9 de Outubro de 1910

Oh, meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem as escadas dos ministérios para aderirem à República!
É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o Poder. Os tipos não importam – o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões de crise ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! Possuir o dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!…Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro, quantos perguntaram, ansiosos: quem vai vencer? Onde é o meu lugar? …Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!… Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existirem e que levantam a cabeça!…
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma…
E o desfile segue – o desfile dos tipos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos, por fora e por dentro…

Raul Brandão, Memórias (13º Volume)

Um texto de Jorge Martins (*)

 
DESLOCAÇÕES DOS RÉUS SABUGALENSES – A mobilidade dos judeus apanhados nas malhas da Inquisição constitui um precioso indicador para o conhecimento das teias genealógicas judaicas numa determinada região. Isso configura-se particularmente claro na região das Beiras.

 
Repare-se, que só estamos a analisar processos referentes ao concelho do Sabugal. Imagine-se o que seria se o fizéssemos para os restantes concelhos das Beiras.

Analisando a naturalidade dos réus que vieram morar para o concelho do Sabugal, verificamos que 22 (30%) não saíram do concelho, sendo originários das freguesias do Sabugal (11), do Soito (5), de Alfaiates (4), da Nave (1) e de Vilar Maior (1). De fora do concelho do Sabugal vieram residir 37 réus para o Sabugal, 12 para o Soito, 7 para Aldeia da Ponte e 5 para Alfaiates, perfazendo um total de 50. Ficámos também a saber que os locais mais frequentes dos réus que vieram, de outros concelhos, residir para as freguesias do Sabugal foram os seguintes: 8 da Guarda vieram viver para o Sabugal e 2 para o Soito; 7 de Almeida para o Sabugal; 5 de Pinhel para o Soito e 2 para o Sabugal e 3 de Idanha-a-Nova para o Sabugal.

Quanto aos locais para onde foram residir os réus naturais do concelho do Sabugal, constatamos que se mantém, obviamente, o número (22) dos que permaneceram no concelho onde nasceram, como vimos. Para fora do concelho foram viver 49 réus, número idêntico aos que vieram de fora para o Sabugal, como também vimos.
Os destinos mais frequentes dos réus naturais de Sabugal foram os seguintes: Guarda, com 10 réus; Lisboa, com 7; Rio de Janeiro, com 4; Penamacor, Covilhã e Fundão, com 3 réus cada. Sublinhe-se alguma tendência para os réus se manterem relativamente perto do Sabugal. O estudo futuro da genealogia poderá revelar a familiaridade de muitos desses réus, que se deslocavam permanentemente, quer para fugir às perseguições da Inquisição, quer devido ao seu envolvimento em redes comerciais, também elas praticadas por membros das mesmas famílias.
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Subscrito por todos os partidos.

Em El País:

«La aberración histórica de que herederos ideológicos del franquismo sienten en el banquillo al juez que intentó investigar los crímenes de aquel régimen, a demanda de familiares de víctimas que todavía yacen en fosas comunes, lleva camino de consumarse. Como si entráramos en el túnel del tiempo o el pasado más oscuro retornara, el juez del Tribunal Supremo Luciano Varela, instructor de las querellas por prevaricación formuladas por el sindicato Manos Limpias y la asociación Libertad e Identidad, ha concluido que hay motivos para enjuiciar a Baltasar Garzón por abrir una causa penal contra el franquismo. Ironía máxima: está pendiente de resolver otra del mismo tenor nada menos que de Falange Española.(…)
Sólo faltaba que en este asunto Garzón quedara como un intérprete falsario de la voluntad democrática de los españoles, y quienes se han querellado contra él como los auténticos intérpretes de esa voluntad.»

Este documento encontra-se agora online no site do Fórum Abel Varzim e data de Fevereiro de 1959 – tem portanto 51 anos – e foi assinado por quarenta e três pessoas, entre as quais seis padres. Se já são minimamente conhecidas as actividades de católicos contra a cumplicidade entre a Igreja e o salazarismo em décadas mais tardias, convém assinalar que elas começaram bem mais cedo. Convém recordar que, em Fevereiro de 1959, se estava ainda no rescaldo da campanha presidencial de Humberto Delgado e que se sentiam os efeitos da célebre carta que o bispo do Porto escrevera a Salazar em Julho de 1958. Joana Lopes

 
Assinantes:
Pe. Abel Varzim, Pe. Adriano Botelho, Alberto de Carvalho Martinho Abranches, Alberto Vaz da Silva, Amândio de Oliveira Filipe Duarte, António Alçada Baptista, António Duarte Arnaut, António Esteves Ladeira, Pe. António Jorge Martins, António Marino e Silva, António Pedro Coelho d’ Aça Castel-Branco, Asdrúbal Teles Pereira, Carlos Manzanares Abecasis, Pe. César Teixeira da Fonte, Domingos Manuel Mégre, Eduardo Achiles d’Orey, Edmundo de Jesus Costa, Fernão Forjaz Pacheco de Castro, Francísco Lino Neto, Francisco de Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Teles, João Benard da Costa, João Camossa, João Gomes, Pe. João Perestrelo de Vasconcelos, Jorge de Portugal da Silveira, Pe. José da Costa Pio, José Escada, José Paulo de Almeida, Monteiro, José de Sousa Esteves, José Vieira da Luz Júnior, Manuel Fernandes de Mansilha, Manuel de Lucena, Manuel dos Santos Lourenço, Manuel Serra, Maria Manuela Brito Bio, Mariano Fernando Rasteiro Calado Mateus, Mário Brás António Santana de Menezes, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Vaz Pinto, Orlando de Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen, Victor Coimbra Torres.

 
O problema das relações entre a Igreja e o Estado, ou, mais genericamente, do comportamento dos católicos perante a política, foi recentemente posto em foco por vários acontecimentos e afirmações de individualidades altamente responsáveis da Hierarquia e do Governo.

O sr. Presidente do Conselho, em discurso recente, parece querer acusar a Igreja por haver «alguns católicos» que «romperam a frente nacional», e considera que o «assunto oferece graves implicações no que respeita à Concordata e mesmo ao futuro das relações entre o Estado e a Igreja», para, em seguida, se propor basear-se no «conhecimento da doutrina da Igreja» para «apresentar reparos», se «as autoridades competentes» a «não fizerem seguir com inteira fidelidade». Sua Ex.a, como representante do Estado, poderá evidentemente discutir de igual para igual com a Igreja a aplicação jurídica da Concordata, mas nunca poderá invocar o seu conhecimento da doutrina da Igreja para se sobrepor à interpretação, dessa mesma doutrina, pelas «autoridades competentes».

De qualquer maneira, pela primeira vez desde há muitos anos, o problema põe-se em público com alguma acuidade; a atestá-lo está o facto do sr. Cardeal Patriarca de Lisboa ter escolhido o assunto para tema da sua mensagem de Natal de 1958, e o Episcopado o ter tratado na recente pastoral colectiva. Em ambos os casos, foram lembrados os grandes princípios da Igreja. Se muitos desejavam um esclarecimento mais concreto sobre pontos precisos, temos de compreender que S. Eminência e o Episcopado não quisessem, com a sua elevada autoridade, intervir numa polémica ao nível das questões debatidas: não quisessem, e, possivelmente, não pudessem, dados os condicionamentos de toda a ordem a que o seu alto magistério está, por vezes, sujeito.

