
Vivemos um tempo paradoxal, em que a generalizada amnésia da sociedade civil convive com uma verdadeira obsessão pelo passado. Paradoxo apenas aparente, dado que esta operação sistemática de recuperação do passado se faz justamente à custa do apagamento de memórias conflituantes ou contraditórias. Impõe-se assim uma memória colectiva de que o florescente fenómeno do comemorativismo é a mais viva e espectacular expressão.
Como era de prever, entre nós essa onda comemorativista alimenta-se, ontem como hoje, do inesgotável leit-motiv dos Descobrimentos Portugueses. Também aqui o 25 de Abril pouco pôde contra a sobrevivência da velha mitologia descobridora e conquistadora, mesmo se revista e reciclada de acordo com a onda pós-moderna, onde queremos mergulhar, passando ao largo da própria modernidade. Na verdade, e pensando apenas nas grandes iniciativas de impacto nacional (e mesmo internacional), uma inquietante linha de continuidade une a Grande Exposição do Mundo Português (1940) à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos (1986-2002).
Entre elas, porventura não apenas em termos cronológicos, situa-se a Expo98 que configura, quanto a mim, um verdadeiro case study da incapacidade do regime democrático em construir uma imagem em tudo oposta à devoradora imagem da velha nação imperial. Não esqueçamos que, ao mesmo tempo que comemorava os 25 anos do 25 de Abril e se apresentava como a mais ambiciosa comemoração do próprio regime democrático, a Expo provocou inevitáveis paralelismos com outras manifestações do passado não democrático – mais precisamente a Grande Exposição do Mundo Português – com as óbvias diferenças que os novos meios tecnológicos permitiram, exemplarmente tipificadas no emblemático Pavilhão da Realidade Virtual, onde as viagens se faziam em frente a um computador, e os Lusíadas se liam do alto de uma torre panorâmica, com base em fantásticos meios audiovisuais. Revolução sim, mas apenas tecnológica…
Porém, tudo se complicou, quando a Expo98 se ultrapassou como Exposição Universal que era, para se assumir como comemoração política por excelência. Isto é, quando não podendo fugir à comparação com a sua antecessora, a Expo reivindica uma outra diferença essencial: é que ela comemora e consagra o regime democrático, ao contrário da Exposição do Mundo Português que consagra justamente o regime ditatorial. Ou seja: que ela se abre ao Mundo, ecumenicamente diluído nas águas de todos os oceanos, enquanto esta se refugiou no passado como uma espécie de Arca de Noé. E aí temos toda a ambiguidade da temática dos Oceanos, do Encontro de Culturas, do Portugal pioneiro da globalização… grandes metáforas para nomear a epopeia imperialista e colonialista. Temas em total sintonia com outros que vieram depois, como a celebração dos 500 anos da descoberta do Brasil, substituída para consumo interno por achamento. Uma actualização semântica, a esconder velhos conteúdos.
Mas mais se complica ainda, quando se reivindica para essa clara operação político/ideológica a inquietante unanimidade com que se quis impor. Recorde-se a gigantesca máquina promocional, o total envolvimento dos meios de comunicação, das escolas e outras instituições oficiais, a atitude de censura e até de condenação pública de todos quantos tiveram a ousadia de discordar desse mega-projecto em nome de outras prioridades nacionais.
Tal unanimidade, se não se discute por motivos óbvios em 1940, já estranha que se não discuta em 1998. Ao proclamar a Expo como consagração do regime democrático, o Estado fez do consenso um valor democrático por excelência, quando na verdade o não é. Como se dizia numa das poucas publicações críticas da iniciativa: «a ideologia do consenso é, no essencial, anti-democrática. Democrático é o conflito de interesses e valores, a obtenção de maiorias e os direitos das minorias. Da Expo, que não constou do programa de nenhum partido, e nunca foi sujeita a sufrágio, o menos que se pode dizer é que é tudo menos consensual».
Neste contexto, a Expo98 pode traduzir toda a ambiguidade do fenómeno do comemorativismo, e considerar-se até uma gigantesca mistificação. Oscilando entre o formato de uma festa do poder, uma estonteante diversão para súbditos embasbacados com os prodígios tecnológicos e o projecto de uma cidade ideal, perfeita, ordenada, acolhedora, espécie de falanstério finessecular, ela cedeu à perversa tentação de comemorar a Democracia sob o modelo anti-democrático do consenso. E porventura deu mais um passo no sentido de fazer dos portugueses súbditos embasbacados e satisfeitos, em vez de cidadãos responsáveis e esclarecidos. Uma ideia de cidadania e de política prisioneira do passado, num cenário vanguardista. Uma noite de bebedeira de orgulho e de auto-estima nacional que no dia seguinte é já uma «saudade»…
Num dos muitos sites dedicados ao evento (reactivados oportunamente pela passagem dos seus 10 anos) pode ler-se: «Só no último dia da exposição visitaram o recinto 200 mil pessoas. Foram estes 200 mil que no último espectáculo nocturno (Acqua Matrix) da exposição que marcou o seu encerramento, cantaram a plenos pulmões um hino nacional emocionado. A palavra ‘Portugal’ foi gritada com orgulho e em uníssono. O feito só voltou a acontecer seis anos depois, durante o Europeu de Futebol (Euro 2004)».
