Extracto da comunicação apresentada no Congresso «Guerra colonial e descolonização», Lisboa, 15 e 16 de Abril, Organização da Assoc. 25 de Abril, IHC da Univ. Nova de Lisboa e ISCTE.

Diz-se que os povos felizes não têm história. É talvez porque nos queremos imaginar um povo feliz, que lidamos mal com a história, o que faz de nós uma sociedade distraída e de curta memória. Sobretudo para os episódios mais traumáticos, como aquele que Eduardo Lourenço chamou a ‘mais refinada e incomunicável das nossas tragédias actuais: a guerra colonial’.

O recalcamento é a resposta directa a esta incomunicabilidade, mas apresenta-se em graus e formas bem diversos, desde a pura negação da tragédia, até à dispersão do seu sentido mais fundo e real, em mil pequenos sentidos reconfiguradores dessa dura realidade.

Nesse contexto se produziu todo um complexo glossário feito de expressões oblíquas, enredadas de subtilezas, metáforas, ambiguidades, analogias, e até estranhos jogos de ironia e de sarcasmo que, impostas pela Censura no próprio decurso do conflito, persistem como precioso mas contraditório reservatório de experiências vividas e, como tal, marca identitária de sobrevivência individual e grupal. Veja-se, por exemplo, os regulares encontros de batalhões e companhias que cumprem um estranho ritual de ‘catarse em grupo’, escape para muitos silêncios, que só ‘quem lá esteve’ pode entender. O que significa que, no limite, não falamos da mesma coisa quando falamos de Guerra Colonial.

A começar pelo regime político que a impôs e que sempre se recusou a nomeá-la assim, mas antes Guerra do Ultramar. Para ele não havia guerra, mas uma revolta cruel, bárbara e ilegítima, a exigir uma resposta exemplar. Os militares, portanto, não iam para uma guerra, mas em ‘missão de soberania’, e combatiam não movimentos nacionalistas de libertação, mas bandidos desprezíveis ou terroristas.

Também no interior do universo militar surgiram hábeis e criativas operações semânticas para não chamar as coisas pelos nomes. Os mobilizados que chegavam de novo eram, por exemplo, maçaricos para Angola, os checa-checa para Moçambique e os piriquitos para a Guiné (‘piriquito é pior do que terrorista’, dizia-se em jeito de boas vindas…). Os oficiais do Estado-Maior eram oficiais de alcatifa ou ar condicionado, a metralhadora do inimigo era a costureirinha… e por aí fora… Guerra a sério, não havia, pois o significado, paradoxalmente, era deslocado do seu verdadeiro contexto, para zonas periféricas. Havia, assim, pequenas guerras: nas repartições, nas messes, nos hospitais, nas lojas e mesmo nos espaços de convívio públicos ou privados, onde o apelo à normalidade mais se fazia sentir. Aí sim, fazia-se a guerra, pequena, banalizada, e até parodiada.

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Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me

sentir como se tivesse oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater

os infiéis ao norte de África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava

os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo mentira

Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto

Quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar

àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera

um futuro de rosas

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos

a ver se contraía a febre do império

mas a única coisa que consegui apanhar

foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar

uma pétala que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal

Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to

Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém

Sabes

Estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo

Como me pude apaixonar por um velho decrépito

e idiota como tu

mas que tem o coração doce, ainda mais doce

que os pasteis de Tentúgal

e o corpo cheio de pontos negros

para poder espremer à minha vontade

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete

Salazar estava no poder

nada de ressentimentos

O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram

nada de ressentimentos

um dia bebi vinagre

nada de ressentimentos

Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas

a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional

Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho

Que Camões lá deixou

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe

Portugal

gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nú, Ed Fenda, 1991

«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como?

José Cardoso Pires, E Agora, José? (p. 19-21)

 
O discurso sobre a identidade nacional acompanha-nos como uma sombra fiel, às vezes (tantas!) como uma assombração.

O tema sempre apaixonou o português mas em momentos de celebração, como este dos 100 anos da República, ganha inevitavelmente outra importância tomando de assalto a agenda política e mediática, normalmente saturadas de clichés e lugares comuns que em vez de conhecimento promovem um reiterado auto-desconhecimento.

Segundo esses lugares comuns sofremos de uma excessiva e patológica centragem sobre nós mesmos, mitificamos em excesso o passado e, consequentemente, desprezamos o presente, vivemos mais para os devaneios poéticos do que para a acção concreta, o que faz de nós um povo passivo e expectante, narcísico, megalómano, irrealista, pouco crente nas reais capacidades e muito mais confiante nos insondáveis desígnios da sorte, nos golpes imprevistos do destino.

Todos conhecemos esta vulgata sebastianista, divulgada por especialistas da ‘coisa vária’ de que encontramos ecos constantes numa cultura de massas cada vez mais ao serviço de um senso comum de que ela é, simultaneamente produtora e produto. Ou mesmo na dispersa conversa de café ou das ondas internéticas: doce e amarga, terna e corrosiva, arrogante e humilde, generosa e mesquinha. Generalista o suficiente para nele caber sempre mais uma nota de originalidade, sem que contudo se comprometa a possibilidade de o mesmo se poder dizer a respeito de qualquer outro povo ou grupo social. Suficientemente ambíguo a ponto de as maiores virtudes se transmutarem nos maiores defeitos (e vice-versa) em função do seu potencial mobilizador na conjuntura social ou política do momento.

Sabemos como as comemorações – todas elas, e estas não serão excepção – se prestam a esses aproveitamentos, e o sucesso garantido dessas versões identitárias muitas vezes de gosto popular, mas outras tantas com o selo de qualidade cultural servido por pensadores da ‘alma nacional’, da ‘essência da Nação’, da originalidade da maneira de ser português, no limite do milagre da nossa sobrevivência como povo… para lá dos acidentes de percurso.

Mas elas podem também ser oportunidades únicas para questionar essas extrapolações idealistas que nos amarram a modelos intemporais, começando por fazer as perguntas certas: Mas afinal de que falamos quando falamos de identidade nacional? Não será certamente a mesma coisa para as maiorias sociológicas ou para as minorias intelectuais, nas suas variantes mais ou menos activas, e num espectro tão amplo que vai do vanguardismo ao conservadorismo mais retrógrado. E afinal onde se encontra o ‘ser português’? nos jornais? nos compêndios de história? no cinema? na música? na literatura?

As perspectivas abertas por um lado pela nova sociologia (não a dos inquéritos do Eurobarómetro que produzem resultados para todos os gostos…) e por outro, por um renovado interesse pelos estudos culturais constituem dois grandes filões desenvolvidos a seguir à Revolução de Abril os quais, salvaguardando todas as diferenças, se reconhecem num persistente esforço de avançar num auto-conhecimento ‘menos mistificador mas mais proporcionado, menos celebratório mas mais eficaz, menos glorioso mas mais emancipador’, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos.

Se é verdade que só comemoramos o presente, ou o que do passado interessa ao presente, o que de mais radicalmente actual encerra o ideário republicano é esse programa integral de emancipação só possível através do conhecimento. Ou da instrução, como então se dizia. Cem anos passados ele aí está como memória e projecto de uma sociedade que ainda não converteu o povoléu ou a populaça em Povo, o Zé Povinho em cidadão, as razões de estado em bem comum, a República em res pública, ou seja, de todos e (isto não é uma concessão ao politicamente correcto…) de todas. De uma sociedade que tarda em contrariar a sentença de Miguel Torga: ‘em Portugal o comum não é de nenhum!’

 
«O sol da tarde resplandece no Castelo impassível, cor de oca e de ferrugem, onde flutua sempre uma bandeira preguiçosa. Olhando de fora esta multidão coloidal que adere às esquinas e às fachadas, num calmo exterior de alameda provinciana, ninguém diria que por baixo disto corre um tumulto de lava que pode arrastar-nos e subverter-nos a todos. Uma tropa de ingleses carregados de sacos de golfe passa a caminho do Palace, e olha com espanto esta gente morena e apoquentada que parece tomar a vida a sério ou esperar sempre um milagre que a salve, outras Índias, Brasis, um novo Dom Sebastião ou um terramoto.

A atmosfera, com efeito, não é a dos bons tempos. Não há os gritos, os vivas e morras, a esperança, os pugilatos de há poucos anos. Não há? Isso é o que nós veremos. Há porém expectativa, ansiedade. Não se fala de bombas, afinal o operariado está quieto. Chega a ser suspeito um silêncio assim. ‘Agora, a Campo de Ourique houve coisa!’ Crescem de novo orelhas a escutar: ‘Um grupo de populares manifestou à porta do Batalhão Ferroviário!’ Mas quem são eles, que querem eles?

No terraço dum café-bilhar sujeitos pacatos esforçam-se por consumir em paz a primeira limonada, respirar as brisas da Primavera incipiente, olhando de cima da enxurrada. Outros passam cá em baixo, magistrais, livros debaixo do braço, acenando a cabeça, discutindo o seu vient-de-paraître: são letrados, intelectuais, sábios da letra de forma, alheios ao século, interessados no umbigo do Universo intemporal. O seu reino não é deste mundo.

(…) Há na imensa praça um perpétuo vaivém, os grupos fazem-se e desfazem-se, reconstituem-se mais longe, numa agitação de folhas secas ao vento, incompreensíveis para o leigo e o forasteiro. ‘Mas esperava-se que o governo caísse!’ (Não caiu.) ‘Isto só vai com um milagre!’ murmurou um descrente. Como se nada mais houvesse neste mundo, aquém ou além-fronteiras, só se fala de crise, dissolução, défice, poder, recomposição. E a pergunta elástica lá vai saltando de boca em boca: ‘Ukèkiá? Kèkiá?’»