Na imprensa periódica saíram vários comentários, alguns nitidamente tendenciosos. No entanto, os comentários da imprensa e os esboços de esclarecimentos, que aqui e ali surgiram não permitiram aquele debate amplo e livre, com igualdade de condições para todos os contendores, que convém para esclarecer um problema complexo.

Por tudo isto, os signatários consideram oportuno estabelecer, entre simples católicos, um diálogo, alheio aos condicionamentos da imprensa, libertado das preocupações de compromissos, com muito menos autoridade do que a Hierarquia ou os organismos oficiais, mas também com aquele grau de incerteza e de risco doutrinário que permite normalmente aclarar uma questão concreta, no emaranhado dos acontecimentos de todos os dias.

 
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Recebi este texto de Marinela Coelho, viúva de Manuel Serra, com pedido de publicação neste blogue e no Entre as brumas da memória. Não esquecerei a força e o sorriso que nunca a largaram, nem depois do fim. Joana Lopes

 
Obrigada, em meu nome e do Manel Serra, a todos os amigos, companheiros, camaradas e também às pessoas anónimas que o admiravam, que nos acompanharam nesta hora triste que é a da partida.

Prestou-se tributo a um lutador que em toda a sua vida nunca abdicou, nem nas horas mais perversas de antes e depois do 25 de Abril, dos seus princípios políticos, ideológicos, morais e cristãos.

Que seja lembrado, enquanto houver memória!
Marinela

A ler: um artigo de Antonio Muñoz Molina, no Babelia de hoje, a propósito da abertura ao público de dezasseis volumes de documentos sobre os anos da Revolução Cultural.

 
Um texto de Jorge Martins (*)

Já aqui referimos a insustentabilidade de o Núcleo Museológico do Posto de Comando se limitar a passar o mesmo filme há oito anos. Há que produzir novos recursos multimédia. Um desses recursos deveria ser obtido a partir de entrevistas aos operacionais do MFA que estiveram no Posto de Comando a dirigir as operações do 25 de Abril.

Para além destes – Otelo Saraiva de Carvalho, Garcia dos Santos, Victor Crespo, Sanches Osório, Hugo dos Santos e Lopes Pires –, muitos outros Capitães de Abril passaram pelo Posto de Comando durante aquele período. Todos eles têm histórias fantásticas para contar.

A recolha dos seus testemunhos não exige meios dispendiosos. Basta utilizar os recursos da Câmara Municipal de Odivelas (CMO), a saber:

1) Técnicos da Divisão de Cultura, que, se forem destacados para o Núcleo Museológico, como já sugerimos, podem fazer os guiões e realizar as entrevistas;

2) Câmara de filmar e cassete vídeo (ou outro suporte digital) da CMO, cujos gravações se podem guardar num computador e voltar a utilizá-las, minimizando assim os custos;

3) Utilizar a Sala de Operações do Posto de Comando como local de recolha dos testemunhos.

O tratamento desse material proporcionaria a produção de pequenos filmes para passar nas visitas, organizar ciclos de projecções e editar pequenas biografias para distribuir nas escolas. Simultaneamente, estaria a criar-se um acervo documental, que se poderia disponibilizar on-line, no espaço do Núcleo Museológico da página Internet da CMO. O que constituiria um interessante apoio aos estudantes das escolas do nosso concelho e não só.

Esta é mais uma sugestão cuja execução está perfeitamente ao alcance da CMO, que dinamizaria, divulgaria e projectaria para o exterior o Posto de Comando, contrariando a inércia em que sobrevive neste momento.

 

(*) Biografia de Jorge Martins

No próximo dia 19 de Fevereiro, sexta-feira, pelas 17h00, nas instalações da Fundação Inatel em Setúbal (Casa Carlos César – Praça da República), o Governador Civil do Distrito de Setúbal, Dr. Macaísta Malheiros, vai atribuir quatro Medalhas de Mérito Distrital, uma das quais a Vítor Wengorovius que nasceu naquela cidade.

A. H.

No final da década de 1990, Ian Kershaw publicou uma biografia monumental de Hitler distribuída por dois volumes e 2.000 páginas. O primeiro acompanhava as origens remotas do «Führer do povo e do Reich alemão», a composição das suas certezas, o aperfeiçoamento gradual e premeditado da imagem pública, o caminho para a tomada do poder e o esforço de militarização da sociedade alemã indispensável para a afirmação dos seus objectivos. O segundo volume seguia-o nos anos do apogeu e da queda do regime nazi: os da mobilização para a guerra total, da apoteose do poder e da expansão da Grande Alemanha, mas também os da Solução Final, do recuo estratégico e da morte antecipada do «Reich de Mil Anos». Logo aclamada como obra de referência, devido sobretudo à quantidade de informação oferecida e à novidade de muitas das fontes de arquivo utilizadas, acabou por ser reeditada em 2008 num volume único e condensado, mais acessível ao leitor comum. É esta versão que as Edições 70 agora editaram. A estrutura da obra original mantém-se, embora as notas tenham desaparecido, a bibliografia final sido reduzida e o texto aparado de algum material do qual o autor aceitou prescindir.

É um estudo sobre a força acumulada e aplicada pelo líder nazi, nele se procurando mostrar como foi possível a um indivíduo aparentemente inepto ter-se apropriado do poder num país desenvolvido como a Alemanha, e, depois de o obter, como foi ele capaz de o conservar e de o alargar da forma que conhecemos. Ensaia também a compreensão dos motivos pelos quais uma sociedade moderna, culta e com alguma tradição democrática pôde mergulhar rapidamente na mais brutal e devastadora das barbáries. Nesta direcção, Kershaw, preocupa-se menos com a definição psicológica do biografado, o seu trajecto individual, gostos, vida familiar e amizades – praticamente invisíveis no livro –, do que com as condições que permitiram a sua irresistível ascensão. Considera mesmo o seu estudo como biografia de uma «não-pessoa», de alguém que, de facto, não parecia ter vida fora das organizações e dos acontecimentos nos quais se foi sucessivamente envolvendo. Assegura até que fora da esfera da política Hitler «teria permanecido indubitavelmente como um zé-ninguém», tendo sido apenas ela a potenciar as suas capacidades, a sua vontade e o seu trajecto como «autoridade carismática» – seguindo o conceito de Weber – capaz de apresentar aos olhos de um crescente séquito de seguidores, com recurso a uma imagem laboriosamente construída, capacidades únicas, extraordinárias e providenciais. Um oportunista soberbo e um péssimo estratego, «demagogo de cervejaria com poucas qualificações académicas», obcecado consigo próprio mas com inteligência suficiente para se adaptar às expectativas e às condições do seu tempo, que estava convencido de ter sido talhado para cumprir o destino histórico da Alemanha. Mais do que sobre Adolf Hitler, é pois sobre a época e as circunstâncias que permitiram a sua ascensão que o historiador britânico faz incidir o seu relato.

