados, aos pares de um rapaz e uma rapariga. Cada grupo de «casais» recebe a indicação da zona para onde vai actuar, um saco a tiracolo de cada um, fingindo tratar-se de um par de namorados e toca de, a partir da meia noite, enfiar convocatórias para o Primeiro de Maio impressas em papel bíblia por tudo que fosse porta, vão de escada e pátio. Era preciso que, na manhã seguinte, quando Lisboa acordasse, o povo estivesse convocado para o Primeiro de Maio de 1964 na Baixa. Para efeitos políticos imediatos e temporários, o chefe das operações de agitação decidiu que «trocava de namorada» comigo, ele ficava ali na improvisada «casa de apoio» com a respectiva inquilina a aguardar o regresso das brigadas e eu avançava com a namorada dele como companheira de distribuição nocturna de propaganda. Não me pareceu mal aquela troca de namoradas por uma noite e por imposição de trabalho político e lá fomos espalhar a papelada a começar no Largo da Graça e a acabar na Mouraria. Tínhamos aqueles dois bairros por nossa conta e risco.

Os sacos, atafulhados de papéis até à boca, pareciam pesar toneladas. Desde a Estrela, fomos a pé até ao Largo da Graça. Sempre de mãos dadas, tentávamos disfarçar o nervoso miudinho que teimava em fazer baixar tremeliques até às pernas, com risadas discretas e pseudo olhares românticos para encenar estado de enamoramento. Volta e meia, parávamos a olhar para uma montra e confiar que não tínhamos seguidores. No Largo da Graça foi tempo de descansar uma meia hora e esperar pela meia noite. Sentámo-nos num banco de jardim, tentando sossegar o coração porque o mais difícil estava para vir. Eu sempre com o braço por cima do ombro da minha camarada agitadora e ela encostando-me a cabeça com ademanes românticos.

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Guiné 1974 - PAIGC em Pelundo

Passaram ontem trinta e nove anos sobre um dos episódios mais traumáticos da guerra colonial. Às 16 horas do dia 20 de Abril de 1970, no norte da Guiné (na estrada entre Pelundo e Jolmete, na região de Teixeira Pinto/Canchungo de etnia manjaca), três oficiais superiores e um alferes miliciano do exército colonial português mais três guineenses colaboracionistas (*) foram mortos por forças do PAIGC. O episódio teve um efeito psicológico assinalável entre os militares envolvidos na guerra colonial não pelo número de baixas mas pela natureza do acontecimento e pelas pessoas envolvidas. Desde logo, porque perderam simultaneamente a vida três oficiais superiores portugueses considerados como pertencendo à nata do corpo de oficias profissionais nos teatros de operações. Depois, porque o alvo da missão dos quatro militares e dos três colaboracionistas guineenses era exactamente o oposto do que aconteceu – concretizar a rendição e passagem para o lado colonial das forças do PAIGC que operavam na região, após aparentemente bem sucedidas negociações de aliciamento realizadas antes. Finalmente, com enorme carga simbólica, pelas circunstâncias em que as liquidações se concretizaram (assassinatos a sangue frio e com requintes de crueldade de pessoas que se encontravam desarmadas). O certo é que o que se previa ser um momento alto da contra-guerrilha, a desarticulação operacional da intervenção do PAIGC no norte da Guiné e com efeitos devastadores na moral e na operacionalidade dos guerrilheiros anticoloniais, transformou-se num dos mais desmoralizadores insucessos do exército colonial português, com enorme impacto psicológico negativo na convicção de combate do exército colonial.

Por razões diversas mas confluentes, este episódio marcante da guerra colonial e as suas sequelas, do ponto de vista psicológico e simbólico, nunca teve tratamento adequado quer da parte da literatura portuguesa sobre a guerra colonial (nomeadamente na componente historiográfica) como da bibliografia do PAIGC ou a ele afecta. Do lado português, entende-se que uma derrota com aquela dimensão e aqueles contornos seja difícil de digerir, embora as vitórias e as derrotas devessem ter o mesmo peso analítico e factual no tratamento histórico do passado colonial feito guerra de conservação do império. O silêncio e pudor do PAIGC perante os acontecimentos é mais difícil de entender, a não ser pela dificuldade de admissão das divisões internas que o precederam e pela forma bárbara como as execuções dos militares portugueses e dos seus colaboradores guineenses, para mais desarmados, tiveram lugar.