 
José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé, Vol.I, ed. Estampa, 1984

 
«Se alguém num campo de batalha levantasse o grito inconsiderado: Salve-se quem puder! era imediatamente derrubado como um miserável, se porventura se atalhasse o efeito contagioso dessa alucinação de covardia. E contudo é frequente o ouvir-se todos os dias no meio do conflito dos interesses modernos, das novas ideias, e de um outro estado da consciência humana que se afirma esta terrível frase – Fujam da Política. Aqui o egoísmo é um resultado da ininteligência, porque se confunde o facto natural e legítimo de todo o cidadão tomar conhecimento do modo como se exercem os serviços públicos, para os quais paga, e que lhe servem de garantia individual, com esse desenfreamento das ambições partidárias que conspiram e deblateram para assaltarem o poder. O fugir da política, deixando ao capricho da autoridade o exercer o poder segundo o seu interesse partidário, é uma covardia análoga ao Salve-se quem puder, quando da concorrência de todas as forças é que provém a mais segura defesa. O que entregar os seus bens e a própria responsabilidade jurídica a um procurador, sem lhe tomar contas, sem inspeccionar os seus actos, vai fatalmente cair na miséria e com certeza na criminalidade; isto acontece na sociedade, em que os governos separam sistematicamente o cidadão do conhecimento da gerência pública, viciando-lhes as magistraturas electivas com a intervenção do arbítrio administrativo, centralizando todas as energias locais em um poder que deriva a sua acção da atrasada razão de estado, pervertendo-lhe a manifestação da vontade nacional por meio das candidaturas oficiais.»

Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, col. Documenta Histórica, Ed Vega, 1983.

 
9 de Outubro de 1910

Oh, meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem as escadas dos ministérios para aderirem à República!
É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o Poder. Os tipos não importam – o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! Possuir o dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!…Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro, quantos perguntaram, ansiosos: quem vai vencer? Onde é o meu lugar? …Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!… Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existirem e que levantam a cabeça!…
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma…
E o desfile segue – o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos, por fora e por dentro…

Raul Brandão, Memórias (13º Volume)

 
O primeiro texto desta série pode ser lido aqui e o segundo aqui.

 
De todas as construções simbólicas analisadas por JMP nenhuma é mais actual do que o mito colectivo da Europa, melhor dito da CEE.
Na verdade, este parece ser o mito mais consistente da democracia portuguesa, capaz de substituir e fazer esquecer os muitos que nasceram e morreram no intenso e breve período revolucionário. É aliás assim que os agentes políticos activos na cena política, desde 1976 até ao providencial ano de 1986, o apresentam: como verdadeiro desígnio nacional, capaz de preencher o vazio deixado pelo fim de um período glorioso, o ‘ciclo do império’, agora substituído pelo não menos glorioso ‘ciclo europeu’.
E constata o próprio autor que, num primeiro momento de euforia e entusiasmo, o projecto não deixou de mobilizar energias, multiplicando-se os estudos, seminários, conferências, encontros e até embaixadas culturais, com vista a convencer os portugueses por um lado, e a Comunidade Europeia por outro, das vantagens mútuas da nossa integração. Mas esse impulso dinâmico e empreendedor, além de breve, foi marcado pela ambiguidade: a começar pela confusão constante entre CEE, como projecto puramente económico, e Europa, como grande desígnio político, cultural e civilizacional. Com o nosso proverbial irrealismo, envolvemos o objectivo mais prosaico da salvação económica, de que precisávamos como pão para a boca, em solenes discursos sobre a nossa identidade europeia, em nome de um passado comum, e mesmo de uma dívida histórica do velho continente, para com esta ‘pequena/grande nação’.

Sobrou-nos em retórica o que faltou em trabalho concreto. E tudo começou a piorar quando se percebeu que ‘a Comunidade Económica Europeia não era uma instituição de caridade, nem o Eldorado. Que era preciso estudar e preparar dossiês, e que a grande ignorância em que se mantinha não apenas o povo em geral, mas até os empresários e governantes sobre tão áridas matérias, operaria mais uma vez a fatalidade de nos converter de mensageiros do futuro em suas vítimas.’(p. 56)
De novo JMP se aproxima de Eduardo Lourenço, para concluir que também em relação à Europa cumprimos com uma constância surpreendente o ciclo labiríntico das ‘polarizações esquizofrénicas’ em que parece enredar-se o nosso comportamento colectivo. Oscilando entre o papel de parente pobre da Europa e o de parente rico, hesitando entre o sentimento de passiva submissão por nos sabermos frágeis económica, técnica, ou cientificamente, e o de altiva superioridade, por um passado glorioso, não comparável com o de qualquer outro parceiro europeu, fomos incapazes de olhar com realismo o presente, e de investir nele a energia e ambição necessárias.
Em conclusão: fragilidade objectiva (incerteza do presente) e segurança subjectiva (o que somos por ter sido) fizeram com que, uma vez mais, procurássemos o caminho mais curto e de resultados mais rápidos, que é a salvação exterior.

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Em período de comemoração… outras vozes, outras repúblicas…

   

   Milton Nascimento / Fernando Brant

   


  
Sabemos que a preservação da memória da resistência não tem sido uma prioridade do poder político (nas suas várias composições) saído da revolução.

As estratégias de branqueamento dos seus episódios mais sombrios como que prolongam a política de silêncio e invisibilidade dos tempos da ditadura. O descuido, a desatenção e o desinteresse sistemático para com as marcas desse passado recente são tragicamente visíveis no que respeita, justamente, aos locais da repressão. Hoje lugares destruídos, desfigurados ou definitivamente transfigurados.

Se não vejamos: a cadeia da PIDE do Porto foi transformada em Museu Militar. O Reduto Norte do Forte de Caxias continua, segundo penso, prisionalmente operacional (obviamente para presos comuns). A Prisão do Aljube, já destruída no seu traçado anterior, e depois de alguns anos ocupada pelo Instituto de Reinserção Social, é actualmente propriedade da CML, para futuras instalações do reclamado Museu da Resistência. Seria a única boa notícia neste quadro desolador, mas a experiência, infelizmente, não nos autoriza o mínimo optimismo. E, mesmo fora do território nacional o tristemente célebre campo do Tarrafal, se para os portugueses com mais de 40 anos significava ‘campo da morte lenta’, para os mais jovens virou sinónimo de turismo, pesca e praia…O mesmo que, suspeito, acontecerá a prazo com o Forte de Peniche, cujo complexo e polémico processo de reconversão em pousada tem sido amplamente discutido (especialmente na NET e particularmente neste blog) mas também esporadicamente na imprensa escrita, quando, é certo, escasseiam notícias de maior impacto mediático e mais premente actualidade. Assim sendo, desconheço os últimos lances do conturbado dossiê, mas temo não se vislumbrar qualquer solução que não ceda à implacável lógica economicista, e ao rolo compressor do negócio imobiliário…para mais de luxo…

O caso da sede da PIDE na António Maria Cardoso, com mais eficácia e espírito empreendedor o testemunha e aí está, em todo o seu esplendor, um magnífico complexo habitacional, destinado a gente sem memória, que é meio caminho andado para a felicidade… ou pelo menos, sem más memórias, atendendo à promoção comercial dos apartamentos, disponível no site do empreendimento que, cirurgicamente esconde a história recente, para se fixar na história dos moradores nobres até ao séc XVII. Les bons esprits se rencontrent…

Daí que, face ao lamentável e grotesco episódio da placa, haja dois tipos de atitude e, também dois tipos de interlocutores, de acordo com as suas responsabilidades específicas: a primeira, digamos de baixa densidade, consiste em confrontar a empresa em questão com um compromisso que assumiu. É uma questão de ética… empresarial se quiserem… supondo que isso existe…

A segunda, de alta densidade, é também ética, mas agora política. E consiste em confrontar, de novo, (e tantas vezes quanto necessário) os governantes deste país (nomeadamente o Ministério da Cultura) com as suas responsabilidades na defesa e transmissão da nossa memória colectiva. Denunciando que a fuga a esse compromisso é um crime contra o passado de luta e resistência, sem o qual eles nem sequer existiam.

Daí o apelo do Miguel Cardina que subscrevo na íntegra: «Guardem alguma coisa para o que der e vier. É que alguma coisa está mal num país que aprova em 2008 uma resolução que vincula o Estado ao ‘dever da memória’ e depois convive com placas desaparecidas, antigas cadeias políticas em vias de se transformarem em pousadas de luxo, e museus e arquivos sem dinheiro para funcionarem

A defesa da memória e a indignação pelo seu apagamento não se podem encolher tanto que caibam numa simples placa.

 
O primeiro texto desta série pode ser lido aqui.

Enumerámos no post anterior os pequenos núcleos simbólicos da democracia pós-revolucionária, assim como as causas que, no entender do autor, os fazem frágeis, desgarrados e dispersos. É que, para além de reflectirem antigos traumas de uma burguesia historicamente inconsistente, incapaz de um projecto claro de futuro de inspiração europeia, eles reflectem também um outro mais recente e violento: o ter nascido de uma revolução.
Estas duas ordens de factores originam um discurso legitimador complexado e ressentido, construído muito mais pela negativa do que pela positiva. Na ausência de uma grande causa mobilizadora que seria, por exemplo, o combate pela liberdade contra a ditadura fascista, a nova democracia parece preencher esse vazio com um outro combate que é ao mesmo tempo a sua certidão de nascimento e o seu manual de sobrevivência: o combate contra a memória de 74-75, obsessão e trauma da nossa classe política.
Ou seja: A democracia, que na Europa tem correspondido a uma necessidade orgânica de desenvolvimento económico capitalista, aparece entre nós apenas como necessidade de afirmação de uma classe política que construiu a sua própria mitologia á medida do fantasma que queria exorcizar: o gonçalvismo.
A política portuguesa tem sido um mero exorcismo destinado a libertar-nos dos demónios e maldições que nos possuíram nesses anos descabelados e os sacrifícios que regularmente nos são pedidos tomam o ar de expiação das terríveis culpas que nos são imputadas por termos posto este pais no caos e na anarquia’ (p.49)
Essa marca genética, tão facilmente decifrável, retira potencial simbólico e conteúdo substancial ao grande mito estrutural da democracia. Por isso, não simplesmente democracia, mas ordem democrática, instituições democráticas, defesa da democracia, democraticidade das decisões, são uma sequência retórica que invade o discurso político, numa esforçada descoberta daquilo que outros países já haviam conquistado há muito e, portanto, viviam a um nível de evidência e organicidade que dispensava a necessidade de adjectivar aquilo que era a substância da sua prática social e que chamavam tão simplesmente sistema democrático.
Também aqui ficámos pela imitação que frequentemente resvala para o mais vazio e abstracto formalismo. Somos democratas, pois então. Não cumprimos rigorosamente e sem batota as suas regras sagradas?