Publicado na revista LER de Janeiro

Ian Kershaw, Hitler. Uma Biografia. Trad. de Lídia Geer. Edições 70, 38 + 850 págs.

Este texto foi escrito a partir do rascunho da minha primeira carta dirigida ao Ministério da Educação (1947)! Protestativa, dorida, mas cordata. Na Europa ainda havia cheiro a mortos do holocausto, Portugal reclamava ter tido uma posição neutral na guerra, nas escolas fazia-se a saudação nazi, os meus pais viviam num clima de medo por serem ambos funcionários públicos. Pertencíamos a uma família de ideias e de tradições democráticas –  o meu avô tinha sabido do fim da guerra fechado no Forte de Caxias, pelos gritos de “vitória!”.
A “heroína” desta história é a minha Mãe. Tem 94 anos, chama-se Maria Augusta, conversa sobre política como sobre tudo o que faz parte do presente. Acha que foi a melhor professora primária do mundo (e se calhar foi…) e comove-se sempre que recorda este episódio. H.P.

 
Senhor Inspector:

Eu tenho oito anos e ando na terceira classe e isto aconteceu na primeira semana de aulas. Eu vim para esta escola agora pela primeira vez e ela é a escola do bairro onde eu vivo em Lisboa. Eu andava muito contente porque a minha professora tinha-me sentado na mesma carteira com uma menina que é minha amiga e se chama Nina, e que mora ao pé de mim ali logo abaixo da minha casa. É que eu não conhecia ninguém aqui nesta escola porque eu andava na segunda classe na Promotora de Alcântara, que a minha Mãe era lá professora e eu ia com ela todos os dias de camioneta e num eléctrico. Mas então foi que a meio do ano passado ela ficou doente e eu pensava que era pouco doente, só assim com uma doença sem febre que ia passar, e então eu continuei a ir para aquela escola mas sozinha. Por isso e por ainda ter poucos anos mudei para aqui agora na terceira classe para esta escola do Bairro. Senhor inspector eu ainda estava cá há poucos dias mas gostava muito da minha professora e um dia entrou pela nossa sala adentro uma senhora muito alta e muito forte cá da escola que eu nunca tinha visto e as meninas levantaram-se e a minha professora disse que era para ficarmos de pé até essa senhora nos dizer podem-se sentar, porque ela era a senhora directora. Então a senhora directora disse zangada que também era para estendermos assim o braço quando nos púnhamos de pé e era para dizermos Bom dia senhora directora e eu nunca tinha aprendido isso do braço na minha escola de Alcântara mas fiz como as minhas colegas. Quando aquilo acabou sentámo-nos e a senhora directora perguntou Quem é uma menina que tem a mãe tuberculosa?

As minhas colegas ficaram todas caladas e eu também porque eu não sabia o que era isso e só depois nesse dia é que eu soube porque era que a minha mãe não ia dar aulas ao alunos dela que o disse a senhora directora e pensei logo que se calhar ela ia morrer. Então a senhora directora falou muito alto É aquela menina não é? E virou-se para mim com o dedo apontado e estava com uma cara muito má e eu já estava quase a chorar e vai ela foi ao pé de mim agarrou-me no braço com toda a força levou-me e sentou-me sozinha no fundo da sala longe das minha colegas e disse que era para eu não lhes pegar e avisou a minha professora que também era para eu não ir ao recreio e eu sempre a pensar que eu não sabia que eu estava doente, e então se a minha mãe fosse morrer?

E depois quando se ia embora a minha professora disse assim Vamos meninas levantem-se outra vez e digam Bom dia senhora directora e façam o que a senhora directora vos ensinou a sauda…a saudassão. Fizemos todas e depois eu esperei pela hora do recreio e fugi para casa e ia a correr muito e a chorar, só queria que me dissessem se era verdade se a minha mãe ia morrer que parecia que a directora tinha dito isso.

Ao outro dia ao intervalo eu estava aqui na sala a comer o meu lanche cheia de pena por não ir lá para fora com as outras meninas mas era para não lhes pegar e eu vi a minha mãe vir cá falar com a minha professora com um papel que acho que dizia que o que ela tinha não se pegava, mas ela estava era muito furiosa com a senhora directora por causa disso da saudass…da saudação. E então depois das meninas virem do recreio a minha professora Dona Lurdes voltou a pôr-me ao pé da minha amiga que se chama Nina e no dia a seguir eu já fui ao recreio e nós as duas e mais umas minhas colegas nunca mais fizemos essa palavra que eu não sei dizer, quando alguém entrava. Porque a professora disse que isso só faziam as que queriam porque acho que ela gostou do que a minha mãe disse. Foi assim e depois na outra semana a minha professora já não veio e agora eu estou a escrever esta carta porque andam a dizer que a Dona Lurdes está de castigo por causa de mim e eu queria dizer ao senhor inspector que as meninas daqui nós todas gostamos muito dela e que temos muitas saudades dela e que ela ensinava muito bem. E também quero dizer que ninguém me mandou escrever esta carta eu é que pedi à senhora professora nova Dona Luísa que nos veio dar as aulas se ela me deixava e ela é muito boazinha.

Obrigada senhora professora Dona Luísa
Adeus senhor inspector

Lisboa, 30 de Outubro de 1947
Maria Helena Pato

 
Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006

Morreu ontem à noite mais um grande lutador antifascista em Portugal.

É na Juventude Operária Católica, aos 17 anos, que Manuel Serra toma consciência da pobreza, repressão e injustiças que o rodeiam – o motor de arranque para uma longa e agitadíssima caminhada.

Já como oficial da marinha marcante, integra-se na corrente mais extremista da campanha de Humberto Delgado para a presidência da República, em 1958, onde defende o recurso à luta armada para o derrube do regime.

Na noite de 11 para 12 de Março, chefia os civis no falhado Golpe da Sé, sendo detido e levado para o Aljube onde permanece seis meses, depois de cinco dias de tortura de sono. Numa primeira fuga espectacular, sai pelo seu pé do Hospital Curry Cabral onde se encontrava internado: vestido de padre, segue directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa, onde pede asilo. Apesar de vigiado em permanência por quatro agentes da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, estuda um novo plano de fuga, muda de visual muito rapidamente, cortando o cabelo e a barba, e aproveita uma mudança de turno para, uma vez mais, sair em pleno dia para a embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era precisamente juntar-se a Humberto Delgado naquele país.

Parte em Janeiro de 1960 e começam então os preparativos para o que viria a culminar no golpe de Beja, em 1 de Janeiro de 1962. Depois dos factos que são do conhecimento público, Manuel Serra tenta esconder-se no sul do país, mas acaba por ser detido em Tavira. Segue-se então um mês de grande violência, com tortura de sono e espancamentos, um julgamento com condenação a dez anos de prisão e longas estadias em Peniche e em Caxias. Liberto no início de 1972, é ainda detido por um curto período em Novembro de 1973.

