
Publicado originalmente em A Terceira Noite
Ao mesmo tempo que na generalidade do território espanhol, como consequência do combate que vem sendo travado à volta da recuperação e da revisão da memória histórica, desaparecem os últimos vestígios da presença de nomes de franquistas e de falangistas na toponímia e na designação de instituições públicas, em Caldas de Reis, província de Pontevedra, Galiza, encontra-se exposta uma polémica estátua-fonte de Francisco Franco Bahamonde – muito clássica, aliás, se não for vista como exercício de pastiche –, que vomita água com a qual os passantes vão matando a sede. Esta não resultou de qualquer homenagem pública, mas antes de uma encomenda municipal para um festival de arte. Levanta, ainda assim, algumas questões interessantes: permitirá ela uma evocação do Caudillo por la Gracia de Dios ou antes a dos espanhóis que o seu regime fez garrotar? irritará os seus partidários e divertirá os seus inimigos? apoiará um momento de subversão da estética oficial do franquismo? produzirá um efeito de sublimação ou de banalização da história recente? ajudará a esquecer ou a lembrar? As respostas serão múltiplas e nem sempre unívocas. No estado actual de perda rápida da memória colectiva e de uma cada vez mais veloz mutabilidade da vida dos signos, tendo porém a olhá-la como algo que emerge como uma peça de mobiliário urbano, ademais efémera, pela qual a maioria dos cidadãos – «ni contentos, ni descontentos», como já o afirmaram alguns – passará sem prestar grande atenção. Como por um trivial recipiente para o lixo público.
Domingo, 13.Jul.2008 at 11:07:16
Tento imaginar uma iniciativa semelhante com uma cabeça-bebedoiro de Salazar, algures em Portugal. Não é fácil, porque começo por pensar que talvez ninguém pusesse hoje em prática uma tal ideia – não sei se por falta de ousadia ou se por bom senso. Mas mesmo que acontecesse, seria vista como simples «peça de mobiliário urbano», mesmo que efémera, como referes? Não acredito. (Nem os telejornais deixariam…)
Além disso, devo estar a perder o sentido de humor nestes domínios, mas, tal como já o pensei em situações de certo modo similares, julgo que há memórias ainda suficientemente recentes e fortes para que com que elas não se brinque – nem a brincar (como será o caso em Caldas de Reis).
Domingo, 13.Jul.2008 at 11:07:26
Pode ser uma brincadeira do artista, claro. Diria antes que é uma tentativa de provocação, se é que ainda existe arte capaz de provocar. Mas não me parece que a sua inscrição no quotidiano de uma pequeníssima cidade funcione de forma sacralizadora para a memória de Franco. Pelo contrário. Os seus poucos adeptos sentir-se-ão ridicularizados. Aqueles que o lembram do lado da oposição poderão sentir, quanto muito, um arrepio ao olharem o vulto. A maioria, como parece ser o caso, passa e olha como muitos portugueses hoje olharam para a publicidade daquela colecção de brochuras, editada por uma revista semanal, na qual Salazar é representado como nas séries de retratos de Andy Warhol com a Marilyn ou o Mao: com uma indiferença quase total.
Imaginemos apenas a estátua de Santa Comba Dão com a cabeça reposta e a jorrar água pela boca. Quem se indignaria? O riso pode ser uma grande arma, como sabemos pelo menos desde o grande Aristófanes.
Segunda-feira, 14.Jul.2008 at 11:07:06
Pode ser brincadeira, provocação ou humor de artista, mas não é inocente. Franco era galego, não de Pontevedra mas de El Ferrol (de Pontevedra era o “nosso grande capitalista petrolífero” Bullosa que iniciou a sua fortuna a abastecer as tropas de Franco) e a Galiza foi dos primeiros territórios espanhóis dominados pelas forças franquistas (dito de outro modo, foi na Galiza que começaram a assassinar republicanos). O facto de, enquanto por toda a Espanha se despejam os símbolos da ditadura de Franco e do seu Chefe, ser na Galiza que se plantam novos elementos evocativos do Caudillo (mesmo permitindo várias leituras e induzindo atitudes contraditórias, incluindo a indiferença), certo é que este fontanário revivalista é um mau sinal, pelo menos quanto a gosto. Como já escrevi: “é um péssimo gosto de servilismo o que leva um paisano a receber na boca a cuspidela do ditador”.
Terça-feira, 15.Jul.2008 at 11:07:45
Isto levar-nos-ia a uma conversa difícil, por longa e necessariamente morosa, de manter neste espaço. E a qual, suspeito, iria repetir argumentos mil vezes invocados a propósito da relação entre arte e política ou sobre a dimensão subversiva do humor. Nestas coisas, costumo aceitar que cada um tenha a sua perspectiva, a qual respeito desde que ela não me impeça de ter a minha. O que não é o caso, obviamente.
Agora continuo a achar – embora não tenha visto a peça ‘in vivo’ – que, no contexto, este Franco-que-vomita funciona, para a maioria, como um instante de subversão do carácter sagrado que a figura, para alguns e na memória de muitos, ainda possa manter. Para mim funciona. E se a alguém com poder para tal resolvesse proibi-lo, eu, antifascista e antifranquista desde que me conheço, não me importaria de ser um dos primeiros a assinar um documento a protestar contra essa proibição. Não se trata da imagem sacra de um «santo», mas sim da sua inversão.
Terça-feira, 15.Jul.2008 at 12:07:06
Meu caro Rui, falei em gosto e não em proibir. Assim, a última parte do seu segundo parágrafo é um abuso de interpretação (se é que estava a responder ao meu comentário) em forma de lição de postura liberal. Claro que contra o “proibir”, estaria consigo na primeira linha da rejeição, eu que (como o manifestei em tempo) estive contra a balbúrdia da URAP contra o “museu de Santa Comba”. Mas, sem o proibir, nenhuma obra de arte ou candidata a isso, é monumento único à admiração. Pode-se gostar ou não gostar, ou ser-se indiferente. Eu achei de péssimo gosto, não a mobília urbana, mas o dos que vão beber da boca do ditador, sobretudo estando onde está, na Galiza. Foi isso, apenas isso.
Terça-feira, 15.Jul.2008 at 12:07:33
Eu percebi que foi isso, caro João Tunes. Só que parti do seu comentário para falar de uma forma aberta sobre eventuais apetites proibicionistas que nestas alturas sempre se levantam. Não foi apenas para lhe responder directamente, que fique claro. Se até já houve quem quisesse crucificar o Bruno Ganz por ter feito de Hitler n’«A Queda» de Oliver Hirschbiegel…
Terça-feira, 15.Jul.2008 at 03:07:17
Só volto aqui para registar a primeira mini-polémica (cheia de mesuras…) na Caixa de Comentários do CdM.
Sei que a do proibicionismo também não é certamente para mim e, por isso, desejo apenas que os galegos se divirtam e bebam o que quiserem, desde que não ponham aquela cabeçorra aqui por perto – sempre prefiro a águia do Glorioso e a estátua do Eusébio…