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melo-antunes

Decorre por estes dias na Fundação Gulbenkian uma justíssima homenagem a Ernesto Melo Antunes, à qual por esta via menos institucional, mais singela, mas por certo igualmente digna gostaria de me associar, dado o privilégio que tive de com ele conversar horas e horas, numa longa entrevista prolongada por dois anos, que deu origem à obra Melo Antunes –O Sonhador Pragmático.

Parti para ela ciente das suas dificuldades naturais, desta vez acrescidas pelo facto de ir entrevistar alguém por todos considerado reservado, distante, mesmo elitista, selectivo e exigente tanto consigo como com os outros. E logo no primeiro encontro percebi que a nossa conversa tanto podia ficar por duas ou três breves horas, como prolongar-se pelas cerca de trinta que acabou por durar. Indiferente à popularidade fácil e à efemeridade dos aplausos de ocasião, Melo Antunes só seria conquistado para um trabalho que ele achasse contribuir para desfazer um obscuro conjunto de ideias feitas e lugares comuns sobre o seu pensamento e o seu real protagonismo, ambos tão esquecidos ou desvirtuados.

Não foi fácil vencer a barreira do silêncio a que se remetera, após a sua saída de cena. Esse silêncio era para ele uma ilha de dignidade e honradez no mar calmo do habitual descaso nacional, quando não da mesquinhez revanchista e interesseira. Basta lembrar que à data da sua morte (1999) Melo Antunes era ainda tenente-coronel, só sendo promovido a coronel cinco anos depois.

Vítima de alguma injustiça? Da ingratidão do país? A resposta vem directa, sem ressentimentos, rancores ou frustrações pessoais, que remeteu sempre para “os atalhos da história” : “não vejo o caso dessa maneira. Tive a intervenção que tive, o meu papel histórico esgotou-se. Sou um cidadão como outro qualquer. Se existe injustiça, não é contra mim, mas generalizada em relação a quase todos os que se bateram contra a ditadura”. Não contassem com ele para o discurso da vitimização tão nosso, tão português. E muito menos para se pôr em bicos de pés. Não sei sequer com o que sonhava este “intelectual fardado” para si, a título pessoal. Ele, de quem o amigo César de Oliveira, com alguma mágoa dizia “esperar mais que as situações venham ter com ele, e que os outros o chamem”. Mas sei que tinha perfil para presidente da República, para primeiro ministro, enfim, para um percurso político activo e influente, no país democrático que tanto lhe ficou a dever. Este, porém, preferiu dispensá-lo. Ou antes: suportá-lo, primeiro como presidente da Comissão Constitucional, a antecessora do Tribunal Constitucional, até 1983, e posteriormente como conselheiro de Estado, pela mão de Ramalho Eanes e depois de Jorge Sampaio. Pouco, demasiado pouco para alguém, a quem justamente o amigo Jorge Sampaio chamou “o verdadeiro pai da nossa democracia”.

Esta “desatenção” raia contudo a indignidade quando, em 1992, Cavaco Silva então primeiro-ministro recusa apoiar a sua candidatura a director-geral da Unesco. De nada valeu a sua extraordinária cultura, a rara preparação política, a vasta experiência internacional dos governos que integrou, nem o prestígio alcançado como conselheiro e subdirector dessa organização entre 1984 e 1988.

É que no outro prato da balança pesava (e como!) aquele gesto que definitivamente lhe garantiu um lugar na história deste pais: no dia seguinte ao 25 de Novembro, vai à televisão e diz, preto no branco, que o PCP é indispensável à democracia.

Um gesto que a direita nunca perdoou, e que o PCP, escassas horas antes duramente criticado pelo próprio Melo Antunes, leu como generosa mão estendida aos vencidos. Algo em que se confundia grandeza humana e táctica política. Penso contudo que, mais do que táctica, era estratégica essa atitude de soberana independência, de rara lucidez política e de compromisso ético com a própria ideia de Democracia. Como me disse: “achava que era perfeitamente imoral essa tentativa de eliminação do PC, porque no fundo era isso que se exigia, quer dizer o seu desaparecimento como partido. Era não só imoral e injusto, como politicamente disparatado, absurdo, porque seria o fim do processo democrático”.

As diversas e autorizadas vozes que se ouvirão na Gulbenkian, sublinharão certamente o alcance deste gesto mais conhecido, mas também o de muitos outros que fizeram de Melo Antunes a referência ética, política e humana dos militares de Abril, como eles próprios confirmaram através de um inquérito realizado pelo jornal Público justamente nos 30 anos da Revolução.

A tentação em lhe traçar o perfil de herói será grande, mas gostaria que não exclusiva. Porque se há traço fascinante neste homem é o permanente conflito entre as suas convicções e as reais possibilidades da sua concretização. O que o obrigou muitas vezes a actuar à revelia do seu ideário em obediência a um pragmatismo que em seu entender a situação exigia. A situação, isto é, o país ao qual dedicou uma vida a vários títulos exemplar, em grande parte registada neste admirável Sonhador Pragmático.

Revisitá-lo a estes anos de distância é cada vez mais um acto de resistência: resistência, antes de tudo, ao esquecimento, à amnésia e à reescrita da história. Resistência à quietude endémica e passiva, ao pântano moral e cívico em que vivemos. Resistência a um país de espinha partida e de mentalidade medíocre, sem dignidade, sem projecto nem ambição, por mais que o negue a nova geração de “pragmáticos” que nos governa.

Poderia ter sido de outro modo se em Portugal houvesse burguesia forte, coisa que não havia nem há. E não vou ser eu a lamentá-lo.

João Martins Pereira

Há livros que, antes mesmo de serem lidos ou sequer folheados, só pelo título, parecem prometer descobertas que estranhamente nos atraem e inquietam. Um pouco como se deles esperássemos uma revelação e ao mesmo tempo temêssemos que essa tão alta expectativa não resistisse aos primeiros minutos de leitura. Nessa incerteza vivemos algum tempo, alimentado de uma calma tensão que afinal nos prepara para o momento da verdade, do qual surja algo de decisivo que só pode ser a decepção ou o deslumbramento. No Reino dos Falsos Avestruzes é, para mim, um desses livros, cujo título improvável e algo misterioso foi a antecâmara para os momentos de prazer anunciados (e plenamente alcançados) da sua leitura.

George Steiner fala de livros que são «presenças reais» e Eduardo Lourenço fala de alguns como «livros-acto», e para mim estamos perante um desses casos. JMP joga-se inteiro nesta obra de balanço de um percurso individual e colectivo profundamente enlaçados, que tendo como cenário e horizonte o Portugal pós-revolucionário, é também uma lúcida e implacável auto-reflexão geracional e pessoal: «julgo que alguém irá detectar neste livro um sem número de ajustes de contas – e com isso ‘lavar daí as suas mãos’. É claro que haverá nisso alguma razão, certo como é que começo por ajustar algumas contas comigo próprio. Julgo mesmo conveniente acentuar que, por muito que pareça estar a falar de outros são inúmeras as vezes que me auto-retratei sem excessiva piedade» (p.9/10).

Na verdade, sem excessiva piedade, quer com a direita quer com a esquerda em que se filia, JMP regressa em 1984 (recorde-se que data de 1971 uma obra sua intitulada justamente Pensar Portugal Hoje) ao imenso filão que, genericamente e das mais variadas formas, reflecte a persistente e quase obsessiva questão da identidade nacional. Tema por demais abrangente e vago que tem servido para as mais fantásticas construções ideológicas as quais, em vez de fonte de auto-conhecimento, são antes formas de perpetuação de imagens distorcidas e falsas sobre a realidade nacional, o seu passado e o seu lugar no mundo de hoje. É a tão falada «imagologia portuguesa» de que Eduardo Lourenço faz o mais brilhante e certeiro diagnóstico, arriscando com a sua finíssima ironia (as mais das vezes tão mal compreendida!) a terapêutica da psicanálise colectiva.

JMP foi, parece-me, um dos muitos que leu com indisfarçável admiração esse fascinante Labirinto da Saudade, mas foi dos poucos que com ele dialogou, num confronto «corpo a corpo» com aquele que considera «o mais brilhante livro sobre a sociedade portuguesa publicado nos últimos anos» (p.16).

Incomodou-o visivelmente (e creio que um tanto precipitadamente se atendermos à tal ironia lourenceana) a sugestão de regressarmos todos ao divã de Freud…. Mas incomodou-o sobretudo a ideia, repetida até à exaustão, de que temos uma forte mitologia nacional, uma hiper-identidade, que nos defende de todos os acidentes da história, receita segura (quase milagrosa!) contra todas as crises. Porque, afinal, é a direita que tem aproveitado e mesmo explorado freneticamente esse verdadeiro balão de oxigénio para a sua sobrevivência quer antes quer depois do 25 de Abril.

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expo98

Vivemos um tempo paradoxal, em que a generalizada amnésia da sociedade civil convive com uma verdadeira obsessão pelo passado. Paradoxo apenas aparente, dado que esta operação sistemática de recuperação do passado se faz justamente à custa do apagamento de memórias conflituantes ou contraditórias. Impõe-se assim uma memória colectiva de que o florescente fenómeno do comemorativismo é a mais viva e espectacular expressão.

Como era de prever, entre nós essa onda comemorativista alimenta-se, ontem como hoje, do inesgotável leit-motiv dos Descobrimentos Portugueses. Também aqui o 25 de Abril pouco pôde contra a sobrevivência da velha mitologia descobridora e conquistadora, mesmo se revista e reciclada de acordo com a onda pós-moderna, onde queremos mergulhar, passando ao largo da própria modernidade. Na verdade, e pensando apenas nas grandes iniciativas de impacto nacional (e mesmo internacional), uma inquietante linha de continuidade une a Grande Exposição do Mundo Português (1940) à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos (1986-2002).