Tudo somado, quase doze anos passados em prisões da PIDE.

A seguir ao 25 de Abril, é um dos fundadores do MSP (Movimento Socialista Popular) que mais tarde se integra no Partido Socialista com grupo autónomo, mas divergências internas precipitam a saída, em Janeiro de 1975, para a criação da FSP (Frente Socialista Popular). No quadro deste pequeno partido, participa nas campanhas de Otelo Saraiva de Carvalho para a presidência da República. Em 1980, foi um dos fundadores da FUP (Força de Unidade Popular).

Ontem, tudo acabou. Ficará na história dos belos lutadores da resistência em Portugal, que aliaram a coragem à aventura e até ao prazer do risco. Na memória dos que o conheceram pessoalmente, restará um enorme sorriso e um coração do tamanho do mundo – será sempre assim que o recordarei.

   
(Fotografia e fonte para a elaboração deste texto: Rui Daniel Galiza e João Pina, Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim)

Esta carta foi hoje enviada ao presidente da CML, António Costa, a cada um dos vereadores – Helena Roseta, Manuel Salgado, José Sá Fernandes, Catarina Vaz Pinto, Manuel Brito, Fernando Nunes da Silva, Maria João de Azevedo Mendes, Graça Fonseca, Pedro Santana Lopes, João Navega, Lívia Tirone, Gonçalo Reis, Dina Vieira, Victor Gonçalves, António Carlos Monteiro e  Ruben de Carvalho – e à presidente da Assembleia Municipal, Simonetta Luz Afonso.

   
Exmº  Senhor
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Dr. António Costa:
Como é  certamente de seu conhecimento, a placa que recordava os quatro jovens ali assassinados no dia 25 de Abril de 1974, afixada por um grupo de cidadãos na ex-sede da PIDE/DGS, na R. António Maria Cardoso, foi retirada no início das obras visando a transformação da sede da antiga polícia política em condomínio de luxo.

Recentemente, e após alguns protestos – entre os quais o da Associação – Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! – veio a ser colocada em local envergonhado e de pouca visibilidade, no que consideramos um profundo desrespeito pela memória dessas vítimas, pela vontade dos cidadãos que ali a tinham colocado e pelo povo de Lisboa e seus representantes, que ali a tinham preservado.

Em outros países, honra-se a memória dos que lutaram pela Liberdade, os seus nomes tornam-se nomes de ruas, antigas prisões e sedes das polícias políticas são mantidas como Museus. Choca-nos ver que em Portugal, pelo contrário – e com a prometida excepção da cadeia do Aljube, prevista para albergar o futuro Museu da Resistência – se permite que essa memória seja assim desrespeitada.

Dir-se-á  que exigir o regresso da placa ao seu local de origem é prender-se demasiado a um símbolo. Mas, sobretudo neste ano em que se comemora o Centenário da proclamação da República, vale a pena lembrar a importância de um outro símbolo na manutenção da memória dos heróis dessa República tão vilipendiada pelo Estado Novo, a estátua a António José de Almeida junto à qual os antifascistas se manifestavam, enfrentando a repressão, em cada 5 de Outubro.

Por isso, vimos solicitar a sua intervenção para que a placa com os nomes de Fernando Gesteira, José Barrento, Fernando Barreiros dos Reis e José Guilherme Arruda volte ao lugar de onde foi retirada, permitindo aos que ali passam recordar não apenas esses mortos pela Liberdade no dia 25 de Abril de 1974, mas também todos aqueles que, no mesmo local e ao longo de anos, enfrentaram a prisão e a tortura, armados apenas pela força das suas convicções.

Melhores cumprimentos.

Pel’ A Direcção da Associação - Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!
Lúcia Ezaguy Simões
Vice Presidente da Direcção

Para um adepto irremediável do futebol e com dois (!) clubes no peito como eu sou, olhar a capa de um livro de um académico sobre as coisas da bola (*), natural seria que me levantasse, em simultâneo, uma tosse seguida de espirro. Mas foi só quase. A consagrada tese dos “3 Fs” que um antifascismo primário colou à relação entre a ditadura e o futebol, acompanhando-o de um fenómeno tão distinto como o fado mas tão similar como foi e é Fátima, é bem conhecida, tarde ou cedo este estereótipo salta, servindo o verniz da alergia a muita gente em bicos de pés no status cultural, e por isso merece ser estudado e verificado. Assim, foi de uma forma dócil que meti o livro de Ricardo Serrado (**), uma reprodução da sua tese de mestrado, na minha alcofa das compras. E, diga-se, sem lamentos vulgares e próprios de tempo de poupanças.

Parece-me que Ricardo Serrado (RS), na sua tese esforçada de desligar o futebol do fascismo, é mais veemente que convincente. Embora equilibre o efeito distorcido do estereótipo difundido e aceite pelo politicamente correcto na preguiça corrente com que se interpreta o fascismo português, o dos “3 Fs”, RS parte de um lugar comum académico e só triunfante porque insuficientemente contraditado: o de que o salazarismo-marcelismo não foi um fascismo (o que leva muito boa gente a adoptar o termo “Estado Novo” com que Salazar baptizou o seu regime ditatorial, e normalmente sem o pudor mínimo de lhe meter aspas). Sendo uma das comprovações deste “aligeiramento” na categorização (sugerido com resultando do amor ao rigor) a ausência (ou reduzido a esporádicas erupções), na longa ditadura portuguesa, do “fenómeno de massas” e levantando, para abono da tese, o carácter de homem solitário que habitava o Botas, o seminarista adverso às multidões. Obviamente que Salazar odiava as multidões quando não as controlava e odiava os ajuntamentos e o povo, por desconfiança atávica, quando este não se reduzia a suar a cavar batatas. E, assim sendo, um eremita bêbado de poder, Salazar não podia entender e muito menos gostar de futebol, espectáculo e paixão de multidões. Mas, ao mesmo tempo, nunca permitindo intimidades ou proximidades que o seu nojo pelo povo não permitia, Salazar sempre encenou ou mandou encenar celebrações de multidões, até para legitimar a ditadura, sobretudo nos momentos críticos para o regime. E comparecia nelas, muitas vezes. O Jamor aí está como demonstração, esse estádio que é a última grande perpetuação (continua a ser o palco exclusivo das finais da Taça de Portugal) da ligação profunda (propagandística, estética) entre o fascismo português e o futebol. Julgo também como certeira a defesa de RS de que foi mais o futebol (e os clubes) que se impôs à ditadura que o inverso. Embora, como não nega, a ditadura tenha aproveitado sempre e ao máximo todo o desvio de motivações e exaltação nacionalista que o futebol português proporcionou aos ditadores. E esse mesmo aproveitamento foi o mais significante em termos de ligação entre política e futebol de que o regime beneficiou mais que o próprio futebol (o qual, sintomaticamente, se consolidou muito mais em tempos de democracia, “fogachos” do Benfica e da selecção no Mundial de 66 à parte).

