Extracto da comunicação apresentada no Congresso «Guerra colonial e descolonização», Lisboa, 15 e 16 de Abril, Organização da Assoc. 25 de Abril, IHC da Univ. Nova de Lisboa e ISCTE.

Diz-se que os povos felizes não têm história. É talvez porque nos queremos imaginar um povo feliz, que lidamos mal com a história, o que faz de nós uma sociedade distraída e de curta memória. Sobretudo para os episódios mais traumáticos, como aquele que Eduardo Lourenço chamou a ‘mais refinada e incomunicável das nossas tragédias actuais: a guerra colonial’.

O recalcamento é a resposta directa a esta incomunicabilidade, mas apresenta-se em graus e formas bem diversos, desde a pura negação da tragédia, até à dispersão do seu sentido mais fundo e real, em mil pequenos sentidos reconfiguradores dessa dura realidade.

Nesse contexto se produziu todo um complexo glossário feito de expressões oblíquas, enredadas de subtilezas, metáforas, ambiguidades, analogias, e até estranhos jogos de ironia e de sarcasmo que, impostas pela Censura no próprio decurso do conflito, persistem como precioso mas contraditório reservatório de experiências vividas e, como tal, marca identitária de sobrevivência individual e grupal. Veja-se, por exemplo, os regulares encontros de batalhões e companhias que cumprem um estranho ritual de ‘catarse em grupo’, escape para muitos silêncios, que só ‘quem lá esteve’ pode entender. O que significa que, no limite, não falamos da mesma coisa quando falamos de Guerra Colonial.

A começar pelo regime político que a impôs e que sempre se recusou a nomeá-la assim, mas antes Guerra do Ultramar. Para ele não havia guerra, mas uma revolta cruel, bárbara e ilegítima, a exigir uma resposta exemplar. Os militares, portanto, não iam para uma guerra, mas em ‘missão de soberania’, e combatiam não movimentos nacionalistas de libertação, mas bandidos desprezíveis ou terroristas.

Também no interior do universo militar surgiram hábeis e criativas operações semânticas para não chamar as coisas pelos nomes. Os mobilizados que chegavam de novo eram, por exemplo, maçaricos para Angola, os checa-checa para Moçambique e os piriquitos para a Guiné (‘piriquito é pior do que terrorista’, dizia-se em jeito de boas vindas…). Os oficiais do Estado-Maior eram oficiais de alcatifa ou ar condicionado, a metralhadora do inimigo era a costureirinha… e por aí fora… Guerra a sério, não havia, pois o significado, paradoxalmente, era deslocado do seu verdadeiro contexto, para zonas periféricas. Havia, assim, pequenas guerras: nas repartições, nas messes, nos hospitais, nas lojas e mesmo nos espaços de convívio públicos ou privados, onde o apelo à normalidade mais se fazia sentir. Aí sim, fazia-se a guerra, pequena, banalizada, e até parodiada.

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Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me

sentir como se tivesse oitocentos

Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater

os infiéis ao norte de África

só porque não podia combater a doença que lhe atacava

os órgãos genitais

e nunca mais voltasse

Quase chego a pensar que é tudo mentira

Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney

E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal

Não imaginas o tesão que sinto

Quando ouço o hino nacional

(que os meus egrégios avós me perdoem)

Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo

Anda na consulta externa do Júlio de Matos

Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar

àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera

um futuro de rosas

Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos

a ver se contraía a febre do império

mas a única coisa que consegui apanhar

foi um resfriado

Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar

uma pétala que fosse

das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal

Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to

Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir

Portugal

Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém

Sabes

Estou loucamente apaixonado por ti

Pergunto a mim mesmo

Como me pude apaixonar por um velho decrépito

e idiota como tu

mas que tem o coração doce, ainda mais doce

que os pasteis de Tentúgal

e o corpo cheio de pontos negros

para poder espremer à minha vontade

Portugal estás a ouvir-me?

Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete

Salazar estava no poder

nada de ressentimentos

O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram

nada de ressentimentos

um dia bebi vinagre

nada de ressentimentos

Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas

a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional

Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho

Que Camões lá deixou

Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?