Entre elas, porventura não apenas em termos cronológicos, situa-se a Expo98 que configura, quanto a mim, um verdadeiro case study da incapacidade do regime democrático em construir uma imagem em tudo oposta à devoradora imagem da velha nação imperial. Não esqueçamos que, ao mesmo tempo que comemorava os 25 anos do 25 de Abril e se apresentava como a mais ambiciosa comemoração do próprio regime democrático, a Expo provocou inevitáveis paralelismos com outras manifestações do passado não democrático – mais precisamente a Grande Exposição do Mundo Português – com as óbvias diferenças que os novos meios tecnológicos permitiram, exemplarmente tipificadas no emblemático Pavilhão da Realidade Virtual, onde as viagens se faziam em frente a um computador, e os Lusíadas se liam do alto de uma torre panorâmica, com base em fantásticos meios audiovisuais. Revolução sim, mas apenas tecnológica…

Porém, tudo se complicou, quando a Expo98 se ultrapassou como Exposição Universal que era, para se assumir como comemoração política por excelência. Isto é, quando não podendo fugir à comparação com a sua antecessora, a Expo reivindica uma outra diferença essencial: é que ela comemora e consagra o regime democrático, ao contrário da Exposição do Mundo Português que consagra justamente o regime ditatorial. Ou seja: que ela se abre ao Mundo, ecumenicamente diluído nas águas de todos os oceanos, enquanto esta se refugiou no passado como uma espécie de Arca de Noé. E aí temos toda a ambiguidade da temática dos Oceanos, do Encontro de Culturas, do Portugal pioneiro da globalização… grandes metáforas para nomear a epopeia imperialista e colonialista. Temas em total sintonia com outros que vieram depois, como a celebração dos 500 anos da descoberta do Brasil, substituída para consumo interno por achamento. Uma actualização semântica, a esconder velhos conteúdos.

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persistencia-de-la-memoria-salvador-dali

1. É já clássica a classificação do historiador Maurice Halbwachs que, opondo memória individual e memória colectiva, define esta última como uma memória normativa, simbólica e fora do tempo.
Em primeiro lugar porque o comum mecanismo de lembrar/esquecer se constitui neste caso como eixo vital de permissão discursiva, de verdade social e de controlo informativo. Ela conta uma história-ficção censurada de acordo com determinados pressupostos ideológicos e políticos, e visa essencialmente preservar a tradição e a estabilidade, cimentar a coesão das sociedades e, no limite, promover a legitimação do poder político.
Neutralizando as contradições históricas e os conflitos sociais, a memória colectiva selecciona no passado o que é considerado importante para o indivíduo ou para a colectividade e organiza e orienta esse material segundo um sistema de valores inquestionáveis.
Daí a segunda característica: simbólica, porque os acontecimentos escolhidos são idealizados, quando não mesmo sacralizados, e os valores e referências sobrepõem-se à procura da verdade do acontecido. Ligando directamente o passado e o presente aponta-se uma visão de futuro… que neutraliza e pulveriza os tempos históricos, confiscando o seu potencial.
Daí a terceira característica: fora do tempo. A memória institucionalizada aprisiona as especificidades emocionais e reduz a complexidade das experiências pessoais, estabelecendo um deslocamento temporal no vivido, como se fosse recoberta por uma dimensão vazia de tempo. Há, pois, um fenómeno de desnaturalização que fixa e reduz o sentido da memória como algo retido ou suspenso no tempo. 

Pelo contrário, a memória individual, na sua assumida subjectividade, alheia às grandes linhas interpretativas e integradoras da memória colectiva, obedece sobretudo à necessidade vital de preservar e transmitir experiências plurais e únicas, projectando luz sobre a diversidade e a complexidade daquilo que tantas vezes nos é mostrado como uma sucessão de factos de um sentido interpretativo único e inquestionável.
Neste caso o comum mecanismo de lembrar/esquecer alimenta uma corrente subterrânea necessária à sobrevivência de diferentes grupos e indivíduos e à reestruturação de identidades, de intencionalidades e valores que não sendo dominantes, são contudo indispensáveis para o que Walter Benjamin pede à história: que «ofereça uma fisionomia às datas».
Assim, mais do que um relato objectivo e factual, a memória individual é um poderoso filão simbólico e compreensivo para diferentes grupos e indivíduos, configurando-se como um reservatório de práticas sociais e políticas mobilizadoras e marca identitária de uma sociedade em busca constante de referências e de projectos. 

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Costa Gomes  - Manuela Cruzeiro

 
Costa Gomes morreu há oito anos, em 31 de Julho de 2001.

 
Eis uma das figuras de Abril que nunca classificaria de herói, mas antes de anti-herói, dado o perfil enigmático (quase esfíngico) que tanto inquietou os portugueses no tempo revolucionário, e continua hoje a inquietar estudiosos e investigadores.
A prová-lo os mais variados epítetos (para ficar por aqui….) com que tem sido distinguido e até a imagem dominante que deixou para a galeria de um certo anedotário político nacional. Rolha ou Cortiça foi a sinalização encontrada para a sua proverbial habilidade política, a sua capacidade de flutuar e se manter à tona de todas as tempestades.
Num registo mais erudito, são inúmeros os desabafos de impotência de todos quantos apostaram no esclarecimento da sua real dimensão na cena político-militar nacional, quase sempre de forma ultra-discreta, durante cerca de meio século.
Medeiros Ferreira, por exemplo, considera que «o papel de Costa Gomes é indiscutivelmente um dos maiores mistérios da fase pré-constitucional da Revolução» (1) e Gomes Mota confessa que só se conhecerá verdadeiramente o que ele pensava, através de critérios sobrenaturais. E foi talvez por levar a sério essa sugestão que, a dada altura, Sá Carneiro decidiu ir tão longe quanto possível nessa pista, pedindo uma audiência privada ao amigo e director espiritual do velho marechal, o padre jesuíta Cabral Abranches. Queria saber, de fonte credível, se Costa Gomes era, de facto, católico. Consta que a resposta não foi muito tranquilizadora, uma vez que o jesuíta só garantiu o que a sua própria experiência lhe permitia: que o seu velho amigo cumpria escrupulosamente os mandamentos da Igreja Católica. Se por dever, se de acordo com o dever, para usar a regra de ouro da moralidade kanteana, nem ele, seu confessor, o saberia nunca. 

Uma simples consulta ao que se tem escrito sobre aquele que alguém descreveu como demasiado neutro para ser interveniente e demasiado interveniente para ser neutro, permite-nos distinguir claramente dois períodos:
Um primeiro, dominado pela visão exaltante (e exaltada!) das vozes e dos rostos da revolução, que dificilmente enquadrava o «cinzentismo» da figura, a sua visível dificuldade de expressão, a sua consabida tendência para a conciliação, quando não mesmo para a neutralização das tensões em estado de explosão iminente.
Um segundo, em que a reavaliação do papel que Costa Gomes desempenhou durante aqueles meses de brasa, tem vindo a ser proposta pelos mais amplos sectores políticos e ideológicos, valorizando-o como o principal responsável pelo evitar da guerra civil e pela estabilização do regime democrático saído da revolução.
Tudo se fez, críticas ou elogios, um tanto à revelia da figura inspiradora, comummente considerado um homem discreto e apagado, obscuro, quase sombrio, que, como dizia «se viu sem saber ler nem escrever, em Presidente da República», porque «não tinha ambições politicas, não tinha preparação politica, não tinha, sobretudo, uma máquina promocional que lhe vendesse a imagem» (2).
Com um vasto capital de queixa, quer à direita, quer à esquerda – desde traidor aliado a Moscovo, a inimigo mortal de qualquer radicalismo – Costa Gomes não contentou totalmente ninguém, e isso, longe de o magoar, era para ele a prova mais cabal da sua independência e do seu patriotismo. Na verdade, «houve de tudo na nossa revolução: spinolistas, gonçalvistas, otelistas, eanistas, sá-carneiristas, soaristas…mas ninguém ouviu falar de costa-gomistas» (3).
Daí o seu comportamento desconcertante, imprevisível e incómodo, o que faz dele um desalinhado no complexo xadrez político revolucionário. Outros, mais severos, evocarão as suas características de exímio negociador ou até de temível manobrador, treinado por longas sessões de bridge nas salas de oficiais. 

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Cunhal e Soares 1974

Analisámos até aqui apenas figuras militares, que foram com toda a justiça estrelas de primeira grandeza no universo revolucionário. Contudo, o seu protagonismo não é exclusivo e outros haverá, também da parte civil, que se destacam. E, entre estes, tal como acontece com Vasco e Otelo, há uma dupla na qual, por breve tempo, o imaginário da revolução se projectou, e cuja separação tornou o sonho inalcançável. 

1. É o caso dos dois maiores líderes da oposição, ambos perseguidos e condenados ao exílio, que regressam triunfalmente ao país, para assumir as mais altas responsabilidades, logo após a vitória militar: Álvaro Cunhal e Mário Soares. Basta recordar o entusiasmo com que foram acolhidos, os paralelismos históricos, as metáforas e ressonâncias míticas que o seu regresso desencadeou no imaginário colectivo. A chegada de Mário Soares de comboio a Sta Apolónia (num claro paralelismo com os dirigentes da 1ª República, ou com Humberto Delgado) chegou mesmo a ser comparada com o regresso de Lenine do exílio em 1917. O comentário de Mário Soares a propósito – «Lenine era um grande homem, eu sou apenas um militante…» – não deixa de contrastar com o papel central que lhe estava destinado desde o primeiro dia.Álvaro Cunhal, não menos simbolicamente, realiza o seu primeiro comício no aeroporto, de cima de um carro blindado repleto de cravos, para o qual foi literalmente lançado mal saiu do avião, numa nítida antecipação do que viria a ser o alfa e o ómega da linha política do partido que chefiava: «Aliança Povo/MFA». E quando lhe perguntaram o que sentia, respondeu simplesmente: «Confiança, confiança no Povo Português!»Também o abraço do seu reencontro, presenciado com indescritível emoção pela impressionante massa humana naquele memorável 1º de Maio de 1974, ficou registado como um brevíssimo momento de unidade entre os dois «inimigos íntimos» (expressão de Mário Soares) que tudo parecia juntar, mas cujas vidas extraordinárias se limitaram a passar breves e cautelosas tangentes. 