O capítulo mais interessante do livro de RS é o dedicado à final de 69 da Taça de Portugal em que os estudantes de Coimbra, em luta cerrada e valente contra o fascismo, transformou a “festa do Jamor” numa jornada política de luta (a que aderiu, maioritariamente, a massa de adeptos do Benfica ali presente). Trata-se de um capítulo bem documentado e o melhor tratado. Mas não serve, como parece ser destinado, como prova válida de que, como fenómeno, o futebol não só não foi amado pelo fascismo como enfrentou ou corroeu o regime. Foi um acto isolado, mesmo que dos mais vivos em termos de reversão dos rituais do fascismo português. Nunca aconteceu nada igual nem parecido, antes ou depois. Aliás, a invasão coimbrã do Jamor, essa grande jornada de vergonha para a ditadura, está, na memória colectiva, se esta pretender ser justa, “empatada” pela monumental ovação que Marcello Caetano recebeu em Alvalade pouco antes do 25 de Abril e já dada a tentativa do 16 de Março vinda do quartel das Caldas.

Um historiador ter-se dedicado ao estudo e história do futebol, é uma novidade e excelente notícia. Para além das repulsas, o futebol é o futebol. Se a história o desprezasse, seria a história que perderia, passando ao lado do maior e mais importante espectáculo de massas de todos os tempos.

(*) – “O Jogo de Salazar – a política e o futebol no Estado Novo”, Ricardo Serrado, Edição Casa das Letras.

(**) – Ricardo Serrado é licenciado e mestre em História (Universidade Nova de Lisboa), ainda investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH e do Centro de História da FLUL, bem como director do Centro Histórico do Futebol e Desporto.

(Publicado originalmente no blogue Água Lisa)

A ler: um interessante artigo, publicado hoje no suplemento Babelia de El País.

«La igualdad que los revolucionarios consagraron como principio universal ha inspirado las luchas de los individuos que fueron inicialmente excluidos de ella, en un largo recorrido que ha llevado desde la abolición de la esclavitud al reconocimiento de los derechos de las mujeres. Los derechos humanos fueron (…) una invención; pero una invención que sigue surtiendo efectos tres siglos después.»

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

As atitudes da administração dessa empresa em todo o processo da placa evocativa da morte de cidadãos às mãos da PIDE/DGS revelam uma total falta de respeito e um humilhante desprezo não só por aqueles que foram assassinados na tarde de 25 de Abril, os únicos, aliás, como por todos os que passaram pelas salas de interrogatório da sede da PIDE. E não foram poucos os que por aí passaram, de intelectuais a camponeses, de operários a estudantes, homens e mulheres. Esse edifício tem uma longa e triste memória ao serviço da morte, da tortura e da humilhação daqueles que lutaram para que em Portugal houvesse um regime democrático. Mas nós, e digo nós porque fui dos que por aí passaram, apesar de conscientes de que desse regime viriam a beneficiar indivíduos como os que ocupam a administração dessa empresa, não desistimos dessa luta. Como não desistiremos de vos lembrar que nos mesmos locais que agora são salões, salas e quartos, se faziam interrogatórios onde se praticava a tortura do sono e da estátua. E não deixaremos que queiram agora apagar a memória desses dias, escamoteando a verdade sobre o antigo condomínio privado da PIDE, agora condomínio habitacional. Junto o meu protesto ao de todos os cidadãos que requerem dignidade para a placa evocativa dos acontecimentos do dia 25 de Abril.
Artur Pinto
ex-preso político


O mito da ditadura «branda» do Estado Novo – desmentido em inúmeros episódios de assassinato e tortura aos opositores – torna-se verdadeiramente anacrónimo se nos confrontarmos com algumas descrições do que foi a brutalidade da actuação policial em África. Tortura na Colónia de Moçambique. 1963-1974, publicado pela editora Afrontamento em 1977, traz-nos o relato dessa realidade pela voz das vítimas. Segundo é informado no prefácio, a sua recolha deriva de um inquérito «promovido pelos juristas que, logo após o 25 de Abril, se integravam no grupo conhecido pelo nome de Democratas de Moçambique e que se propunha, dentro da então ainda colónia, divulgar os princípios da Frelimo.» Detive-me na história de Beatriz Jorge Cossa, de 23 anos, que transcrevo tal qual vem no livro. Não é fácil, mas vale a pena ler.

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Exma. Administração do GEF:

Em primeiro lugar, peço-vos desculpa pelo clássico “Exma.”, mas ainda fica bem, independentemente do nível de excelência ser inexistente.
A atitude do GEF traduz não uma ígnara provocação política mas aquela pertinaz ignorância da História e cobarde alinhamento com as chamadas forças dominantes que caracterizou e caracteriza a esmagadora maioria dos pequeninos gestores portugueses. Por isso estamos na posição em que estamos no espaço europeu.
Creio que estão à espera que todos os recursos legais, das (demasiadas vezes tão lamentável) governações local e central e da mobilização popular (bem difícil de induzir, V.V.Exas. sabem) sejam utliizados.Fica por mim assinalada a vossa inteligência.
Espero que um assomo de decência e bom senso, coisa indisponível mesmo nos melhores centros comerciais, seja introduzido no precioso tempo das vossas decisões, no caso de considerarem a sua vantagem, sei que meramente táctica.
As maiores felicidades para os vossos bons empreendimentos.
Maximiano Gonçalves

O Jorge Martins divulgou agora uma curta versão sonora dos acontecimentos. Aqui fica outra.

 

 
Habituados que estamos a imagens, OUVIR coloca-nos num outro patamar de indignação – pelo menos no que me toca.

Sobretudo quando, em Janeiro de 2010, ainda não se conseguiu que a GEF, empresa imobiliária responsável pelo actual condomínio de luxo, reponha a placa com os nomes dos mortos do dia 25 de Abril no seu local de origem – aparentemente, porque este se encontra perto da porta principal por onde entrarão os moradores e as suas ilustres visitas.

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Aconteça o que acontecer, a história que originou a famigerada placa da sede da PIDE está bem documentada. Não há meio de apagar a memória do último acto daquela criminosa polícia política, perpetrado no próprio dia da conquista da Liberdade.

O registo sonoro da manifestação popular na rua António Maria Cardoso e da tomada das instalações da PIDE pelo MFA aí está para memória futura. O assassinato dos quatro manifestantes e o grito uníssono de “Morte à PIDE!” não deixam dúvidas do que foi aquela polícia e do legítimo ódio que gerou na população.

Brevemente, vamos comemorar o 36º aniversário do 25 de Abril e o que se tem feito pela memória da ditadura é incomparavelmente menos do pouco que se tem prometido. Como de costume, os bons exemplos estrangeiros não sensibilizam os nossos governantes. Quando será que o Ministério da Cultura assume a memória dos crimes da ditadura e da pertinaz resistência antifascista? Será politicamente incorrecto recordar o nosso passado negro? Será que se contenta com umas encomiásticas comemorações do centenário da República?