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Planicie Alentejana  

Mais um ano para o início do cumprimento do serviço militar só servia para adiar o inevitável. Tinha que bater lá com os costados, mais tarde ou mais cedo. A guerra estava para lavar e durar e tinha-se atolado num impasse lodoso. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, dizia-se e diz-se. Quem tem vinte e três anos, a minha idade de então, tem é pressa de viver e vive ao momento. Além de não ser nada entusiasmante a ideia de vestir farda, marcar passo e ir para África alimentar teimosias de quem quer andar ao contrário dos ponteiros do relógio da História. O meu «compromisso académico» estava praticamente cumprido. Tinha uma única disciplina «pendurada» que tinha sobrado por causa de uma precedência. Dava três horas de aulas por semana, a sebenta explicava tudo o que havia para saber sobre «órgãos de máquinas» (assim se chamava a disciplina) que metia bielas, cambotas e pistons. No Porto, não me deixavam matricular por causa de um processo disciplinar que lá tinha suspenso por motivo das lutas estudantis, o regresso às aulas em Lisboa (de onde tinha sido despachado para o Porto pelas mesmas razões que agora não podia continuar na Invicta) estava condicionada à garantia de não pôr os pés nas aulas e só lá ir para fazer as frequências. Não me marcariam faltas e eu que arranjasse apontamentos para me entender com as cambotas e as bielas. Tudo bem, o que interessava era o direito a mais um ano de adiamento na hora de vestir a farda, estupidificar na Ordem Unida, cheirar pólvora na carreira de tiro e o pior que se adivinhava vir a seguir. E ir para o interregno militar (três anos da minha vida!) com o curso concluído permitia-me que terminada a tropa procurasse um emprego interessante. Mas não ia ficar um ano parado e sem aulas a preparar exames que não dava luta de estudo. E o meu casamento estava previsto para se dar antes de me fardar. Emprego como deve ser, nem pensar, sem serviço militar cumprido ninguém aceitava mancebos. Jornais lidos de fio a pavio à procura de uma coisita qualquer para me entreter e ganhar uns cobres, desato a responder a esmo aos anúncios em que vou encalhando.  

Às tantas, recebo carta de Ferreira do Alentejo propondo-me ir dar aulas durante um ano lectivo num colégio particular. Lá fui, procurando o director. Apareceu-me o Cura da terra que acumulava com as funções de professor, director e proprietário do Colégio. Ajustámos o preço que era sovinado, e bem sovinado, pelo clérigo. Eu daria aulas até Junho seguinte e ele pagaria, nesse último mês, os honorários das férias grandes. Para meu espanto, o meu Curso de Química pareceu-lhe apropriado a leccionar Geografia e Ciências Naturais, além de Matemática e de Físico-Química. Como a mão-de-obra era barata, ele aproveitava ao máximo. Acordo verbal feito, instalo-me em Ferreira, quarto alugado junto à Estação das camionetas da EVA e lugar contratado na mesa dos comensais do Regedor na companhia de meia dúzia de agrónomos que tratavam do regadio alentejano. O Cura, homem de grande corpanzil e enérgico, tinha vindo do Norte para evangelizar as terras pouco crentes do Alentejo. Tinha metido na cabeça que havia de energizar a modorra alentejana e levar os ímpios sulistas ao bom caminho. Era homem de mil ocupações – presidente do clube desportivo da terra e dinamizador da criação de corais alentejanos pelas redondezas. Além, é claro, das suas funções de docência, directoria e embolso dos lucros do Colégio que tinha, como clientela, os ricos e remediados do sítio que queriam os filhos com o Liceu feito mas sem irem e virem todos os dias de Beja. Era o que hoje se chamaria explorar um «nicho de mercado». 
 
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Publicado originalmente no blogue Água Lisa

Numa altura em que a Justiça anda, na consideração pública, pelas ruas da amargura (muito por culpa própria, quando procurou ou deixou mediatizar-se), é oportuno que se pare para pensar no percurso que fez para aqui chegar. E, para isso, interessa, desde logo, saber-se de onde veio. Ou seja, em que árvore foi enxertada. Nesse mister, é oportuníssima a edição do volume volumoso sobre como, décadas atrás, se julgavam os “crimes sociais e políticos” ou os “crimes contra a segurança do Estado” numa obra de académicos que documentam até à exaustão e à perplexidade a ignomínia vestida de toga que perseguia e punia a diferença, desde a grossa à comezinha (*).