Pelo andar das coisas lá teremos que esperar por 2018, para viver idênticas emoções e rezar para que dê certa a Candidatura Ibérica ao Mundial de Futebol. É certo que já não será só uma festa do orgulho luso, mas por uma vez tem que acabar o atávico fantasma do anti-iberismo… E nada melhor do que o futebol para o conseguir. O futebol e, claro, o TGV…
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 10:10:28
Na verdade tem havido uma recorrente ligação temática aos Descobrimentos e ao Império; recordemo-nos, por exemplo, de outos eventos menos populares como a “17ª Exposição da Cultura” ou a recente “Encompassing the Globe”. Mas pergunto-me se, na população em geral, alguém deu por essa ligação quando visitou a “Expo98″, a maioria mais preocupada com a festa ou com a visita aos pavilhões nacionais dos diversos países do que aos pavilhões temáticos (até pela morosidade das visitas).
E, mal ou bem, o resultado posterior da “Expo98″ foi um marcante rearranjo do espaço urbano.
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 10:10:55
o que é que isto quer dizer?
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 11:10:02
Bem, em França estamos mais virados para os “9″… 1779 / 1989… 1969… (ha um intruso, mas importantissimo: 1968) … hum, e jà agora, pelo mundo fora… o primeiro passo na lua, Woodstock em 1969 também… a queda do muro de Berlim em 1989… etc, etc ;)
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 12:10:58
Não sei se compreendo a natureza deste texto. A História da Expansão e dos Descobrimentos é bem mais do que a História do Imperialismo (ainda bem não?). A expansão portuguesa no mundo tem um alcance que não se encerra ou reduz numa perspectiva de discurso. Denunciar os crimes ou as barbaridades cometidas em qualquer momento não cria uma realidade ou factos alternativos aos 500 anos.
As exposições nmundias são discursos nacionais. Falar nos oceanos e escolher a viagem de Vasco da Gama para celebrar os 500 anos da História Moderna (quando a Europa abandona as suas fronteiras)parece-me o tema mais indicado para um discurso desta natureza. (Pode n gostar dos discursos nacionais, eu também não).
Falar em democracia e no aprofundamento da democracia 30 anos após o 25 de Abril na primeira Exposição Mundial que re realiza no país tb me parece acertado. Afinal estamos a falar de uma Exposição em que estão presentes todos os países do mundo, cada um com seu regime polític. Acha mal que o país de acolhimento apresente o regime que escolheu para si? Acho oportuno e acertado.
Posso concordar consigo em que este regime não é afinal democrático ou fica longe da democracia que desejaríamos.Mas…queria que um regime eleito neste sistema elegesse que tema celebrativo/comemorativo da sua existência?
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 01:10:17
O império ainda está na cabeça de muitos de nós…. mesmo que, agora que já não há “terra”, seja só um império “pensado” a partir da “nossa especial aptidão” para dissertar como sulcar oceanos! Como no tempo dos impérios das Índias, do Brasil ou de África a “coisa”, suportada por uma verdade nunca verificada mais sempre badalada – o consenso nacional, quer-se transversal aos grupos sociais, às correntes “filosóficas” e às gerações. Nisto, descontando os pormenores, estamos muito bem acompanhados, por exemplo, por franceses, ingleses e, estes ainda com o seu diazito da raça, espanhóis. Está decretado: em Portugal no dia 10 de Junho passa-se também a comemorar o oceano, o oceano português porque parece que já há para ai outro dia dos oceanos ou do mar! Vem substituir a palavra raça do antigamente!
Como muito bem nota MMC, com a Expo 98 pelo meio ‘uma inquietante linha de continuidade une a Grande Exposição do Mundo Português (1940) à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos (1986-2002). “Grande Exposição do Mundo Português (1940) à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos (1986-2002)’
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 02:10:13
Para além de algumas questões de fundo que este post levanta, e que ainda poderei vir a abordar, parece-me que este tipo de eventos teve a sua época e já não cumpre as mesmas funções.
Era muito nova, e tinha acabado de chegar como estudante à Bélgica, quando abriu a Exposição de Bruxelas (a do Atomium), em 1958. Foi uma das minhas primeiras grandes janelas para o mundo, ida deste Portugal aferrolhado. Nem sei quantas tardes de fins-de-semana passei, de pavilhão em pavilhão, recolhendo quilos de prospectos que, à noite, lia e sublinhava. Pode parecer hoje infantil a impressão que era ver estátuas de Lenine com três metros ou simpáticas japonesas com ar de gueixas a explicar histórias do seu país, mas era uma novidade – ter aquilo ali, a vivo e a cores.
Mas hoje? Com todos os meios tecnológicos e com tudo o que nos entra em casa pela televisão? Porquê e para quê?