2. Ambos filhos de oposicionistas ilustres receberam no berço a mesma formação. O pai de Cunhal foi, em 1923, Governador Civil da Guarda, cargo que fora ocupado por João Soares, pai de Mário Soares. Conheceram-se em Lisboa, no Colégio Moderno, onde CunhaDebate Soares-Cunhal 1975l foi regente de estudos de Soares que, por influência dele, aderiu ao PCP. Mas os seus encontros, na condição de exilados e opositores à ditadura, foram marcados por crescentes dissidências políticas e, para além disso, por personalidades inconciliáveis.Juntou-os o «milagre» do 25 de Abril, mas essa comunhão duraria pouco, menos ainda do que a dos heróis militares Vasco e Otelo. Porém, ao contrário do que aconteceu com estes, a separação, apesar de fatal à revolução, não os enfraqueceu nem condenou ao esquecimento. Muito pelo contrário: cada um a seu modo, vão ser referências nucleares do processo de normalização pós-revolucionária. 

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Otelo e Vasco Gonçalves

Com as suas características próprias, a seu tempo assinaladas, Abril tem indubitavelmente os seus heróis. Heróis supletivos como Spínola, ou heróis genuínos que, emergindo do grande corpo colectivo do MFA, se impuseram, breve mas intensamente. Desses elejo a dupla Otelo e Vasco Gonçalves. Surpreendentemente, eles funcionam como um par de opostos: como se a força catalisadora de cada um ganhasse com a presença do outro, numa tensão que se alimenta mais do conflito do que do consenso. 

Parto de uma fotografia, uma simples fotografia de Vasco e de Otelo, em Tancos, cenário de todos os confrontos, que inspira esta inquietante passagem do filme Gestos e Fragmentos de Alberto Seixas Santos:
«O que foi a Assembleia de Tancos? O começo da luta pelo poder? O fim dela? Estão juntos perante a Assembleia do MFA. Talvez os dois heróis estejam a olhar para o microfone. Ou estará Otelo realmente de olhos baixos? Está inclinado, já quase fora da imagem, puxado por uma força marginal invisível. Parece cair para o nosso lado. O rosto é apanhado em movimento. O corpo está torcido, numa incerteza na intenção, e Vasco segura-lhe a mão, impedindo-o de cair. Os tendões do pulso de Otelo estão retesados. O braço dele é puxado para trás, enquanto o pulso de Vasco é firme e seguro. Vasco dirige-se ao microfone voltado para a frente, para a Assembleia, mas metade do seu corpo parece desaparecer na espessa escuridão. Vão ser separados, sair de cena, mas o microfone permanecerá.»

O estudo comparativo das zonas de afastamento e proximidade entre eles, revelando muito sobre os respectivos traços e projectos pessoais, revela tanto ou mais sobre as imagens que deles construímos. Apesar das notórias diferenças intrínsecas, coexistiram no imaginário político abrilista durante algum tempo, até que a sua traumática e dolorosa separação, tantas vezes anunciada e outras tantas desmentida, foi um outro, porventura decisivo, golpe para os revolucionários e para a revolução. A célebre carta escrita por Otelo a Vasco – «Agora, companheiro, separamo-nos (…) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia» – abalou e emocionou o país inteiro como se tivéssemos perdido a nossa «fada Morgana»: a unidade dos revolucionários, os quais, cada um por seu lado, ditavam a morte da revolução e com ela também o fim do seu breve período como seus símbolos maiores.
Evoluem em cena, quer antes quer depois do decisivo afastamento, de forma radicalmente oposta. À teatralidade nata (por vezes vedetismo?) de Otelo, opõe-se a simplicidade sem pose (por vezes humildade?) de Vasco Gonçalves. À inconstância (quase leviandade?) de Otelo, opõe-se a firmeza (quase obstinação?) de Vasco Gonçalves. Finalmente, a um estilo lúdico de fazer política por gosto em Otelo, opõe-se a gravidade obsessiva de quem a faz por missão, em Vasco Gonçalves.
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Anos inquietos 

O Conselho Feminino, um case study da problemática feminista dos anos 60

O essencial das minhas reflexões anteriores, basicamente concordantes com um trabalho mais exaustivo e completo de Miguel Cardina, publicado neste blogue, parece-me amplamente apoiado nos documentos estudantis da época – comunicados, programas eleitorais, textos de reflexão e divulgação, etc. – não esquecendo os testemunhos orais dos protagonistas das crises estudantis, dirigentes conhecidos ou estudantes anónimos.

De todo esse vasto material, escolho um caso paradigmático: O Conselho Feminino da AAC e a forma como foi utilizado (ou não) pelo movimento estudantil em geral, e pelas mulheres em particular, justamente ao longo dos anos 60. Integrado no organograma da AAC, pelo menos desde 1961, entre áreas como Desporto, Actividade Social e Pedagógica, Convívio e Intercâmbio, foi sempre o menos apoiado. Abordado pelos responsáveis associativos com um misto de desconforto e desorientação, absolutamente ignorado – e até ridicularizado – pela grande maioria das suas destinatárias.

É de Eliana Gersão, sua presidente no ano de 1961-62, esta eloquente e saborosa descrição:

«O CF, para o qual eu tinha sido eleita, era então um órgão apagado e irrelevante, que se limitava a organizar algumas actividades consideradas femininas, como cursos de decoração ou puericultura. Tanto assim, que o espaço que lhe estava disponibilizado era a cozinha da AAC. Nós também começámos por organizar essas actividades, embora tentando inovar alguma coisa. Assim, organizámos um curso de decoração, um curso de ginástica feminina, e ainda um curso que teve o estranho nome de Puericultura pré e pós natal. Foi dirigido pelo Dr. Assis Pacheco e pretendia dar às raparigas alguma informação em matéria sexual. Como isso era um tema absolutamente tabu, que nunca poderia ser apresentado como tal, incluí-lo num curso de puericultura foi o subterfúgio que encontrámos…» (1)

E nem a oportunidade de ouro, oferecida de bandeja pela pedrada no charco que foi a Carta a uma jovem portuguesa da autoria de Marinha de Campos, e publicada na Via Latina de 19 de Abril de 1961 – verdadeiro manifesto pela liberdade da mulher, inclusive sexual – foi aproveitada. Antes se veio a revelar motivo acrescido de embaraço e confusão. Na verdade, a carta desafiava a mentalidade dominante, especialmente feminina (a dos Lares de Freiras), e com ela os sectores mais conservadores e obscurantistas dominados pela Igreja, que desencadeou uma verdadeira campanha de desagravo, em que confundia liberdade e emancipação da mulher com libertinagem, imoralidade, indignidade, verdadeiro plano de subversão dos «mais sãos e autênticos valores da sociedade portuguesa».

Os sectores progressistas, numa clara posição defensiva, não entram nessa guerra, que remetem para o foro das opções individuais. A própria Via Latina, em cujas páginas «o escândalo» rebentou, «defendeu-se dizendo que devia ser pluralista, e publicar todos os artigos, independentemente de concordar ou não com eles. E abriu um número especial para publicar as respostas à carta. Foi também por aí – defesa da liberdade de opinião – a reacção da DG. Ficou à margem do debate sobre o conteúdo da carta, não apoiou (não há um único texto da DG de apoio à carta) nem atacou, considerando que não tinha que se manifestar sobre o assunto». (2)
 
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Crise Académica69 – Coimbra 28-maio

 
1. A participação das mulheres nos movimentos estudantis da década de sessenta, pontuados pelas crises de 61-62, 64-65 e 68-69, tem, como vem sendo assinalado, uma crescente expressão quer quantitativa, quer qualitativa. O que significa que a entrada em massa das mulheres no movimento associativo alterou profundamente as suas características. E, para tal, basta comparar os registos fotográficos das assembleias de estudantes de 62 com as de 69. O universo predominantemente masculino dos primeiros, contrasta com a esmagadora presença das mulheres nos segundos. Com uma naturalidade e espontaneidade surpreendentes, elas ocupam o seu lugar lado a lado com eles, numa cumplicidade impossível de imaginar poucos anos atrás. Caíram barreiras ancestrais, feitas de preconceito e hipocrisia e o espaço da luta era também o do amor e da amizade. 

Foram avanços gigantescos em poucos anos. E os mais optimistas garantem que nessa ilha de liberdade que foi a Coimbra de 69, se viveu por antecipação a verdadeira emancipação feminina.

É uma extrapolação frequente mas muito enganadora porque ignora as específicas condições da vida universitária da época, bem como os parâmetros que balizavam as metas políticas da nossa luta comum contra a ditadura. O combate, então, em plena ditadura, era por causas essenciais – liberdade de expressão e associação, autonomia da universidade, reforma e democratização do ensino – e neste combate estavam homens e mulheres que, na idêntica qualidade de estudantes, sentiam rigorosamente os mesmos problemas, e nesse campo cívico e político reivindicavam plena igualdade.

Com efeito, nas crises anteriores – de 62 e 64 – as mulheres lutavam por uma participação de baixa densidade, em tarefas auxiliares ou secundárias, contando-se pelos dedos das mãos as que integravam estruturas de responsabilidade (e pelos de uma só as que foram presas), aceitando o estatuto algo ambíguo de «companheira». Ou seja: parceira secundária numa secular tradição coimbrã fortemente marcada por comportamentos machistas.

Mas em 1969 elas estão por todo o lado. Foram um factor decisivo na transformação das tradicionais «vanguardas associativas» num enorme movimento de massas. Audaciosas, criativas, determinadas e práticas nas acções concretas: na luta pedagógica nas faculdades (no início do movimento), em todas as acções de rua, e noutras mais arriscadas e totalmente clandestinas (como tudo o que se relacionava com a informação), na organização de piquetes de greve, na confrontação com os «agentes da ordem» (GNR, PJ, PIDE), com os professores e com os furadores, na criação de uma gigantesca rede de solidariedade com os colegas em dificuldades económicas (por corte de mesadas familiares ou de bolsas) e, sobretudo, com os presos através da Secção Social da AAC. Consequência indesejável de tanta actividade foi a transferência de muitos colegas da PJ de Coimbra para Lisboa, segundo um dos agentes «porque estas gajas não nos deixam trabalhar»…

Foi um percurso imaginativo, criativo, surpreendente até, mas sempre marcado pelo paradigmático equilíbrio entre a consciência subjectiva de cada um (todos mais ou menos activistas) e o máximo de consciência possível de um colectivo com fortes reservas a questões fracturantes, como os temas da emancipação feminina ou da discriminação positiva da mulher.