São castanhos como os da minha mãe

Portugal

gostava de te beijar muito apaixonadamente

na boca

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nú, Ed Fenda, 1991

«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como?

José Cardoso Pires, E Agora, José? (p. 19-21)

 
O discurso sobre a identidade nacional acompanha-nos como uma sombra fiel, às vezes (tantas!) como uma assombração.

O tema sempre apaixonou o português mas em momentos de celebração, como este dos 100 anos da República, ganha inevitavelmente outra importância tomando de assalto a agenda política e mediática, normalmente saturadas de clichés e lugares comuns que em vez de conhecimento promovem um reiterado auto-desconhecimento.

Segundo esses lugares comuns sofremos de uma excessiva e patológica centragem sobre nós mesmos, mitificamos em excesso o passado e, consequentemente, desprezamos o presente, vivemos mais para os devaneios poéticos do que para a acção concreta, o que faz de nós um povo passivo e expectante, narcísico, megalómano, irrealista, pouco crente nas reais capacidades e muito mais confiante nos insondáveis desígnios da sorte, nos golpes imprevistos do destino.

Todos conhecemos esta vulgata sebastianista, divulgada por especialistas da ‘coisa vária’ de que encontramos ecos constantes numa cultura de massas cada vez mais ao serviço de um senso comum de que ela é, simultaneamente produtora e produto. Ou mesmo na dispersa conversa de café ou das ondas internéticas: doce e amarga, terna e corrosiva, arrogante e humilde, generosa e mesquinha. Generalista o suficiente para nele caber sempre mais uma nota de originalidade, sem que contudo se comprometa a possibilidade de o mesmo se poder dizer a respeito de qualquer outro povo ou grupo social. Suficientemente ambíguo a ponto de as maiores virtudes se transmutarem nos maiores defeitos (e vice-versa) em função do seu potencial mobilizador na conjuntura social ou política do momento.

Sabemos como as comemorações – todas elas, e estas não serão excepção – se prestam a esses aproveitamentos, e o sucesso garantido dessas versões identitárias muitas vezes de gosto popular, mas outras tantas com o selo de qualidade cultural servido por pensadores da ‘alma nacional’, da ‘essência da Nação’, da originalidade da maneira de ser português, no limite do milagre da nossa sobrevivência como povo… para lá dos acidentes de percurso.

Mas elas podem também ser oportunidades únicas para questionar essas extrapolações idealistas que nos amarram a modelos intemporais, começando por fazer as perguntas certas: Mas afinal de que falamos quando falamos de identidade nacional? Não será certamente a mesma coisa para as maiorias sociológicas ou para as minorias intelectuais, nas suas variantes mais ou menos activas, e num espectro tão amplo que vai do vanguardismo ao conservadorismo mais retrógrado. E afinal onde se encontra o ‘ser português’? nos jornais? nos compêndios de história? no cinema? na música? na literatura?

As perspectivas abertas por um lado pela nova sociologia (não a dos inquéritos do Eurobarómetro que produzem resultados para todos os gostos…) e por outro, por um renovado interesse pelos estudos culturais constituem dois grandes filões desenvolvidos a seguir à Revolução de Abril os quais, salvaguardando todas as diferenças, se reconhecem num persistente esforço de avançar num auto-conhecimento ‘menos mistificador mas mais proporcionado, menos celebratório mas mais eficaz, menos glorioso mas mais emancipador’, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos.

Se é verdade que só comemoramos o presente, ou o que do passado interessa ao presente, o que de mais radicalmente actual encerra o ideário republicano é esse programa integral de emancipação só possível através do conhecimento. Ou da instrução, como então se dizia. Cem anos passados ele aí está como memória e projecto de uma sociedade que ainda não converteu o povoléu ou a populaça em Povo, o Zé Povinho em cidadão, as razões de estado em bem comum, a República em res pública, ou seja, de todos e (isto não é uma concessão ao politicamente correcto…) de todas. De uma sociedade que tarda em contrariar a sentença de Miguel Torga: ‘em Portugal o comum não é de nenhum!’