E o Ministério da Educação, o que tem feito? Substancialmente, nada mais do que o Ministério da Cultura. Já não bastava a pouca importância que se dá ao estudo da ditadura nos nossos programas escolares de História do ensino básico e secundário, como nos confrontamos com o alheamento face à opinião pública sobre as últimas questões relacionadas com a memória da ditadura: a desonrosa transformação do edifício da PIDE num condomínio de luxo, em vez de um museu da PIDE e da resistência; o silêncio e a inércia quanto à construção de uma pousada na Fortaleza de Peniche, em vez da edificação de um exemplar espaço de memória das prisões do regime; o desinteresse por qualquer iniciativa em relação aos Tribunais Plenários.

Aconteça o que acontecer à placa da sede da PIDE, aqui fica o registo sonoro dos acontecimentos ocorridos na rua António Maria Cardoso no dia 25 de Abril de 1974. E para que não se apague a memória da PIDE, afixem a vossa placa na blogosfera, porque, como cantava Francisco Fanhais: “É preciso avisar toda a gente!”.

 

 

(*) Biografia de Jorge Martins

Um excelente dossier:
Viaje al Holocausto

O que se segue é a narrativa de uma prisão atípica, a de uma das redactoras deste blogue, há exactamente quarenta anos. Diana Andringa entrava cedo num emprego distante de casa. Quando a PIDE a procurou, já tinha saído. Teve pois tempo de se preparar para a prisão. Foi uma primeira vantagem, mas não a única: histórias de amigos presos, visitas a Caxias, ajudavam a evitar-lhe o choque do desconhecido; a sua ligação, mais afectiva do que efectiva, a uma organização, encaixava mal no quadro mental dos inquiridores; mas, sobretudo, confiava em que – tendo o director da PIDE a filha em Cuba – as suas ligações familiares travariam eventuais excessos policiais. Não tendo que enfrentar as torturas bárbaras que tantos outros suportaram, pôde verificar algo que a tortura impedia de observar: que, privada dessa arma, a polícia política se tornava ineficaz e até, por vezes, caricata. O que, a seus olhos, torna ainda mais sórdida a utilização da tortura e mais dignos de respeito aqueles que a sofreram. Joana Lopes

   
O carro, um Wolkswagen, passou do outro lado do largo onde esperava o autocarro. Contornou-o na direcção da rua onde morava. Pareceu-me reconhecer um dos homens no interior: o chefe de brigada Inácio Afonso. Avistara-o durante uma ida à PIDE, na António Maria Cardoso, requerer o direito de visitar o então meu namorado.

O autocarro que chegava ocultou-me da vista dos passageiros. Entrei, o coração a bater mais rápido que o habitual: há muito tempo que era notória a vigilância à nossa casa, dez dias antes fôra preso o Álvaro. Teria chegado a minha vez?

O trajecto até à agência de publicidade onde trabalhava levava cerca de uma hora. Fui passando em revista as possibilidades: ir trabalhar, como se nada se passasse, e aguardar o desenrolar dos acontecimentos? Apear-me a meio do percurso, ocultar-me durante algum tempo, deixar o país? Mas esconder-me onde, se aqueles que mais facilmente me acolheriam poderiam estar também vigiados e ser postos em perigo pelo meu aparecimento? E se a vigilância sobre nós durava há tanto tempo e era tão ostensiva, seria possível que os meus dados não estivessem já em todas as fronteiras? Talvez, no entanto, a PIDE fosse menos eficiente do que pensávamos… Mas se abandonasse o país e não pudesse mais voltar, seria isso mais útil do que arriscar a prisão, uma vez que não fazia parte de nenhuma organização e não tinha qualquer importância, nem informações que pudessem fazer perigar a segurança de outros? E se o carro tivesse passado ali por simples coincidência, ou reforço de vigilância, ou intimidação, fugir não iria piorar a situação dos que ficassem?

Ao fim de uma hora a pesar prós e contras, acabei por me apear na paragem do costume. Olhei em volta: não vi nada de inabitual. Entrei na agência. Estava há poucos minutos no gabinete quando o telefone tocou. Era a Nita: “A Zé foi presa. A mãe dela foi a tua casa avisar-te e a PIDE estava lá, prenderam também o Zé.”

As dúvidas voltavam: que fazer? Sabia que vários dos meus colegas, se não todos, estariam dispostos a ajudar-me, mas tinha o direito de os pôr em risco? Valeria a pena? Certamente a PIDE estaria já a vigiar o edifício…

Telefonei ao José Augusto Rocha: “A PIDE está em minha casa. Devo estar a ser presa. Posso deixar-te uma procuração?” Surpreendido, talvez ainda ensonado, o Zé Augusto explicou-me o que fazer. Escrevi a procuração e deixei-a à Maria, com o Bilhete de Identidade necessário ao reconhecimento da assinatura. Expliquei-lhe tudo e pedi-lhe que a entregasse depois à minha mãe, a quem deveria também confirmar a minha prisão. O Plínio, que dividia o gabinete comigo e era familiar de um dirigente da PIDE, abriu as suas gavetas aos papéis que, mesmo inócuos, a polícia poderia querer apreender-me. Desci as escadas e pedi à recepcionista que me avisasse quando os agentes entrassem à minha procura. Telefonei então à minha mãe, pedindo-lhe que aguardasse o telefonema de confirmação da Maria para me levar à sede da PIDE, na António Maria Cardoso, um pijama e uma escova de dentes. Liguei para o emprego do meu pai e pedi à secretária que lhe desse a notícia com cuidado, para evitar um possível problema cardíaco. Sem saber que mais fazer, arrumei a secretária. O telefone tocou e ouvi a voz soluçada da recepcionista: “Já entraram. Foram à Secção de Pessoal.”

Fui à casa de banho. Quando regressava, vi-os chegar: o homem do carro e uma mulher, a também chefe de brigada Madalena Oliveira. Traziam um mandado e tinham avisado a Secção de Pessoal. Ninguém meu conhecido fora preso com tamanha legalidade.

Pedindo desculpa pelo incómodo ao Plínio, passaram rapidamente busca à minha secretária, detendo-se a observar alguns exemplares do Le Monde diplomatique. A seguir pediram-me que os acompanhasse.

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Exmos Senhores
A construção dum condomínio no prédio da R. António Maria Cardoso, que foi sede da P.I.D.E, constitui, objectivamente, um desafio à memória e à inteligência de todos os anti-fascistas . Noutras geografias, noutras arenas políticas, essa construção já estaria reduzida a cinzas! As cumplicidades que tornaram possível esta existência não lhes confere, a uns e a outros, a prerrogativa de provocarem, indefinidamente, as pessoas decentes deste país. Queria apenas recordar-lhes que nesta indignação estão incluídos cidadãos que sofreram na carne a repressão fascista e que não permitirão, seguramente, que um punhado de saudosistas agite a bandeira da provocação pidesca.
Cumprimentos
Agripino Almeida

 
O primeiro texto desta série pode ser lido aqui e o segundo aqui.