O fantasma do amor livre, arma de verdadeiro terrorismo ideológico que os sectores ultra-conservadores do regime habilmente esgrimiam, acabava por atingir franjas que nos estavam muito próximas, e que eram imprescindíveis para a unidade e coesão do movimento. Não era ainda o tempo de lutar pela verdadeira emancipação da mulher, assumindo as clássicas questões do feminismo, como o direito às relações amorosas livres, à livre disposição do seu corpo, ao prazer, à contracepção, à informação sexual.
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João Varela Gomes
 (Fotografia de João Pina)

Fez oitenta e cinco anos no passado dia 24. E dele se pode dizer com total propriedade que se não trata de uma vida cheia de anos, mas de oitenta e cinco anos cheios de vida. De uma vida que escolheu o caminho da coragem e da dignidade, ontem contra o fascismo, hoje contra a quietude endémica, a indiferença e o cepticismo político e ideológico de uma democracia que não hesita em chamar filofascista. Com uma independência e uma frontalidade a toda a prova, continua o seu combate solitário, quase quixotesco, através de textos livres, indignados, provocatórios, que teimam em furar o cordão sanitário do politicamente correcto, da aceitação passiva de que não há alternativa. Como este, que em jeito de homenagem aqui reproduzimos. 

 
Mitos do Séc. XX – A Democracia

Mito que remonta à governação de Atenas Cidade, já lá vão 2500 anos. Mito ressuscitado no sec. XVIII da era de Cristo pela emergente classe burguesa. Os amigos de Péricles ressurrectos: les gens de bien, gente que tinha alguma coisa a perder. Mito que ficou consubstanciado na Constituição dos EUA de 1777, nos ideais da Revolução Francesa, no poder político exercido pela burguesia de então.
Assim, sim, exclamaram os crédulos. Agora acabaram os abusos e privilégios da nobreza e do clero, o poder será legitimado pelo povo em eleições, os mais aptos, ilustrados e honestos desempenharão os cargos públicos que nunca mais serão ocupados por favoritismo, razões de riqueza ou nascimento. Liberdade, Igualdade, Fraternidade. O mundo civilizado convertido numa grande, feliz e próspera Atenas.
Em Portugal, o mito da democracia também é fruto da época. Constituição de 1820, vitória liberal, etc. Habitou os sonhos dos antifascistas neste século a findar, durante os cinquenta anos salazarentos. Veio o 25 de Abril. E vieram ao assalto o Soares, seus pares e outros exemplares. A desilusão é cruel.
Pelo mundo fora os créditos do sistema democrático também estão pelas ruas da amargura. O espertalhão de serviço cita Churchill (ou lá quem for): «A democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros». Assim sossegam a consciência para mais demagogia, mais entorses, promessas de socorrer os pobres e desfavorecidos. Uma rábula de tal maneira desacreditada, que leva meio eleitorado a abster-se de votar. O modelo democrático, tal como está implantado no chamado mundo ocidental e vai sendo imposto aos países menos desenvolvidos, constitui uma máquina bem oleada (lubrificada a dinheiro) para o exercício do poder absoluto da burguesia capitalista. Embora o funcionamento do sistema tenha vindo a degradar-se. A ferrugem – isto é, a corrupção – aparece a todos os níveis. O modelo está esgotado, dizem uns. Está apodrecido, diz a voz do povo. Mas não, dizem eles. Bastam uma reformazinhas, um rendimento mínimo, um torneio de futebol. Dêem-nos ideias, dêem-nos ideias.
Não contem comigo para dar palpites, para fazer crítica construtiva, para propor alternativas. Nessa esparrela não caio eu. E, confesso, custa-me a perceber o que é que pretende gente de esquerda, grupos e partidos, quando afadigadamente fornecem à burguesia receitas homeopáticas, balões de oxigénio, para lhe prolongarem a existência, para a manter à tona de água.
Vem a talhe de foice lembrar o grupo da Seara Nova quando de 1920 a 26 forneceram à I República toneladas de sugestões reformistas. O fascismo agradeceu tomando boa nota delas… e de alguns seareiros. Rodrigues Miguéis, comunista fundador, insistia numa Câmara Técnica em substituição do Senado. Salazar fez-lhe a vontade e criou a Câmara Corporativa. Gente boa, intelectualmente brilhante, este pessoal da Seara Nova. Ilusões também não lhes faltavam.
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Spínola e Zé Povinho 

 
Na continuação do post dedicado ao MFA, como herói colectivo, inicio hoje a série de heróis individuais que, apesar de tudo, não deixaram de se afirmar no imaginário da revolução. [Clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior.]  
 
Desse mítico corpo colectivo do MFA vêm a emergir figuras que, apesar da extrema efemeridade (maior ainda quando comparada com a duração do herói colectivo), e do crepúsculo porventura apressado em que se diluem, não deixam de ocupar no imaginário popular um lugar muito próximo ao dos heróis.
O primeiro, cujo período de glória se esvai precisamente entre 25 de Abril e 28 de Setembro de 1974, é António de Spínola. O modo como é investido faz dele um herói supletivo. Ou seja: alguém que os capitães, ao insistirem no anonimato, e num obsessivo respeito pelas hierarquias («tragam-me ao menos um coronel», insistia Salgueiro Maia, perante a perspectiva de ter que ser ele a negociar a rendição de Caetano), empurraram para a ribalta, transformando-o em rosto visível e por algum tempo principal de um movimento com o qual manteve mais do que discretas ligações.
Do que não há dúvida é de que nos primeiros meses o velho general é visto, quer em Portugal quer no estrangeiro, como incontestável líder dos revoltosos.
E se o horror ao poder dos jovens capitães ajudou a essa operação, Spínola não deixou de contribuir decisivamente: a sua pose aristocrática e teatral, o cuidado posto na escolha dos adereços – o monóculo, o pingalim e as luvas – a sua retórica política um tanto apocalíptica e catastrófica (quem não se lembra do Bom Povo Português…com que invariavelmente iniciava as suas intervenções?…), a sua fama de excepcional cabo de guerra, contribuíram para lhe desenhar o perfil e construir a imagem. 

De pouco interessará, para o nosso objectivo presente, lembrar o passado obscuro da personagem, e sublinhar que as apregoadas qualidade militares de Spínola estavam longe de ser unanimemente reconhecidas por quem mais capacidade tinha para o fazer, desmascarando a sua irresistível vocação para operações de propaganda, porque isso seria introduzir racionalidade num mito, quando a sua matéria é, como sabemos, bem outra.
À história, obviamente, interessará saber o modo, no mínimo pouco claro, como o general do monóculo vem a surgir como Presidente da Junta de Salvação Nacional e, como tal, Presidente da República, «empalmando», para usar as exactas palavras de Otelo, no próprio dia da vitória, os ingénuos capitães e fazendo, com esse gesto, inflectir à nascença a direcção do próprio movimento. Afinal mais do que conquista do poder, ele protagonizou uma espécie de estranha investidura. Não foi Marcelo Caetano que, fazendo jus à sua qualidade de eminente jurista, num derradeiro mas significativo acesso de pura legalidade, o mandou chamar «para que o poder não caísse na rua»?
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Salgueiro Maia

A propósito de uma homenagem a Salgueiro Maia, em Santarém, no âmbito das Comemorações de mais um aniversário da Revolução.

Aparentemente uma homenagem igual a tantas outras que depois da sua morte se têm multiplicado, em tão gritante contraste com o silêncio distraído ou cúmplice com que em vida se assistiu à marginalização sistemática, à verdadeira perseguição de que foi vítima. Foi preciso morrer para então lhe serem prestadas todas as honras, num coro de inquietante unanimismo que, acredito, o incomodaria tanto ou mais do que as injustiças e humilhações que lhe doiam a título pessoal, mas mais ainda porque sabia visarem um colectivo a que se honrava de pertencer e que dignificou como ninguém: os «implicados no 25 de Abril»… Como lembrou Matos Gomes, aquando da entrega da mais alta condecoração nacional (Ordem Militar da Torre e Espada), à viúva, Natércia Maia, «se é legítimo pensar que em vida nunca lhe outorgariam esta condecoração, a verdade é que até a sua morte foi um acto revelador das suas excepcionais qualidades, pois de novo congregou companheiros e amigos e neutralizou os que, ao arrepio das suas consciências, mais uma vez, como no Terreiro do Paço, como no Carmo, como no dia do seu funeral, tiveram de se vergar perante ele». (Referencial, nº27).

Mas não foi disso que se falou nessa homenagem que eu dizia ser só aparentemente mais uma. Não se falou do passado, e dos seus fantasmas, apesar de evocarmos alguém já desaparecido. Não evocámos a memória de Salgueiro Maia em litanias de soturna melancolia, tão ao nosso jeito, mas tão ao contrário do recado que nos deixou: que no seu enterro entoássemos Grândola e a Marcha do MFA.

Traçámos-lhe um perfil a partir do muito que generosa e espontaneamente ele foi distribuindo por quem teve o privilégio de o conhecer. E o que é a vida, senão este caminhar para a memória que os outros guardarão de nós? Maia pode orgulhar-se de ter deixado marcas muito fortes que o passar do tempo, ao invés de apagar, mais aviva e ilumina. Dos camaradas de armas, aos companheiros de farra, aos amigos de todas as horas, os testemunhos multiplicaram-se, tocantes de sinceridade, não raro atravessados pela emoção, mas incisivos no retrato a corpo inteiro de uma personalidade e percurso incomuns.

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Povo-MFA - J.A.Manta

Sexto post da série ABRIL, mais actual do que nunca e não só por razões óbvias de calendário…mas pela exigência de honrar os verdadeiros heróis de Abril, a começar pelo mais puro e genuino: MFA, o rosto do herói colectivo [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior].