 
«O sol da tarde resplandece no Castelo impassível, cor de oca e de ferrugem, onde flutua sempre uma bandeira preguiçosa. Olhando de fora esta multidão coloidal que adere às esquinas e às fachadas, num calmo exterior de alameda provinciana, ninguém diria que por baixo disto corre um tumulto de lava que pode arrastar-nos e subverter-nos a todos. Uma tropa de ingleses carregados de sacos de golfe passa a caminho do Palace, e olha com espanto esta gente morena e apoquentada que parece tomar a vida a sério ou esperar sempre um milagre que a salve, outras Índias, Brasis, um novo Dom Sebastião ou um terramoto.

A atmosfera, com efeito, não é a dos bons tempos. Não há os gritos, os vivas e morras, a esperança, os pugilatos de há poucos anos. Não há? Isso é o que nós veremos. Há porém expectativa, ansiedade. Não se fala de bombas, afinal o operariado está quieto. Chega a ser suspeito um silêncio assim. ‘Agora, a Campo de Ourique houve coisa!’ Crescem de novo orelhas a escutar: ‘Um grupo de populares manifestou à porta do Batalhão Ferroviário!’ Mas quem são eles, que querem eles?

No terraço dum café-bilhar sujeitos pacatos esforçam-se por consumir em paz a primeira limonada, respirar as brisas da Primavera incipiente, olhando de cima da enxurrada. Outros passam cá em baixo, magistrais, livros debaixo do braço, acenando a cabeça, discutindo o seu vient-de-paraître: são letrados, intelectuais, sábios da letra de forma, alheios ao século, interessados no umbigo do Universo intemporal. O seu reino não é deste mundo.

(…) Há na imensa praça um perpétuo vaivém, os grupos fazem-se e desfazem-se, reconstituem-se mais longe, numa agitação de folhas secas ao vento, incompreensíveis para o leigo e o forasteiro. ‘Mas esperava-se que o governo caísse!’ (Não caiu.) ‘Isto só vai com um milagre!’ murmurou um descrente. Como se nada mais houvesse neste mundo, aquém ou além-fronteiras, só se fala de crise, dissolução, défice, poder, recomposição. E a pergunta elástica lá vai saltando de boca em boca: ‘Ukèkiá? Kèkiá?’»

 
José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé, Vol.I, ed. Estampa, 1984

 
«Se alguém num campo de batalha levantasse o grito inconsiderado: Salve-se quem puder! era imediatamente derrubado como um miserável, se porventura se atalhasse o efeito contagioso dessa alucinação de covardia. E contudo é frequente o ouvir-se todos os dias no meio do conflito dos interesses modernos, das novas ideias, e de um outro estado da consciência humana que se afirma esta terrível frase – Fujam da Política. Aqui o egoísmo é um resultado da ininteligência, porque se confunde o facto natural e legítimo de todo o cidadão tomar conhecimento do modo como se exercem os serviços públicos, para os quais paga, e que lhe servem de garantia individual, com esse desenfreamento das ambições partidárias que conspiram e deblateram para assaltarem o poder. O fugir da política, deixando ao capricho da autoridade o exercer o poder segundo o seu interesse partidário, é uma covardia análoga ao Salve-se quem puder, quando da concorrência de todas as forças é que provém a mais segura defesa. O que entregar os seus bens e a própria responsabilidade jurídica a um procurador, sem lhe tomar contas, sem inspeccionar os seus actos, vai fatalmente cair na miséria e com certeza na criminalidade; isto acontece na sociedade, em que os governos separam sistematicamente o cidadão do conhecimento da gerência pública, viciando-lhes as magistraturas electivas com a intervenção do arbítrio administrativo, centralizando todas as energias locais em um poder que deriva a sua acção da atrasada razão de estado, pervertendo-lhe a manifestação da vontade nacional por meio das candidaturas oficiais.»

Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, col. Documenta Histórica, Ed Vega, 1983.

 
9 de Outubro de 1910

Oh, meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem as escadas dos ministérios para aderirem à República!
É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o Poder. Os tipos não importam – o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! Possuir o dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!…Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro, quantos perguntaram, ansiosos: quem vai vencer? Onde é o meu lugar? …Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!… Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existirem e que levantam a cabeça!…
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma…
E o desfile segue – o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos, por fora e por dentro…

Raul Brandão, Memórias (13º Volume)

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