Em 2005, estive numa outra exposição em Aichi, no Japão, e detestei. As barracas de quase todos os países eram mais ou menos miseráveis, o que era bom, dizem, era a feira de demonstrações tecnológicas em que os japoneses são exímios. Claro que gostava de ter visto a orquestra de robots que tocavam violino – mas teria de ficar na fila de espera até ao dia seguinte…
Quinta-feira, 22.Out.2009 at 02:10:29
Pois, eu como representante anonimo do “povo”, e não conseguindo mais que uma apreciação “superficial” do evento…(a anos luz da abordagem “psicanalitica” da Exposição)…tenho que lhe dizer o seguinte:
- Eu senti que aquilo , a “Expo 98″, foi de facto uma celebração…se não da democracia, foi de certeza da “Universalidade”, das “diferenças” que nos unem a todos sem fronteiras.
- Nunca até então, e depois de…até hoje, convivi com tantas pessoas (jovens e menos jovens) oriundas dos mais diversos paises e continentes.
- Aprendi muito, e vi muitas coisas que não imaginava…q que acreditando que estejam algures na NET, nunca as iria encontrar …. (aliás, como se procura algo que não sabemos que existe ?)
- Assisti a espetaculos e actuações culturais de pessoas, grupos, artistas, musicos, malabaristas, etc,etc! que de outra forma nunca estariam ao meu alcance…
- e muitas outras coisas que poderia enumerar …
MAS ACIMA DE TUDO:
- Partilhei e vivi momentos, estes sim plenamente “democraticos” na verdadeira e mais simples acepção da palavra, de PARTILHA e ALEGRIA e DESLUMBRAMENTO VIVIDO, por pessoas novas e velhas, brancas e pretas, loiras e morenas, solteiras e casadas, portuguesas e estrangeiras…
…Partilhei momentos e emoções sem fronteiras, sem interesses, sem limites…num “espaço temporal” que foi para mim unico !!!
Se era o que deveria ter sido ? se era um remake da “exposição universal” ? se deu prejuizo depois? se podia ser melhor ?
Naturalmente todos estes “Se” dão origem a muitos “posts”…
…no entanto, como membro do “povo anonimo” sinto-me mais rico, de espirito mais aberto, mais democrata após ter participado e vivido a Expo 98!
( …e acrescento até, que terá pouco ou nada a ver com “Euros2004″ e afins em 2018 !!! )
Sexta-feira, 23.Out.2009 at 02:10:57
Parabéns por este excelente ensaio. Bem escrito e muito lúcido relativamente a toda esta problemática do sub-consciente colectivo, do simbólico e dos modos e lugares onde se geram e onde medram os mitos de identificação nacional.
Eu senti isso logo que visitei a Expo’98, a que designei na altura um “belo corpo, mas sem Alma”.
Estamos ainda longe, muito longe de criar uma matriz cultural nacional de raiz verdadeiramente europeia e democrática, sobrevivendo confusamente nas bermas dos destroços ideológicos nacionalistas e dos posteriores voluntarismos progressistas, mas inconsequentes.
Para além deste atavismo, parece nem sequer sermos ainda capazes de aceder serenamente ao patamar da discussão livre, mas civilizada, desta problemática, como atestam as críticas parolas e precipitadas que se podem ler por aí, tanto mais significativas quanto provindas de supostas sumidades ao nível da História.
E quem diz desta problemática, diz da Bíblia, do iberismo, ou do TGV, temas que continuam apenas a concitar opiniões pouco mais válidas do que os designados “comentários de bancada”, mesmo quando provindo de personalidades com qualificações geralmente tidas por mais do que suficientes para exercer certo tipo de profissões, como por exemplo a de motorista de táxi, ou de manageiro em lagares de azeite…
Sexta-feira, 23.Out.2009 at 03:10:42
…E ilustra muito bem a incapacidade que temos de “de aceder serenamente ao patamar da discussão livre, mas civilizada”, exemplificando logo no último parágrafo com um subliminar insulto generalizado.
Sexta-feira, 23.Out.2009 at 04:10:35
Jorge Conceição, o exemplo do motorista de táxi ou do “perceber de lagares de azeite” não foi por mim aduzido como “insulto”, nem generalizado nem focalizado, muito menos subliminar (até porque ninguém se deve sentir ofendido por ser o que é, ou saber apenas o que sabe).
Admito que possa ter soado um pouco grosseira a minha referência final, mas apenas pretendia exemplificar um dos muitos vícios que, a meu ver, impedem uma maior elevação na generalidade das discussões em Portugal, em particular na “internet”, que é a incapacidade de ouvir os argumentos alheios sem fazer logo “a priori” uma desqualificação de quem argumenta pelo simples facto de não ter a nossa opinião.
Segunda-feira, 26.Out.2009 at 02:10:18
Louvo a coragem e lucidez da autora deste artigo, com o qual estou muito de acordo. É exemplar de sentido crítico, fazendo certamente bem a quem o lê sem preconceitos.