Em 2003, o Estádio Chile foi rebaptizado com o nome de “Estádio Victor Jara”. A razão é simples: a 16 de Setembro de 1973, o cantor chileno Victor Jara fora barbaramente assassinado nesse local, onde as tropas afectas ao general Augusto Pinochet mantinham cativas cerca de 5.000 pessoas.
Dias antes, o assalto ao Palácio La Moneda havia terminado com o governo socialista de Salvador Allende. Sabendo da notícia, Victor Jara dirigira-se à Universidade Técnica do Chile, na qual trabalhava. Após uma madrugada de confrontos, os militares invadem as instalações universitárias e prendem os manifestantes, encaminhando-os depois para o Estádio. Reconhecido por um oficial, Jara é violentamente espancado a seu mando. Depois de algumas horas de tortura, e com as mãos amarradas a arame farpado, é atirado para um canto do Estádio, onde permanecerá – ferido, sem água e sem comida – até à tarde do dia seguinte. Acabará por ser arrastado para o centro do recinto, ordenando o oficial que lhe tragam uma guitarra. Enquanto era instado a cantar, soldados golpeiaram-lhe as mãos até se tornarem irreconhecíveis. Foi a última vez que foi visto com vida. Três dias depois o seu corpo foi encontrado junto a um cemitério.
Em 2006, um dos oficiais envolvido no sádico assassinato de Victor Jara – conhecido como “El Principe” – já havia sido “funado” pelo movimento que se dedica a lutar contra a impunidade no Chile de hoje.* Há alguns meses atrás, em Maio de 2009, começara finalmente a investigação sobre os assassinos do cantor, e que prossegue sem grandes resultados. Soube-se agora que no próximo dia 5 de Dezembro, 36 anos depois da tragédia, os familiares e o Chile irão fazer a Victor Jara o funeral que faltava.
*Aqui, em três partes, o documentário sobre “La Funa de Victor Jara” [1 - 2 - 3]
** Texto publicado inicial no blogue Minoria Relativa




Memória, História e Justiça é o título do colóquio internacional que o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra levará a cabo nesta cidade nos próximos dias 15 e 16 de Setembro. As questões relativas à justiça de transição, particularmente relevantes no contexto de países que passaram por regimes ditatoriais, bem como as dinâmicas que se estabelecem entre violência e memória, serão abordadas com particular destaque. Mais informações sobre este evento podem-se encontrar 

Há precisamente 40 anos, Alberto Martins, então presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), levantou-se para pedir a palavra em nome dos estudantes na cerimónia de inauguração do Departamento de Matemática. O gesto havia sido previamente combinado nas cúpulas dirigentes, mas o impacto que causou foi imprevisto. Na mesa, Américo Tomás dá a palavra, balbuciante, a Rui Sanches, ministro das Obras Públicas, acabando por encerrar a sessão sem a conceder aos estudantes. À saída, a comitiva é vaiada pela multidão de estudantes que decide fazer a sua própria inauguração após a retirada das autoridades. Havia começado a «crise».

É um lugar-comum: só se vê aquilo que a teoria deixa ver. Durante os anos sessenta, os marxistas de pendor mais «clássico», agarrados às ferramentas conceptuais do materialismo dialéctico, crentes no finalismo histórico e no poder messiânico da classe operária, e preocupados, por isso, em predizer uma revolução que não acontecia, impediam-se de compreender uma outra revolução que estava a acontecer, e que abarcava as condições materiais, os estilos de vida, as relações familiares e as liberdades individuais. Numa obra monumental sobre o assunto – The Sixties. Cultural Revolution in Britain, France, Italy and United States – Arthur Marwick demonstrou precisamente como os «longos anos sessenta» – período que o historiador britânico coloca entre a segunda metade da década de cinquenta e a primeira metade da década de setenta – originaram uma «revolução cultural» que, apesar de não se ter revestido das características típicas de uma revolução política e económica, não deixou de modificar com profundidade a paisagem social. As propostas de alargamento do «político» a domínios até então insuspeitos, dificilmente encaixáveis nos esquemas teóricos do referido marxismo, acentuavam essa incapacidade de valorizar as mutações que iam ocorrendo em redor.
Comunismo e Nacionalismo em Portugal abre com uma história curiosa contada por André Malraux: durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), nas proximidades de Toledo, abate-se sob as tropas republicanas mais um punhado de bombas do céu que, ao contrário de tantas outras, desta vez não explodem. Surpreendidos, os republicanos descobrem-lhes no dorso uma mensagem em português – «camarada, esta bomba não explodirá» – indiciando a sabotagem dos engenhos algures na passagem de Portugal para Espanha. Como nota José Neves, este exemplo permite dar conta da «tendência internacionalista que trespassou fronteiras estatais e identidades nacionais sem revelar grande consideração por qualquer tipo de ideologia nacionalista». O livro em causa, no entanto, analisa precisamente o reverso dessa disposição: o modo como o Partido Comunista Português, sobretudo a partir da «reorganização» empreendida nos anos 40, forjou um «nacionalismo comunista» oposto e em competição com o nacionalismo do Estado Novo.



Quem, de algum modo, conhece a história dos conflitos ideológicos no campo da esquerda durante as décadas de sessenta e setenta, identifica o papel fundamental que desempenhou o chamado «maoísmo» na construção de um discurso simultaneamente de proximidade e ruptura com as práticas dos partidos comunistas tradicionais, bem como a sua importância na politização de algumas franjas da sociedade, com intensa expressão nos territórios estudantis. Em O um dividiu-se em dois, José Pacheco Pereira (JPP) procede à revisão atenta do conflito sino-soviético, anotando a constituição, um pouco por todo o mundo, de estruturas autónomas alinhadas com as teses de Pequim. A genealogia ideológica da inaugural manifestação portuguesa desse fenómeno – a FAP/CMLP, criada em 1964 – é também objecto de tratamento neste volume, que é apresentado como o primeiro de uma série dedicada a diferentes aspectos dos movimentos radicais de esquerda desses anos.