 
De todas as construções simbólicas analisadas por JMP nenhuma é mais actual do que o mito colectivo da Europa, melhor dito da CEE.
Na verdade, este parece ser o mito mais consistente da democracia portuguesa, capaz de substituir e fazer esquecer os muitos que nasceram e morreram no intenso e breve período revolucionário. É aliás assim que os agentes políticos activos na cena política, desde 1976 até ao providencial ano de 1986, o apresentam: como verdadeiro desígnio nacional, capaz de preencher o vazio deixado pelo fim de um período glorioso, o ‘ciclo do império’, agora substituído pelo não menos glorioso ‘ciclo europeu’.
E constata o próprio autor que, num primeiro momento de euforia e entusiasmo, o projecto não deixou de mobilizar energias, multiplicando-se os estudos, seminários, conferências, encontros e até embaixadas culturais, com vista a convencer os portugueses por um lado, e a Comunidade Europeia por outro, das vantagens mútuas da nossa integração. Mas esse impulso dinâmico e empreendedor, além de breve, foi marcado pela ambiguidade: a começar pela confusão constante entre CEE, como projecto puramente económico, e Europa, como grande desígnio político, cultural e civilizacional. Com o nosso proverbial irrealismo, envolvemos o objectivo mais prosaico da salvação económica, de que precisávamos como pão para a boca, em solenes discursos sobre a nossa identidade europeia, em nome de um passado comum, e mesmo de uma dívida histórica do velho continente, para com esta ‘pequena/grande nação’.

Sobrou-nos em retórica o que faltou em trabalho concreto. E tudo começou a piorar quando se percebeu que ‘a Comunidade Económica Europeia não era uma instituição de caridade, nem o Eldorado. Que era preciso estudar e preparar dossiês, e que a grande ignorância em que se mantinha não apenas o povo em geral, mas até os empresários e governantes sobre tão áridas matérias, operaria mais uma vez a fatalidade de nos converter de mensageiros do futuro em suas vítimas.’(p. 56)
De novo JMP se aproxima de Eduardo Lourenço, para concluir que também em relação à Europa cumprimos com uma constância surpreendente o ciclo labiríntico das ‘polarizações esquizofrénicas’ em que parece enredar-se o nosso comportamento colectivo. Oscilando entre o papel de parente pobre da Europa e o de parente rico, hesitando entre o sentimento de passiva submissão por nos sabermos frágeis económica, técnica, ou cientificamente, e o de altiva superioridade, por um passado glorioso, não comparável com o de qualquer outro parceiro europeu, fomos incapazes de olhar com realismo o presente, e de investir nele a energia e ambição necessárias.
Em conclusão: fragilidade objectiva (incerteza do presente) e segurança subjectiva (o que somos por ter sido) fizeram com que, uma vez mais, procurássemos o caminho mais curto e de resultados mais rápidos, que é a salvação exterior.

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Para quem tiver acesso ao canal cultural franco-alemão «Arte», uma recomendação. Vai passar na quarta-feira próxima, com início às 19:30, a segunda parte do filme «Shoah» de Claude Lanzmann, realizado em 1985.

O filme dura cerca de 9 horas e por isso foi dividido em 2 partes. Continua a ser “o filme” sobre o Holocausto perpetrado pelos nazis. Acima de tudo um filme sobre até onde pode ir a (des)humanidade, o ódio, a indiferença face ao horror.

Lanzmann que é hoje o director da revista “Les Temps Modernes” fundada por Sartre e Simone de Beauvoir a seguir à guerra, está, aliás, envolvido agora numa polémica a propósito dum livro sobre a “heroicidade” dum polaco (não me lembro agora o nome) ao proteger judeus perseguidos pelos nazis na Polónia.
Como sabemos até existem “protectores” desses que vão ser”promovidos” a santos…

O filme de Lanzmann é certamente um dos “documentos de memória” mais impressionantes que se produziram. Um murro, bem mais violento que os que se podem apanhar no estômago – este vai bem mais fundo. Pena eu não poder gravar: de cada vez que estivesse chateado com as tricas e “merdices” do dia a dia ia vê-lo. Não percam!

   

Um texto de Jorge Martins (*)

O primeiro post desta série pode ser lido aqui , o segundo aqui, o terceiro aqui e quarto aqui

 
Naturalidade e morada dos réus

Para conhecer o percurso geográfico dos réus do Sabugal, designadamente a mudança de residência em consequência das perseguições inquisitoriais, vamos analisar a sua naturalidade e morada, por freguesia, tanto quanto nos é possível neste momento.

Temos 131 processos (91,6% do total) com identificação da naturalidade e/ou morada quando da sua prisão, dos quais, 104 (79,4%) se referem a réus acusados de judaísmo. Podemos verificar, portanto, que a elevada percentagem de judaizantes se mantém, pelo que nem seria necessário discriminá-los por freguesia.

Das 40 freguesias actualmente existentes no concelho do Sabugal só conseguimos apurar processos da Inquisição para 18. Convém, desde já, assinalar duas condicionantes para os resultados obtidos. A primeira é que só depois de lidos os processos na íntegra é que poderemos confirmar se todos eles se referem efectivamente a naturais ou moradores na freguesia do Sabugal, dada a enorme diferença verificada em relação às restantes freguesias. A segunda condicionante para compreendermos os valores com que vamos trabalhar, prende-se com o facto de não haver coincidência entre o número de processos para cada freguesia e a soma dos naturais e moradores, em virtude de alguns deles serem simultaneamente naturais e moradores.
Refira-se também que a morada diz respeito, em alguns (poucos) casos a réus que foram presos em locais onde exerciam a sua actividade profissional ou podiam mesmo estar apenas de passagem ou escondidos. Finalmente, registe-se que estamos a analisar processos e não réus, alguns dos quais foram presos mais de uma vez e até com uma grande diferença de anos, pelo que surgem repetidos, acontecendo mudar de morada entre as duas prisões.
Se hierarquizarmos as freguesias pelo número de processos existentes, temos quatro que se destacam das restantes 14, a saber: o Sabugal a grande distância com 71 (54,2%), seguida do Soito com 13 (9,9%), de Alfaiates com 11 (8,4%) e da Aldeia da Ponte com 10 (7,6%).
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Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
Exmºs Senhores,

Associo-me a todos os cidadãos que têm demonstrado a sua preocupação pela colocação no prédio V propriedade, da placa, em lugar e de forma bem visível, respeitante à identificação do prédio como o local da sede da antiga polícia política, assinalando, para além desse facto, os acontecimentos ali ocorridos no 25 de Abril.

É o mínimo para respeitar a memória dos resistentes que por ali passaram e dos que morreram ao celebrar a Liberdade.
José Vera Jardim

  
Exmos. Senhores,

Junto-me aos inúmeros cidadãos indignados pela vossa atitude de procurar, embora de uma forma fugidia e digna de Tartufo, esconder a placa de homenagem às últimas vítimas da PIDE.
A vossa empresa sentir-se-à, talvez, temerosa de que a exibição desse lembrete dos tempos pesados da ditadura prejudique a a sua imagem; não seria o caso, uma vez que julgo muito difícil associar o vosso aos nomes das vítimas dos estertores do fascismo moribundo. Pelo contrário, a divulgação pública da vossa rasteira tentativa e da eventual recusa em a corrigir é que redundarão em desprestígio.
Exorto-vos, por isso, a recolocar a placa em local bem visível e digno da memória que teimamos em preservar.
António Russo Dias
Diplomata

Em período de comemoração… outras vozes, outras repúblicas…

   

   Milton Nascimento / Fernando Brant

   

Este post foi publicado originalmente no blogue do Centro Nacional de Cultura, em 19/1/2009.