Desde então, dessa Justiça sumária comandada a partir da polícia, muito foi o caminho percorrido quando as dobradiças do portão da ditadura se partiram. As mulheres, antes disso sujeitas ao ónus do sexo, irromperam pela magistratura dentro. A legislação floresceu e sofisticou-se com nós. A frequência de Direito passou a ser expediente de licenciatura para meio mundo incapaz de escolher vocação. O segredo de Justiça serve para ser violado por acosso de jornalistas desejosos de partilharem incontinências, vendendo-as em papel ou no écran. Hoje, é um cumprimento formal dizer-se que a Justiça é autónoma e um dos pilares da democracia. Resta o caminho urgente de uma reforma e da redignificação da Justiça que a desaproxime da balbúrdia pública e do seu enxovalho, reversos das suas contradições e vaidades. Para isso, primeiro que tudo, tem que converter-se à humildade do respeito.

Excepto para os apostados na morte do Estado, para que o Estado Totalitário se reerga, no modelo Salazar-Caetano ou seu simétrico, a esperança na recuperação da Justiça, enquanto Justiça democrática, tem direito a existir. E esse voto de confiança pode e deve colher-se no percurso feito que este livro oportuníssimo ilumina. Lê-lo é uma lição sobre a escala de entorses, comparando a prova do tempo dos crimes justiceiros com o dos entorses de crescimento. Mas, for favor, não demorem tanto no caminho a caminhar.

(*) – “Tribunais Políticos – Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo”; Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola, com coordenação de Fernando Rosas. Edição Temas e Debates/Círculo de Leitores.

Bagdad 

Uma das cidades que me ficou gravada na memória foi Bagdad. Não a cidade mutilada de hoje mas a que conheci há trinta anos atrás. Lembro-me de uma cidade plana, com ruas e avenidas largas, desenhadas em geometrias perfeitas. E, entrando para o casco da cidade, pisar o chão da velha Bagdad desenhada em círculos concêntricos pontuados por mesquitas decoradas por arabescos fascinantes e bazares onde tudo se vendia, que exalavam todos os cheiros das especiarias e ofereciam negócios de panos, cobres e pratas de todas as formas e feitios. As casas ricas apalaçadas lembravam que estávamos na cidade das mil e uma noites. E, depois, tinha um rio bem torneado que dava mais beleza ao conjunto. Então, em 1978, o nível de vida era muito razoável (vivia-se na euforia dos petrodólares e da subida do preço do crude), sentia-se segurança, movimento, cor, pujança e optimismo. O vestuário era variado, sentia-se desenvoltura, modernidade e sem os atavismos dos exageros islâmicos. Na altura, o parque automóvel envergonhava Lisboa, Madrid ou Paris. Todos de boas marcas ocidentais, potentes e quase todos novinhos em folha. O problema eram os cruzamentos, pois os citadinos, eufóricos e competitivos, aceleravam nas aproximações, tentando sempre passar primeiro que o parceiro, o qual, por sua vez, tentava não ser desfeiteado.

Ia em missão sindical, não conhecia a língua árabe e brindaram-se com um guia (um moreno baixo e com o típico bigode iraquiano) que só falava árabe. Assim, imagina-se que a nossa comunicação se reduzia a sorrisos, gestos e salamaleques. Mas, tudo bem. O homem não largava os hóspedes que tinha de guiar como sua função e, assim, era divertido fazer-lhe fintas em escapadelas do hotel, galgar uma avenida em passo largo para acabar de o ver chegar junto de nós, ofegante da corrida de recuperação da companhia. Todos os dias, de manhã cedo, quando descia para o pequeno-almoço, lá tinha o porfiado guia sentado e atento à minha chegada. Fazíamos uns salamaleques efusivos como cumprimentos e eu lá ia matar o jejum sem que o guia me incomodasse o sossego. É que, enquanto eu trincava as torradas e comia os ovos mexidos e a salada de frutas, o meu estimado guia subia ao meu quarto para revistar malas e armários. Rápido, porque o homem já estava no seu posto quando eu saía da sala de refeições. Chamavam-lhe guia mas é claro que não passava de um polícia zeloso. Tão zeloso que, depois das suas revistas, ficava tudo como se o chui por lá não tivesse passado e eu só confirmava a busca, porque tinha os meus truques para detectar mexidas mesmo que feitas por profissionais. Todo o dia era passado em companhia do prestimoso guia que, coitado, passava a vida a rir-se para ser agradável. Suponho que, após o meu regresso, o homem tenha tirado férias para estar, uns dias, sem se rir.