 
1. Toda a experiência revolucionária se constrói em torno de grandes ideais de mudança, transformação e renovação social. São as grandes narrativas simbólicas e mitológicas colectivas que surgem e se renovam com grau de intensidade e visibilidade muito diferentes, mas que têm como objectivo primeiro construir uma interpretação da sociedade através do tempo, não só fornecendo sentido ao passado, como iluminando os caminhos do futuro.
Também o 25 de Abril à sua (à nossa) maneira cumpriu as funções típicas de qualquer ciclo revolucionário: exorcizar fantasmas dos passado (Estado Novo, Salazarismo, Marcelismo, Colonialismo), referendar a comunidade política recentemente criada, enfim, recuar ao princípio, anular o erro, dotar a existência de um sentido em nome de tudo aquilo que se pensa e vive como verdadeiro e justo.
Este complexo de funções cumpriu-se entre nós através de um conjunto desigual de mitos políticos, entre os quais predomina o mito politico do Salvador. Núcleo mitológico de maior ressonância e vitalidade na nossa história, ele surge no imaginário abrilista  corporizado e actualizado no grande colectivo do MFA.
Foi um dos aspectos mais originais inéditos e surpreendentes da revolução portuguesa, um exército que, em vez de um golpe de força para cercear a liberdade, a dá de presente a todo um povo.
O MFA constitui-se assim, como imaginário social de libertação, centro do universo simbólico de luta contra a miséria e a injustiça, Até porque a verdadeira frente revolucionária se estabelece entre as classes populares chamadas a participar colectivamente na melhoria das suas condições de vida e as forças político-militares genuinamente ao lado delas contra as classes anteriormente dominantes.

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Salazar 

A revolução do 25 de Abril foi de uma generosidade sem limites. E não me refiro somente à assumida economia da força que a cunhou como uma das revoluções mais pacíficas da história. Refiro-me também à excessiva condescendência para com os seus adversários, de que o tratamento dos pides (brindados com as suas reformas pagas com zelo e a horas), o exílio dourado dos principais responsáveis pelo Estado Novo, o regresso para morrer na cama do «Supremo Magistrado da Nação», Almirante Américo Tomás, os repetidos regressos do «inspector Rosa Casaco» ao local do crime, são apenas alguns, de uma longa lista de episódios de profundo significado político e simbólico.
Dir-me-ão que são águas passadas, que a superioridade moral dos vencedores e, sobretudo, a incontestável legitimidade da democracia são armas invencíveis contra minorias ressabiadas e derrotadas pela história.
Nessa convicção (de boa ou má fé) se conviveu pacificamente com Salazar e com o salazarismo. A sua sombra (ou o seu cadáver insepulto) circulou por aí, aos ombros dos seus devotos saudosistas, enquanto que muito sensatamente se comentava que a democracia não tinha tabus, que a melhor cura do trauma é a sua verbalização, etc., etc…
Falar cura, portanto há que falar. E falou-se muito de Salazar nestes quase 35 anos de democracia. Falaram cientistas, sociólogos e historiadores em colóquios, debates, encontros, seminários, trabalhos escritos de inegável qualidade, num real esforço de explicação do que era este pais sob Salazar, bem como os reais contornos da sua figura e da sua acção. Falaram escritores e jornalistas denunciando o lado mais negro e silenciado da ditadura e do seu chefe supremo.
Podemos hoje dizer que se conhece quase tudo sobre as circunstâncias históricas (materiais, técnicas, jurídicas, burocráticas) que possibilitaram 48 anos de fascismo já passado, mas tudo isto parece estranhamente confinado a um público restrito, de académicos e estudiosos, porque subsiste ainda uma paradoxal incompreensão sobre a significação ética e política dessa experiência totalitária, bem como da dimensão humana dos acontecimentos. Isto é, da sua actualidade.
Por mais que nos lembrasse Eduardo Lourenço que o fascismo não era uma conta mal feita que se apaga e se corrige, mas uma verdadeira tragédia nacional que, além de um juízo histórico, exigia um implacável juízo ético de toda uma comunidade, ninguém levou verdadeiramente a sério esse imperativo cívico. A maneira como o poder político saído da revolução tem tratado a memória desse período, de que temos exemplos gritantes na destruição sistemática dos locais da repressão (António Maria Cardoso, Forte de Peniche, Tribunal da Boa Hora, para só citar os casos mais actuais) são a melhor prova dessa menoridade cívica e cultural.
Cultural também, obviamente. Porque herdeira e devedora de Abril, esta democracia foi incapaz de construir de si mesma uma contra-imagem suficientemente forte e consistente, que se opusesse à imagem laboriosamente construída pelo salazarismo, ao longo de 48 anos. A ideia tantas vezes repetida de que, com o 25 de Abril, encerrámos um ciclo histórico, o «ciclo do império», serviu quase exclusivamente aos políticos, mas foi incapaz de mobilizar toda uma sociedade em verdadeiros projectos colectivos de mudança e transformação. 

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   Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

 
Quinto post da série ABRIL [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior], em que proponho uma leitura da revolução como concentrado excepcional e único de acontecimentos de forte carga simbólica que a faz, no dizer de F. Furet «o imaginário de uma sociedade transformado no tecido da sua história».

Regresso a Luís Trindade e à sua tese tão lúcida quanto perturbante: «Trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril. A realidade da revolução está de tal forma coberta de sentidos históricos que a antecedem e ultrapassam, que podemos apenas lê-la como símbolo do sec. XX português. Só a partir do passado ditatorial e projectando-o no futuro democrático, é que parece ser possível falar do momento historicamente mais denso da nossa contemporaneidade. A revolução fica assim, condenada por excesso ou por defeito, a uma confrontação com realidades que não são exactamente a sua, ora como conjunto de conquistas à luz da privação salazarista, ora como momento de excessos perante uma democracia assente em instituições representativas estabilizadas.» [1]

Assim sendo, entre a privação e o excesso, ou entre o antes e o depois do tempo revolucionário, o autor propõe um regresso ao momento histórico e à sua imanência. Um regresso que retire o 25 de Abril de uma falsa e aparente normalidade: quer retrospectiva, ligando-o ao passado da ditadura, quer projectiva, ligando-o ao presente da democracia. Isto porque nada é normal em período revolucionário, antes ele é a todos os títulos excepcional.

Só nos aproximaremos dessa excepcionalidade desde que nela se incluam não só elementos provenientes da memória histórica propriamente dita, mas também de uma outra memória que a transcende e a funda: a memória simbólica. A revolução, como conjunto de coisas que aconteceram e foram ditas, ou seja, de acontecimentos políticos e discursos sobre esses mesmos acontecimentos, pressupõe muito mais do que uma narrativa historiográfica: uma narrativa simbólica e mitológica. Na verdade, o acontecimento social e politico que em períodos de normalidade surge envolto numa racionalidade funcional é, em período revolucionário, sobredeterminado por intensa elaboração imaginária que inscreve as acções e os actores sociais num quadro geral de referências e representações, afinal tão reais como a pura factualidade, e mais próximas do que os cristais da fria cronologia.

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Sabíamos-te doente e frágil nos teus noventa e dois anos, mas a força da tua personalidade e a tua história fantástica de resistente e lutadora davam-nos a ilusão de eternidade, como eternas são as causas que abraçaste desde a juventude. Por isso recordo, da entrevista que te fiz em 2000 para o Projecto de História Oral do Centro de Documentação 25 de Abril, uma frase que é para mim a legenda de uma vida: «Curiosamente nunca tive medo físico. Penso que naquela altura trabalhávamos com tal amor, púnhamos tanto de nós nas coisas que fazíamos, que o medo, se existia, não dávamos por ele.» 

Os mais novos compreenderão mal o alcance destas palavras de quem aos 17 anos trocou o conforto de uma vida burguesa a que te destinava a sua origem e a sua condição de mulher, pela perigosa aventura do combate anti-fascista. Com uma alegria, uma coragem e um amor incondicionais: pelo teu povo, pelos teus companheiros e amigos, pelo teu marido, Fernando Piteira Santos, que acompanhaste durante 44 anos, incluindo os 13 de exílio em Argel. Disseste a dada altura: «fiz tudo para que ele pudesse fazer a sua vida politica. A minha fazia-a com ele». Não, Stella, não foste só a esposa dedicada e abnegada, com duplas e triplas tarefas familiares e profissionais, mais ou menos obscuras.  A motorista, a secretária, a telefonista… Foste uma mulher singular à altura de um homem singular, porque é também singular e única a energia que fez de ti uma pioneira na luta pela emancipação das mulheres. À censura, ao medo e à banalidade da ditadura, respondias com gestos de arrojo, rebeldia  e provocação. Como recordou a tua filha Maria Antónia, por ocasião dos teus 90 anos, trabalhavas fora de casa e sempre exerceste a tua profissão (excepto quando to impediu a policia politica), completaste o 7º ano já com dois filhos pequenos, tinhas carta de condução, fumavas, vestias calças compridas sempre que te apetecia. A par disto, participaste, apenas com 21 anos, na fuga histórica de Pavel, foste sócia fundadora da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, aderiste ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido pela tua amiga Maria Lamas. E foste a alma e durante algum tempo a principal locutora da Rádio Voz da Liberdade. Apenas uma ínfima parte da tua acção de apoio, a todos os níveis e em todas as frentes, aos exilados portugueses em Argel. Mãe Stella! Lembras-te? Era assim que Manuel Alegre diz que te chamavam. A memória afectiva dos que te conheceram é assim que te recordará. A memória oficial dar-te-á, espero, um lugar de destaque na história da resistência e das mulheres no século XX deste país. 

Hoje, se pudesse estar presente na tua despedida, gostaria de te levar um ramo de flores de amendoeira da tua terra, a quem deves esse sorriso radioso que te acompanhou até ao fim.

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   Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril) 

Neste novo post da série ABRIL [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior], abordo as leituras «descontinuistas» do fenómeno revolucionário. Isto é, as que o consideram como ruptura ou corte abrupto com uma realidade conhecida e instauração de uma radicalmente nova. Na convicção de que só o cruzamento de vários olhares – da historiografia aos media – nos aproximará do que insistimos em chamar revolução.

 
Apesar das distâncias óbvias, que não é de mais assinalar, podemos dizer que à semelhança de Tocqueville, também Michelet tem entre nós os seus «discípulos», na forma como encaram o fenómeno revolucionário. 

