
O género biográfico está a conhecer entre nós um interesse surpreendente e tem despertado nos meios de comunicação social (imprensa sobretudo) um acolhimento particularmente carinhoso. É óbvio, para quem tenha um conhecimento mínimo do funcionamento do chamado quarto poder, que a relação copulativa deve substituir-se pela causal. Assim, a aceitação do público é grande porque é grande a divulgação mediática.
Neste círculo aparentemente aberto às necessidades e gostos de leitura, mas na verdade rigorosamente fechado nas quatro linhas do jogo do mercado, as editoras de sucesso têm que ter os seus olheiros (como no futebol), para sondar quais as tendências da estação (como na moda) e quais os criadores que melhor as podem concretizar. Vemos assim biografias para todos os gostos, saídas da pena de cultores das ciências humanas (para além da história, seu terreno tradicional), mas também de escritores em geral, jornalistas, ou mesmo pessoas sem qualquer experiência de escrita que, bem ou mal, os próprios ou alguém por eles, consideram ter um percurso digno de ser conhecido e divulgado.
Nesta variedade de oferta, é obvio o enorme desequilíbrio na qualidade do produto, porque os olheiros, sujeitos à pressão dos dirigentes contratadores, tanto recrutam na Liga de Honra, como visitam os campos de chão batido da Liga dos Últimos. No fundo eles sabem que, com a ajuda da publicidade em horário nobre, se podem transformar lances (de) duvidosos em magníficas jogadas de golo feito. Carolina Salgado, por exemplo, marcou bem, embora por falta de preparação não tenha aguentado o jogo todo. Porém o marchandise rendeu, o público comprou, como comprou Jardel, Mantorras, Cristiano Ronaldo (obviamente!…) e compra agora o inenarrável Octávio Machado…
E comprará tudo o que, aparentemente, nada tenha a ver com o desporto-rei - mas na verdade tem tudo, porque a metodologia de treino já impôs as suas regras ganhadoras no vasto e moderno estádio democrático.
Como exemplo, basta ver o catálogo de uma jovem editora de sucesso (segundo o seu site oficial vendeu no primeiro ano de existência 300.000 exemplares!): a Esfera dos Livros. Apostando forte na linha biográfica, publicou já um número muito significativo de títulos, que só a enorme abrangência do género permite chamar biografias. Assim, desde a excelente biografia com todas as letras de Humberto Delgado, de Frederico Delgado Rosa (só comparável ao trabalho de Pacheco Pereira sobre Cunhal), aos trabalhos académicos de um muito institucional (à beira de um curriculum oficial) Costa Gomes no Centro da Tempestade de Luís Nuno Rodrigues, ou de uma mais atrevida e espontânea Cecília Supico Pinto, o Rosto do Movimento Nacional Feminino de Sílvia Espírito Santo, a oferta é variada. Mas não fica por aqui. Alarga-se grandemente, passando pela apologético-panegírica «vie en rose» de Sócrates, O Menino de Oiro do PS de Eduarda Maio, pelas ternurentas memórias de Micas (ajudada por Joaquim Vieira) Os Meus 35 anos com Salazar, para só parar nos picantes Amores de Salazar, com direito a réplica em As Mulheres de Salazar, da incontornável Felícia Cabrita que assina ainda na mesma editora Pinto da Costa- Luzes e Sombras de um Dragão.
Ora bolas, lá estou eu a falar de futebol, quando o que queria mesmo era falar de biografias. E, se possível, de pessoas que mereçam ser biografadas.
Sábado, 06.Set.2008 at 10:09:51
Muito interesante, só pecando por ser pequeno, este post. Não poderia fazer uma extended version?
Quando comecei a estudar, há umas duas décadas, a biografia (e estou a falar mais especificamente no campo da História) era um género quase ostracizado. O que estava a dar eram as abordagens estruturais, as mentalidades, as sociedades no seu conjunto. Depois se percebeu de que um corpo não vive só de aortas, jugulares e carótidas, também precisa de vasos sanguíneos. E então, bang!, ei-la, a vaga. Hoje há biografias sobre toda a gente, mas a proliferação do género enferma de um equívoco, penso eu. Melhor, dois: 1. As pessoas compram a MINHA biografia porque EU vivi, estive lá, presenciei, portanto, é uma experiência directa que EU conto e que garanto que é verdade. Ora, isto é uma espécie de contaminação televisiva da percepção da realidade. Como o “é verdade, deu na televisão”, certo? Um pouco como se a realidade, ou tantas vezes um conjunto complexo de realidades, se resumisse ao que as pessoas vivem ou, pior, ao que uma única pessoa assiste, toma como verdadeiro e decide contar. 2. As pessoas compram a biografia DELE que eu escrevi porque a sua vida está cheia de peripécias, acompanhou os momentos decisivos A e B, dava um filme. Uma espécie de museu da história, o século X ou Y condensado na vida do personagem. Isto é um exercício de preguiça, por vezes perigoso: para que hei-de eu ler obras aborrecidas e cheias de conceitos e números se posso antes entusiasmar-me com o fresco vivido, cheio de tons e cores, deste tipo?
Faz-me lembrar, quando contactei com estas lides da História, várias pessoas, amigos, familiares (uma vez que eu já era um “especialista” e portanto já podia mandar sentenças) me virem falar do inevitável José Hermano Saraiva, com essa mesma ideia: “aquilo é que é História, ele é que fala das pessoas, do que elas sentiram e viveram, não é?”.
Desculpe-me a extensão deste comentário, mas os dedos vão saltitando e nem sempre me é fácil pará-los.