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Os filhos de EstalineSó pelo título e pela capa (*) poucos deduzirão que se trata de um livro que é essencialmente uma história de amor. Uma história admiravelmente escrita (com a mestria de um grande repórter) e sobre um amor especial. Tão especial que, por a narrativa se basear em factos e não em fantasia criativa, quase apetece, ao ler-se o livro, desejar-se inutilmente que não tivesse acontecido assim, com a «guerra fria» de permeio. Só que sobre isso não há volta a dar. 

Mas sendo uma história de amor, o livro de Owen Matthews (um consagrado jornalista anglo-soviético) é, porque esse é o contexto da génese de vida do autor ao ter nascido de um casamento entre uma cidadã soviética e um súbdito britânico, um livro que diz mais sobre a URSS, os dois lados da «guerra fria» e a Rússia pós-comunista que muitos volumes de sovietologia e de pós-sovietologia. E daí o título. Que, se calhar, até nem está mal. Com o aliciante de se ler com a velocidade e o fascínio de um fôlego. Para depois se parar para respirar e aceitar-se com resignação indignada que Estaline existiu mesmo e deixou sementes que não o deixam esquecer. Não só as sementes políticas, sobretudo as que infernizaram pessoas e sentimentos. E é por isso que acho que o título devia ser outro. Um outro. Que assinalasse melhor uma das magníficas surpresas editorais dos últimos tempos através deste livro sobre um amor.
 
(*) – “Filhos de Estaline”, Owen Mattews, Edições Dom Quixote

 
(Originalmente publicado em Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

Guiné
 
É um dado normalmente adquirido que no «virar» do corpo de oficiais profissionais do exército colonial contra a continuação das guerras e que desembocou no 25 de Abril, teve influência importante o «contágio político» devido à incorporação, como oficiais milicianos, de muitos dos dirigentes e activistas (os que não optaram pela deserção e exílio) vindos dos movimentos estudantis em que se contestou a ditadura. Ao proceder à mobilização militar massiva de activistas estudantis politicamente formados e radicalizados, muitas vezes «por castigo» e interrompendo cursos, dando-lhes comando de tropas nos cenários de guerra, colocando-os até em maioria relativa quanto aos oficiais de carreira dentro das unidades militares coloniais, a ditadura cometeu um erro sem alternativa. Uma influência política e ideológica é sempre difícil de medir. Neste caso, há uma evidente penúria de meios para medir o fenómeno desta «contaminação» e o seu grau de importância na queda da ditadura e no fim da guerra colonial. Por um lado, os militares de carreira «abrilistas», por auto-estima, dificilmente valorizam o efeito político neles havido vindo dos seus convívios com os oficiais milicianos (seria admitir que «importaram» a consciência cívica e política adquirida e afirmada). Entretanto, os oficiais milicianos que fizeram a guerra, na sua maioria, prefere não falar dela. Finalmente, há uma evidente carência de estudos por parte de especialistas em tratamento de assuntos da memória que abordem esta componente da problemática da guerra colonial, particularmente no seu ocaso. 

O fenómeno aqui referido não se verificou de um modo homogéneo, longe disso. Nas três unidades em que estive colocado na Guiné (1969/1971) durante dois anos, vivi três experiências distintas, desde conhecer impenetrabilidades políticas de corpos de oficiais profissionais até ao desinteresse por política de muitos milicianos, passando por efeitos evidentes do desgaste da guerra e da descrença quanto ao seu desfecho em que se conjugava a erosão de sucessivas comissões cumpridas nos vários teatros de guerra e a doutrinação política e ideológica de milicianos politizados pelas lutas estudantis, politização esta que muitas vezes era suportada nos mesmos textos que orientavam a guerrilha inimiga (Mao, Che, Giap, Ho Chi Minh, Cabral). Retenho desta experiência inolvidável, o ano de 1970 em que estive colocado num batalhão de artilharia sedeado em Catió (sul da Guiné) e em que tive a percepção clara que a guerra colonial não ia durar muito mais tempo.

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Nino Vieira com Amílcar Cabral 

Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção («general avant la lettre» como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), Nino sempre denotou insuficiências culturais, políticas e éticas que fizeram dele um desacerto na envergadura das responsabilidades assumidas enquanto companheiro de luta chegado de Amílcar Cabral. Aos méritos militares de Nino, que o levaram até à nuvem do mito que o fez pairar – muito exageradamente – nas mesmas alturas do génio militar do vietnamita Giap, muito deve o sucesso da luta guineense contra o domínio colonial português. Aos defeitos pessoais e políticos de Nino, a Guiné deve grande parte do caos e miséria em que descambou e que impediu que a independência da Guiné-Bissau fosse, para o seu povo (melhor, para os seus povos), uma emancipação de facto relativamente ao passado colonial. Na fase de juventude da independência da Guiné, quando tudo estava em aberto para a realização dos anseios que alimentaram a valente luta anticolonial dos guineenses (e caboverdianos que se lhes juntaram), Nino puxou tudo para o fundo – o Estado, os ideais, a generosidade de construir um pais novo, impondo antes a corrupção, o nepotismo, o gangsterismo, o golpismo, o fraticídio étnico e a cleptocracia. Nino queimou praticamente tudo o que ajudara a construir mas de que não foi, nem de perto nem de longe, o único, ou sequer o principal, obreiro. E tornou a Guiné-Bissau ingovernável. Agora, quando o assassinaram no seu reduto a que havia regressado como Presidente, Nino já era melhor que a Guiné que ele ajudou a destruir e que se enterrara entretanto na bolanha imunda do descontrole absoluto e do narcotráfico. E é nesta medida que é uma injustiça histórica que a Guiné, a quem Nino tanto deu e a quem tanto tirou, tenha devorado agora este filho da sua terra, cumprindo à distância de quarenta anos, aquele que foi o sonho falhado de tantos militares portugueses de elite e «torre e espada» ao peito (incluindo o mais famoso «cabo de guerra português» após Mouzinho): caçar o Nino

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soldados

Um desencanto suficiente que desemboque na ruptura com a militância partidária implica uma conjugação de circunstâncias, evidências e sentimentos, uma espécie de drop point, que encadeie a capacidade de romper e fazer o luto. É como nos divórcios, poucos serão aqueles que são decididos na primeira constatação da falta de sentido de uma co-habitação. A decisão de «cada um ir às suas», quantas vezes aparece sobre um motivo aparentemente irrelevante mas que é a gota de água que transborda o copo, aparece como momento da necessidade inevitável de lucidez. E surge na altura, naquela altura, muitas vezes a do tal pretexto menor, porque se consegue então a margem racional para constatar o óbvio que não se viu nos momentos de paz, mais ou menos tranquila, com o desacerto.

A vida num partido comunista, se a militância for séria e a sério, é uma espécie de vida substituta. Ali estão os nossos ideais, ali está o nosso sentido de servir, ali estão os melhores, os nossos amigos e os nossos heróis, ali estão os amanhãs que merecem tudo para se negar e compensar o que hoje nos desgosta enquanto ser social. Ali está o vermelho que ilumina os cinzentos da nossa impotência da sensação de pequenez face às forças que nos trituram e trituram os outros. Aquele universo dá-nos a grandeza de sermos camaradas no Nós. Cada um é herói na sua dimensão de dar, ser e fazer, em osmose com os melhores, os mais valiosos, os mais talentosos, os mais capazes. «Eu limito-me a cobrar cotas» mas sou tanto como o herói que sofreu torturas e não falou. «Eu sirvo no bar de um Centro de Trabalho», mas sou tanto como o camarada que saltou as muralhas do Forte de Peniche. «Eu vou levantar o punho na manifestação», mas sou tanto como o Camarada que fala na Televisão ou lidera o grupo parlamentar. «Eu vou fazer claque para apoiar o último livro do camarada Saramago (Nobel!)» e sendo seu camarada, sinto que poderia escrever os livros que ele escreve, ou que os livros dele têm um parágrafo que podia ser meu. «Eu levanto o punho quando se evoca Cunhal» e sou igual a ele pois Ele é dos meus, pertence-me embora seja eu que pertença à sua memória exemplar, genial, heróica, inimitável, única.

Na minha geração, muitos entraram no comunismo porque era a única forma eficaz de se lutar contra o fascismo. A luta era com eles, eles eram a luta. O fascismo português construiu a dimensão que o comunismo teve e tem em Portugal. E se aqui ficou plantada uma das últimas e mais persistentes abencerragens do estalinismo serôdio, isso deve-se ao reflexo do irredentismo provocado pela rejeição ao bolorento salazarismo e de o PCP ter encontrado, em Cunhal, o génio capaz de construir um partido estalinista na última fase do estalinismo real, consolidando um partido reverente e dependente para com um centro estrangeiro mas com uma idiossincrasia nacional, mostrando ora uma ora outra, enquanto internacionalista ou como patriótico, contornando as colisões da contradição. E, talvez, ao facto de em Portugal, estarmos habituados a adoptarmos as modas que já estão caducas onde elas foram lançadas, pela rotina acumulada de sermos um país onde as novidades e a modernidade sempre chegam tarde.