Curiosamente não foram historiadores, pois faltou à revolução de 74 o seu Fernão Lopes, como sugere Medeiros Ferreira, quando no prefácio ao seu Portugal em Transe afirma. «Custou ainda ao autor não ter recriado, pela narração, o clima emocional de certos momentos, nomeadamente o desencadeado pelas grandes manifestações que ocuparam praças e ruas de Portugal entre 1974 e 1975. E, no entanto, Fernão Lopes esteve sempre presente como um paradigma literário soterrado pela moderna forma de escrever história como se esta fosse objecto de relatório administrativo».

Esta operação de resgate de tudo o que jaz soterrado por uma certa forma de escrever (e fazer) a história, ao mesmo tempo que traduz o inegável fascínio por uma narrativa que devolva à história a sua vocação primordial, significa a busca por uma forma que melhor sirva a natureza específica do terramoto revolucionário, entendido como invulgar sucessão de acontecimentos violentos, geradores da máxima concentração de emoções no mais curto espaço de tempo. O que significa que o historiador que queira separar o inseparável, ou seja, as emoções, as paixões (e até as próprias ilusões) dos acontecimentos, corre o risco de deixar de fora o próprio acontecimento. 

Reagindo à tendência dominante entre os seus pares, de se descartarem das emoções, sinónimo de irracionalidade que obscurece e contamina a clareza dos conceitos, Medeiros Ferreira avança, cautelosa mas decididamente: «O 25 de Abril desencadeou profundas alterações nos valores e na vida social nacional. Ele marcou uma era, tantas são as ocasiões em que é tomado como referência: Antes do 25 de Abril… só com o 25 de Abril… depois do 25 de Abril… são expressões coloquiais quotidianas que se impuseram nos últimos 20 anos. A data de 25 de Abril de 1974 marca, pois, o séc. XX e divide a sociedade em antes e depois. Será isso uma revolução? É certamente uma era». 

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carvskis11Na historiografia do 25 de Abril são ainda dominantes as teses de que 1. A revolução apanhou de surpresa as diplomacias mundialmente dominantes, especialmente a Norte-Americana. 2. A intervenção dos Estados Unidos em todo o processo, particularmente no Verão Quente, e a sua influência no seu desfecho (25 de Novembro de 75) são de reduzida importância.

A obra Carlucci vs. Kissinger, patrocinada pelo Instituto Português de Relações Internacionais e pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, que o veterano Bernardino Gomes assina em co-autoria com Tiago Moreira de Sá, desmonta de uma vez por todas essa visão ingénua de uma revolução estritamente nacional, que se faz e desfaz nas barbas do gigante americano, sem que este levante um dedo… numa imaginosa reactualização de David contra Golias, ou numa mais moderna versão do famoso slogan small is beautiful

A partir de agora, sempre que se fale de intromissões e pressões estrangeiras na nossa revolução, ou de apoio norte-americano às forças democráticas portuguesas na transição para a democracia (e a opção por uma ou outra formulação não é, naturalmente, mera questão de semântica!) não se poderá mais argumentar com o estafado fantasma da teoria da conspiração…, o que significa que reflexões por muitos consideradas fantasiosas, como as de Varela Gomes (Revista História nº66, Abril de 1984, por exemplo) e outros, são hoje estudos credíveis, assim provando que também na história, como dizia Vergílio Ferreira, «um erro é uma verdade à espera de vez».

Contudo, entre tantas revelações surpreendentes, confesso que a maior surpresa para mim foi o modo natural e totalmente desinibido com que os autores relatam a intervenção americana em Portugal, como procedimento trivial, burocrático, de mera rotina… e que, sabe-se lá porquê, me fez presente a imagem de Carlucci, (afinal o verdadeiro herói desta história) num programa da RTP, em 1991, no qual, com visível bonomia e desprendimento, se prestou a falar das «brigas» daqueles bons velhos tempos….

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   Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

Terceiro post da série ABRIL [clicar no logotipo, no topo à direita, para aceder ao segundo] em que, a partir do registo mais generalista dos dois anteriores, se avança para uma reflexão específica sobre a nossa revolução, e do que a aproxima e afasta de outras experiências semelhantes.

 
O clássico dilema de encarar o fenómeno revolucionário como ruptura ou continuidade, reflecte-se necessariamente na historiografia nacional sobre o 25 de Abril de 74. É certo que não temos o nosso Michelet e o nosso Tocqueville mas, salvaguardando as inevitáveis distâncias, os modelos de análise representados por cada um deles, pelo seu carácter paradigmático, parecem-me extremamente úteis para clarificar as grandes opções dos nossos historiadores durante estes quase 35 anos. 

Começando pela tese da continuidade – entre nós frequentemente substituída por evolução -, ela trabalha essencialmente sobre o período marcelista, tentando ver nele os sinais de mudança que, após o interregno revolucionário, acabariam por florescer no regime democrático actual. Marcelo e a sua Ala Liberal teriam um projecto de reformas, que deveria não só assegurar as liberdades fundamentais, como permitir a negociação em posição de força da auto-determinação das chamadas províncias ultramarinas. Não fora a inépcia, o medo, o cansaço, o excesso de zelo, ou o mais que se queira, das forças de bloqueio de então, que abriram a porta à revolução, a famosa «evolução na continuidade» ter-nos-ia conduzido directamente ao que hoje temos, com a vantagem de evitarmos o caos revolucionário e os seus traumas. 

De aqui à tese de que com ou sem o 25 de Abril estaríamos onde estamos, ou ainda melhor, vai um passo, o mesmo que encara a revolução como um parêntesis dispensável ou um irritante contratempo. 

O longo processo politico legislativo contra-revolucionário que passa pela liquidação de uma parte essencial do património de conquistas sociais, culturais e políticas iniciadas em 74 e consagradas constitucionalmente em 76, pode até justificar este revisionismo histórico, espécie de causa e consequência da mais pura realpolitik, mas não o legitima no plano do rigor histórico de que se reclama. E para os mais up to date pode até ser um apetecível filão para a história virtual ou contra-factual, tão em moda: entre tantos ses possíveis pode sempre encontrar-se um que suavize os reais contornos do colapso marcelista e o faça regressar como uma espécie de astúcia da história… 

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Quando a conheci, há poucos anos, a primeira e maior de uma longa lista de surpresas que colhi do seu contacto mais íntimo, foi a extrema jovialidade, a gargalhada fácil, tanto mais desconcertantes quanto vindas de quem esperava sinais contrários, marcas visíveis de um passado de luta, de sacrifícios e privações inimagináveis. 

Um optimismo assim, uma tal resistência aos duros golpes que a vida não lhe poupou, tinham certamente um segredo. Foi esse segredo que persegui ao longo das muitas horas de conversa que resultaram num dos mais ricos e surpreendentes documento de História Oral que até hoje realizei. A entrevista tinha um guião, mas a breve trecho ele foi abandonado, quando e porque percebi que a vida desta mulher não era um fluir contínuo cronologicamente arrumado, mas um poderoso caudal que nada nem ninguém conseguiu deter ou sequer desviar dos trilhos traçados por uma natureza tão indomável quanto a selva africana onde nasceu em 1918. A visão dos negros algemados que, em regime de escravatura, trabalhavam nas minas de ouro, em contraste com a extrema beleza dos cânticos que entoavam, revelou-lhe que, apesar de criança,  «já não aceitava a maldade dos homens».   

Chegada a Portugal, para cursar Engenharia no IIL, abraçou cedo a causa da luta anti-fascista, integrando-se nos movimentos estudantis de oposição, e logo a seguir adere em 1942 ao PCP

Nos primeiros anos de militância deu largas a todo o entusiasmo e energia contagiante de quem acreditava poder mudar o mundo. Dinamizou um grupo muito alargado de jovens (comunistas e não comunistas), através da criação de uma biblioteca, da promoção de cursos de alfabetização para operários, de peditórios e festas de solidariedade para os mais carenciados. 

A esperança, a alegria e a ingenuidade desse tempo exaltante, reserva para outros mais sombrios, cedo abriram caminho à entrada na idade adulta dos afectos e dos combates. O casamento com José Magro, destacado quadro comunista, muito mais do que um compromisso pessoal, representou um compromisso com o colectivo partidário, a um nível de exigência e perigosidade que longe de a fazerem vacilar, mais fortaleceram as suas opções, por mais sofrimento pessoal que lhe exigissem. 
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Rua António Maria Cardoso, Lisboa
Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

 
Continuo com este post a falar de Abril. Tentando, é certo, explicá-lo como acontecimento histórico passado, mas sobretudo para compreender a sua actualidade e, porque não, recuperar um pouco da sua excepcional força simbólica e da sua energia mobilizadora. Porque, como dizia Maiakovski, «é bom começar a escrever versos sobre o 1º de Maio em Dezembro, quando já se começa a ter uma vontade louca desse Maio». 

 
Nenhuma revolução é completa e total, ou, numa formulação mais drástica, todas as revoluções falham, porque as realidades sociais a que dão origem são um produto híbrido de rupturas e continuidades.  É pois uma questão clássica nos estudos do fenómeno revolucionário em geral, e obviamente do nosso em particular, saber o que muda com a revolução e o que permanece. F. Furet traduz esse dilema, a que nenhum historiador pode fugir, através da oposição révolution modalité (a revolução no seu processo interno) e révolution contenu (a revolução no seu balanço externo). 

O primeiro conceito fala da revolução como ruptura radical com uma situação anterior e instauração de uma totalmente nova. Sob o modelo da identidade e da transparência, conta-se a experiência directa dos revolucionários, através de uma história que vive da vertigem, da pulsão íntima dos acontecimentos encadeados por uma dinâmica própria, uma história sem conceitos, muito diferente da exigência racional que os selecciona e organiza, quando analisados do exterior. Uma dinâmica que está longe de ser linear, pois que, tendo origem num encontro de vontades dos sujeitos, os transcende e ultrapassa a breve texto, fazendo deles intérpretes ou mediadores de grandes desígnios históricos, mas também vítimas directas das ondas de choque que o terramoto revolucionário sempre desencadeia, e que se traduz na consagrada máxima de que as revoluções devoram sempre os seus filhos.

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