Domingo, 07.Set.2008 at 11:09:53
Não consegui alcançar o sentido do que me pareceu uma crítica implícita da excepcionalidade relativa da actual vaga da edição de biografias. Muito menos, em que medida é que a “mediatização” do género é responsável pela vaga. E fiquei cheio de dúvidas se o panorama de desproporção na qualidade e objectos das biografias publicadas é diferente do que acontece com outros géneros (literatura, por exemplo). A quem restam tantas dúvidas, só resta o recurso do pedido de esclarecimento. É o faço, aqui.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 09:09:10
Caro:
Deixe-me responder a cada uma das 3 interrogações que coloca.
1. Não percebo bem o que quer dizer com “alcançar o sentido”, desculpe. Não fiz crítica nenhuma (criticar uma vaga é, como há-de concordar, um exercício de utilidade e interesse discutíveis) à actual profusão de biografias. Penso que simplesmente que há boas e más mas que, dado a afluência, serão muitas as más e, provavelmente, menos as boas. Parece-me, sobretudo, que é um género muito atraente porque aparentemente fácil (afinal, trata-se de contar a vida de alguém), sedutoramente arrumada e perceptível (começar pelo princípio e acabar no fim, toda a gente entende isto), mas perigosamente falaciosa e falsamente sólida (cf. os 2 pontos que descrevo no comentário). Em bom português: é um género onde é fácil vender gato por lebre.
2. A “mediatização” do género é, possivelmente, algo responsável pela “vaga”. Mas a “vaga” também cresce muito pela mediatização de muita coisa. Mas a ideia que quis transmitir foi a de que uma biografia pode querer colar-se ao papel dos “media” e, assim, pretender ser tão rigorosa (“real”, “vivida”, em directo”) como aqueles presumem ser.
3. Quanto a outros géneros, ignoro. E mesmo neste, falo com conhecimento empírico e longe de exaustivo.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 11:09:53
Obrigado pelos esclarecimentos. Adicionalmente úteis na medida em que permitiu ficar a saber-se que Maria Manuela Cruzeiro utiliza o pseudónimo de Paulo Pinto quando responde a comentários que lhe são dirigidos.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 11:09:42
A M. Cruzeiro ainda não entrou neste «triálogo» porque tem estado ausente e sem acesso à net.
Mas estou mesmo curiosa em ler o que se seguirá!…
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 02:09:18
As minhas desculpas, é o malvado do meu ego adiposo que acha sempre que estão a falar com ele. Mas até que nem foi mau de todo, já fiz figuras bem mais tristes, em esplanadas ou outros locais públicos, por exemplo.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 03:09:15
A Manuela Cruzeiro acaba de me telefonar.
Pede para vos dizer que está algures no Portugal profundo, numa aldeia saída de «Aquele querido mês de Agosto» e que, provavelmente, só poderá responder-vos na 4ª feira.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 04:09:22
Bom, ela que não pense que um comentador farçola qualquer usurpou os seus direitos. Aguardaremos serenamente, pois, com votos de condução prudente pela Estrada da Beira.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 05:09:39
Lerei, com o gosto do costume, o que apraz dizer à cara MMC. Mas só na próxima semana, pois é a minha vez de ir até as redondezas do “aquele querido mês de agosto” (filme que quero ver ainda antes de ir), bem metidas na Serra do Açor, onde o telemóvel falha amiúde e net nem vê-la quanto mais ligá-la. Quanto ao “mal-entendido” do comentário-resposta, glória eterna ao sentido de humor e ao fair-play de Paulo Pinto (que muito terão desgostado a Joana, sempre a espreitar a oportunidade de um duelo para espevitar a modorra) aproveitando, pedindo desculpa pelo atraso, para o cumprimentar.
Segunda-feira, 08.Set.2008 at 06:09:20
Cumprimentos aceites. Agora escolhemos as armas?
Terça-feira, 09.Set.2008 at 10:09:32
«uma guerra civil não é uma guerra mas uma doença pois o inimigo está no interior de nós mesmos»
Qualquer guerra é uma doença porque se passa no interior da humanidade. Só é preciso cuidado no reconhecimento do vírus. Normalmente os media estão do lado deste.
Sexta-feira, 12.Set.2008 at 01:09:51
Regressada do Portugal Profundo,não pela sinuosa e estreita estada da Beira (Paulo Pinto) mas por um largo e moderno IP dos muitos que nos conduzem em linha recta à modernidade, confesso que fiquei surpreendida e divertida com os comentários que mereceu o meu ligeiro e provocador post sobre biografias. As questões levantadas são muitas e muito mais sérias do que me permitia a eficaz mas redutora metáfora futebolística! Culpa da comunicação social, João Tunes, e dos incontáveis e infindáveis programas sobre o assunto que acabam até por contagiar quem como eu não distingue um penalty de um canto!
Posto isto,desculpem-me os outros leitores, devo ao Paulo Pinto e ao João Tunes algumas palavras:
Ao primeiro agradeço as pertinentes e desafiadoras considerações e ainda o equívoco e delicado papel de alter-ego a que involuntariamente se prestou. Foi estranho ver-me atribuído o pesudónimo de P. Pinto (que nem conheço…mas tenho pena!) mas mais estranho ainda concordar tão pronta e espontaneamente com o que vi escrito em meu nome. Por isso, P. Pinto,nao me considero usurpada nos meus direitos, mas excelentemente representada.
O que não quer dizer que me considere dispensada de entrar no TRIÁLOGO, conforme solicitação expressa do João Tunes. A sua anunciada ausência deste espaço, vai dar-me tempo de recuperar a minha própria voz e encontrar o tom adequado a um debate que ele e o P. Pinto levaram para campos bem mais amplos do que os relvados artificiais que me serviram de inspiração. Aí nos encontraremos pois.