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Uma guerra faz-se com armas. Quando das guerras coloniais, Portugal usou de várias estratégias para contornar a proibição formal da NATO em utilizar-se material seu num teatro de guerra fora dos objectivos militares da Aliança e teve nessas artimanhas a arte suficiente para obter armamento fornecido por várias das potências militares ocidentais (EUA, Alemanha, Itália, França, Israel). Entretanto, as guerrilhas anticoloniais abasteceram-se na URSS e restantes países do Pacto de Varsóvia. Esta diferença de aprovisionamento (e treino militar), acompanhando a divisão da «guerra fria», foi uma das marcas mais expostas dos alinhamentos políticos e ideológicos dos dois campos em conflito. Por um lado, a ditadura portuguesa procurava integrar a defesa do seu império na disputa global entre o Ocidente e o Comunismo. As guerrilhas independentistas recorriam aos únicos que estavam disponíveis a alimentar belicamente os destacamentos africanos que lutavam contra o Colonialismo e o Imperialismo. Se no caso português o uso de material militar de países capitalistas constituía um reforço da estratégia integradora de defesa nacional, portanto um avivar de convergência em que o desconforto da natureza ditatorial e colonialista do regime era atenuado pelo empenho na luta contra o Comunismo, no caso da guerrilha africana tratou-se, mais que uma questão de proximidade política (que também existia), do resultado de uma fatalidade. Ilustrando este contexto, ficou famoso o encontro de Amílcar Cabral com congressistas norte-americanos, numa das suas visitas aos EUA, em que estes acusaram o PAIGC de ser um instrumento da URSS e usando como prova disso o facto de a origem de todo o armamento dos guerrilheiros ser de países comunistas. Cabral reagiu de imediato entregando aos congressistas uma lista do armamento que necessitava e apelando a uma satisfação da «encomenda» pelas fábricas de armas norte-americanas, acrescentando que, na luta, o PAIGC não olhava para o «made in». Claro que a reunião terminou ali e Cabral voou a seguir para Moscovo com a mesma lista a ser entregue a um adjunto de Brejnev, merecendo rápido despacho favorável. E obviamente não havia armas grátis. 

Muito se tem discutido sobre a quantidade, a qualidade e a eficácia, na guerra colonial enquanto confronto de guerra de guerrilha versus guerra de contra-guerrilha, dos armamentos dos dois lados. Se parece indiscutível que o armamento dos guerrilheiros se adaptava melhor às condições dos combates que lhe eram próprios (anulação de percursos, emboscadas, flagelações de quartéis, fogo anti-aéreo), excelente e eficaz que muitas vezes excedia o nível de competência dos utilizadores, os militares portugueses nunca se puderam queixar de que fosse o défice no seu armamento (em quantidade e em qualidade) que desequilibrava os conflitos em seu desfavor. Para mais, os portugueses eram senhores exclusivos do domínio dos céus e dos cursos de água (aqui, com algumas importantes excepções na Guiné). Até à chegada à Guiné dos mísseis soviéticos terra-ar SAM-7 [conhecidos como Strela (стрела, flecha, em russo)]. 

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img_1673a1Enquanto aluno, no final da década de 50 do século passado, fui um dos que inauguraram as instalações resultantes da grande ampliação da Escola Alfredo da Silva no Barreiro (ainda funciona no mesmo local) e que constituiu, na altura, uma das grandes concentrações escolares do ensino preparatório e secundário. No após-guerra e com a expansão e modernização tecnológica das actividades industriais da CUF, o recrutamento de operários e funcionários administrativos passou a obedecer a bitolas mais exigentes de saberes, muito diferente da do anterior recrutamento feita essencialmente pela transformação de camponeses pobres fugidos das fomes nos campos em operários industriais a quem se exigia sobretudo o dispêndio de esforço muscular. Com a evolução tecnológica da modernização e expansão da CUF, as fábricas pediam mais operários e empregados e com uma formação adquirida enquanto jovens. Daqui que a CUF e o sistema de ensino técnico público vigente se tenham apoiado mutuamente, transformando a Escola Alfredo da Silva numa fábrica de jovens operários e empregados, muitos deles filhos de operários da «velha vaga» da própria CUF, dotando a grande concentração industrial de recursos em disponibilidade de mão de obra. A CUF contribuiu com equipamentos oficinais e laboratoriais e permitiu um segundo emprego, como professores, a vários técnicos da empresa, o Estado construiu as instalações e fez o enquadramento da Escola no ensino público técnico, sendo esta denominada Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, em homenagem ao patrono da escola e grande patrão da indústria portuguesa. A enorme construção escolar para a época, com uma enorme população docente e estudantil, dava corpo a uma das divisões mais profundas da marca classista da Educação adoptada por Salazar. Terra muito povoada e com três médias e grandes concentrações operárias (corticeiros, ferroviários e da CUF), o ensino liceal (mais destinado a ascender à frequência universitária) não fazia parte dos planos dos programadores do ensino salazarista para o Barreiro. Os poucos filhos de origem na pequena e média burguesa local iriam a Setúbal frequentar o liceu e ali, no Barreiro, terra de operários, os filhos de operários deviam estudar para serem operários, através de cursos curtos (2 + 3 anos) e com componentes pedagógicas essencialmente prático-oficinais.

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As gerações que entraram na sua juventude depois de 1974 não imaginam, por felizmente não poderem imaginar, o que representava viver-se sob controlo policial a vigiar toda a rede de sociabilidade. E já não falo do controlo das opiniões políticas organizadas porque essas, naturalmente, tentavam escapar aos ouvidos da secreta. Refiro-me à opinião solta, ao desabafo, ao comentário, ao protesto espontâneo, ao gosto por isto ou aquilo e à aversão por aqueloutro.

O medo da polícia levava à interiorização de um mecanismo de defesa das emoções, da capacidade crítica e do impulso da opinião. Os portugueses aprenderam e refinaram a arte do cochicho, do subentendido e de se exprimirem através de meias palavras bem medidas. Perderam o prazer da alegria espontânea e substituíram-na pela sublimação da revolta e do desacordo. E do prazer. Temente dos ouvidos perigosos, o nosso povo adoptou uma espécie de misantropia social. Que se exercia sobre os incontinentes compulsivos da revolta pois aquele que manifestava abertamente esta ou aquela opinião era imediatamente suspeito de ser aventureiro, provocador ou bufo. Ainda hoje se notam traços da herança desta forma consolidada de contenção verbal e opinativa.

Como se estruturou este medo colectivo? Primeiro que tudo, através de um aparelho policial que se foi refinando ao longo dos anos. Este núcleo profissional, o corpo da PIDE, era completado por uma enorme rede de bufos (os chamados informadores) que constituíam a essência da rede de controlo da população. Um em cada quatrocentos portugueses recebia pagamento por informações prestadas à PIDE. Outra técnica conseguida pela polícia era a sua infiltração nos diversos organismos e movimentos oposicionistas e nela residiu a principal fonte de eficácia do combate do regime às movimentações antifascistas ou anticolonialistas. Assim, mesmo no seio das organizações mais consequentes e mais defendidas, sabia-se que a confiança não podia ser total porque em todos os segmentos de actividade política, sindical, cultural ou social, havia olhos e ouvidos da secreta.

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De há muito que embirro com fardas. Ficou-me desde que fui (mal) fardado pela primeira vez. Acho que a farda tira ao comum mortal a sua diferente identidade e torna-o demasiado parecido com outros tantos, sempre demais. E será para isso mesmo que existem e servem – transformar o indivíduo numa peça de uma instituição, ostentando a fidelidade obediente como valor.

O certo é que a maior parte dos miúdos passam por uma fase em que adoram fardas. Seja de bombeiro, de polícia ou músico de banda. Provavelmente porque os fardados lhes aparecem como adultos especialmente vocacionados para mandarem mais, até que os adultos. Talvez porque gostassem de ser adultos com super autoridade para escaparem à autoridade dos adultos que neles mandam.

Também tive a minha fase de adorar fardas e sonhar com o dia em que tivesse direito a uma. A minha grande oportunidade surgiu cedo, quando tinha os meus dez anos. Na altura, era obrigatório pertencer-se à Mocidade Portuguesa e logo a partir dos dez anos de idade. Todos os sábados havia instrução para-marcial (aprendi cedo a marcar passo) e mais umas tretas de actividades desportivas e lúdicas. Lá consegui que me comprassem a fardeta: calções e meias altas castanhas, camisa verde com emblema, bivaque na cabeça e cinto castanho com uma fivela branca com o enorme S metálico incrustado a simbolizar a fidelidade a Salazar. Farda nova enfiada, saí orgulhoso rua fora a entornar vaidade naquela minha novíssima qualidade de cidadão fardado. Claro que esperei e ansiei por olhares de inveja e espanto dos míseros passantes reduzidos à condição de anónimos e inferiores civis.

Vivia então o Barreiro uma altura em que a repressão estava na exacta medida da energia das lutas operárias por melhores condições de vida. Eu não sabia na altura, mas o Barreiro (assim como a Marinha Grande) eram vilas operárias sob ocupação militar (entregue à GNR). Não sabia nada disso, não queria saber e não entenderia se isso me explicassem. O que sabia é que o Barreiro era, como a maioria, uma terra de fardas – uma série de bandas de musica, os bombeiros, os escuteiros, os GNRs por tudo quanto era sítio, mais as fardas de ganga do pessoal das fábricas. E, em terra com fardas, eu tinha a minha, a de lusito. Que, é claro, achava mais catita que todas as outras.

O meu orgulhoso e inaugural desfile fardado não teve grande sucesso. Pior, foi um verdadeiro fiasco. A malta graúda assomava às portas das tabernas, desatava a rir-se, chamava-me piolho verde e, pior, escarnecia-me nas costas com olha mais um que é da bufa. Naquela terra com fardas, não entendi porque é que a minha farda merecia aquele tratamento, bem longe dos desejados suspiros de admiração e inveja. Bom, o certo é que rapidamente conclui que não ganhava nada com o negócio de me fardar na miragem de conseguir olhares com palmas. Encurtei o trajecto. E respirei de alívio ao desfardar-me. E disse para comigo: fardas nunca mais!. Longe estava de suspeitar que a farda me havia de vestir outra vez, mais um tanto de vida passado, sem poder despegá-la da pele. Verde, outra vez verde, era a farda. E pelo pior uso que se pode fazer de uma farda, o da guerra. No cú pior das cús das guerras do meu tempo de usar farda, o da Guiné.

 
Biografia de João Tunes.

 

Quando miúdo, a partir dos meus oito anos, durante as férias escolares, eu costumava ir, em viagem solitária, desde o Barreiro até à minha terra natal, uma aldeia perto de Sabrosa, no Alto Douro. 

Na época, no render das metades do século passado, em que, neste país, qualquer distância, mesmo pequena, implicava uma viagem trabalhosa, as minhas deslocações de férias pareciam-me uma volta ao mundo. Apanhava o barco que atravessa o Tejo ao fim da tarde, ia de autocarro até Santa Apolónia, entrava no comboio até ao Porto às onze da noite (era chamado de «comboio correio» e parava em tudo quanto era estação), chegava à Invicta na manhã seguinte, mudava, em São Bento, para o comboio da linha do Douro, descia no Pinhão depois da hora do almoço, tomava a camioneta da carreira para Vila Real e, finalmente, descia na minha aldeia no fim da tarde. Eram, mais ou menos, vinte e quatro horas de viajar ininterrupto entregue a mim próprio, pois só tinha acompanhamento familiar no ponto de partida e no destino final. Sentia aquilo como uma eternidade e era permanente o estado de pânico suado a imaginar-me perdido algures rodeado de adultos desconhecidos em metrópoles desumanas. Em cada ponto do percurso, não tinha qualquer noção se estava perto ou longe dos destinos das etapas, os bilhetes eram vários e eu sofria atrozmente com o pesadelo de imaginar um revisor-inquisidor chegar-se a mim e eu não conseguir encontrar o papel certo para lho apresentar. Assim, passava os tempos de viagem a verificar se não havia perdido os bilhetes e a verificar, paragem por paragem, que não me tinha nem enganado no trajecto nem ultrapassado o meu destino intermédio. Ia procurando cumplicidades e protecção nos adultos que se revezavam como meus companheiros ocasionais de viagem, confirmando se estava no comboio ou autocarro certo e quantas estações faltavam para o meu destino. Cruzava informações de uns passageiros com outros e, se surgiam discrepâncias nas sentenças, sentia-me perdido por não saber em quem acreditar. O pior, o clímax do medo, era quando se aproximava a descida na estação do Pinhão, em que a paragem do comboio durava não mais de dois minutos. Decorava a sequência das estações anteriores, três estações antes já tinha tirado a mala e encostava-me à porta com ela para usar bem os poucos minutos em que era preciso abrir a porta e saltar para a plataforma agarrado a uma mala quase do meu tamanho.

Então e depois, nunca me enganei nos destinos nem nos trajectos. Nunca perdi qualquer bilhete. Mas, ainda hoje, quando viajo, sofro do sindroma de pensar que, se calhar, entrei no transporte errado ou perdi o título de transporte. No que me reconheço, esta é a única faceta em que sempre me senti um rapazinho permanente, numa espécie de imunidade solitária ao envelhecimento.

 
Biografia de João Tunes.

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