   
«Lusitania, Quo Vadis?». Foi este o título de um ciclo de conferências organizado pelo Centro Nacional de Cultura em Março de 1969. Nenhuma pergunta poderia exprimir tão bem o que nos perguntávamos a nós próprios no final dos anos 60.

O Centro Nacional de Cultura era um das peças de um complicado puzzle que constituía então a oposição ao salazarismo e, em 1968-1969, foi dirigido por um grupo de pessoas a que pertenci. Mais concretamente, em 27 de Novembro de 1968, realizaram­­-se eleições para os corpos gerentes e, para além de José Manuel Galvão Teles (presidente) e de mim própria (vice-presidente), passaram a fazer parte da Direcção: Teresa Amado, Manuel Moita, Sebastião José de Carvalho, António Reis e Nuno Portas. Éramos todos muito jovens, católicos ou já ex­‑católicos. À Mesa da Assembleia Geral presidiu Henrique Martins de Carvalho, tendo com vogais Gonçalo Ribeiro Teles e Augusto Ferreira do Amaral e o Conselho Fiscal ficou constituído por José Ribeiro dos Santos, Francisco de Sousa Tavares e Francisco Lino Neto. A Direcção reflectia uma renovação total, a continuidade era assegurada nos outros corpos gerentes.

A nova Direcção começou imediatamente a organizar debates e reuniões na sede do Centro e procurou angariar fundos e novos sócios.

Entretanto, a oposição pensava já nas eleições legislativas do ano seguinte. Em 20 de Janeiro de 1969, foi criada a Comissão Promotora de Voto, por carta enviada ao Presidente do Conselho e, entre os quarenta e três subscritores, seis eram membros dos corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura.

Era importante tirar partido de todas as ocasiões de debate, tão alargado quanto os condicionalismos o fossem permitindo. O Centro planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas em Março de 1969, sob o tal nome genérico de «Lusitania, Quo Vadis?». Política Económica, Acção Cultural e Perspectivas Políticas foram os grandes temas escolhidos, a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes o local conseguido para a realização.

Embora se previsse uma grande afluência de participantes – o que, de facto, aconteceu –, foi decidido evitar o modelo clássico, e já explorado até à exaustão, de «conferência, seguida de debate» e adoptar um formato relativamente informal: para cada uma das sessões, foi previsto um painel com duas pessoas encarregadas de formular perguntas e três que tinham a missão de lhes responder. Foi elaborado e divulgado o seguinte programa, recheado de nomes sonantes:
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   (Clicar para ler)

   
Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965, não sei exactamente que horas eram, talvez umas 7 da manhã, bateram à porta de casa. Era a casa de meus pais.

Tinha-me deitado tarde, depois de uma reunião da minha célula para, entre outrtas coisas, fazer um ponto de situação depois das prisões, em Dezembro, do funcionário do partido (PCP) que controlava o sector universitário e do seu contacto. O funcionário dava pelo nome de Nuno Álvares Pereira. Exactamente, é isso mesmo, o nome do Condestável. Funcionário que eu conhecia perfeitamente pois estivera escondido em minha casa, ainda a dos meus pais, apesar de eu dever ignorar a sua identidade e função pois estava uns furos abaixo dele na organização. Nessa reunião recebera a última edição de O Militante. Chegado a casa, coloquei-o na gaveta da mesa de cabeceira, por baixo dos lenços e das meias.

Naquela madrugada, bateram à porta uma primeira vez. Não para minha casa, mas para o rés-do-chão, one habitava a senhoria, uma senhora de ar severo e de poucos amigos. A senhora sabia perfeitamente quem morava no primeiro andar, isto é, sabia que eram pessoas que não eram afectas ao regime. Foi à janela e quando lhe disseram que era para o primeiro andar, apercebeu-se de quem era, recusou-se a abrir a porta e disse para tocarem para cima. A porta da rua destrancava-se à noite e só se abria por dentro ou com chave, por fora. Algum alvoroço na escada do prédio, a senhora avisa a minha mãe, que entretanto fora à janela saber quem batera. Vem para dentro, vai ao meu quarto e avisa-me. Levanto-me e enquanto a minha mãe desce as escadas, vou ao escritório do meu Pai e retiro alguns livros incrimanatórios que meto dentro da cama. Volto-me a deitar e, logo a seguir, entra a PIDE pela porta dentro. Identificam-me e dizem para me levantar porque tinha de os acompanhar. Um passa revista à casa nos locais do costume, autoclismo, cimo dos móveis, debaixo das camas, escritório, etc. Sinto-me feliz e seguro por os livros estarem a recato. Enganei-os, penso. Levanto-me afastando a roupa da cama com o à-vontade suficiente para não provocar desconfiança, mas com o cuidado necessário para não desvendar o esconderijo. A felicidade durou muito pouco tempo, pois o outro PIDE que ficara no quarto fora direito à mesa de cabeceira. Só quando ele diz qualquer coisa como “Pois é, pois é, isto é uma chatice” é que caí em mim e vi que me tinha esquecido da peça mais incriminatória que se podia ter. É que com o Avante, podia-se ser só simpatizante e até dar a “explicação” que tinha sido posto na caixa do correio. Mas com O Militante não havia volta a dar, pois só era distribuido a quem pertencia ao Partido. E lá fui, de táxi, para a António Maria Cardoso, na altura já “condomínio privado”. Da PIDE. Formalidades da identificação, barulho constante de abrir e fechar de portas, movimento pelos corredores. Terão prendido mais alguém, interrogo-me. Julgo que ao fim da manhã, sou levado por uma porta das traseiras, em frente à entrada do Hospital da Ordem Terceira, para uma das tristemente famosas carrinhas Mercedes azul escuro que me levaria ao Aljube. Despojam-me de tudo, relógio, cinto, atacadores, óculos, etc. e depositam-me num “curro”. Onde permaneci por mais 44 dias, em total isolamento.

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Recebemos a seguinte carta do Núcleo em Lisboa do PT [Partido da Terra]

Por favor divulguem.
Eu estava lá e acho que são uns covarde que não aceitam a democracia e nossos heróis como Carlos Marighela.

   
Companheir@s

Ontem, dia 15 de janeiro de 2010, houve uma ameaça de bomba no prédio da Caixa Cultural, no centro do Rio de Janeiro, durante um evento em homenagem à Marighella e aos combatentes mortos/desaparecidos durante a ditadura militar.

O evento foi organizado pelos respectivos grupos: Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, Marighella Vive e Exposição Marighella. O ato teve início com a exibição do filme do Sylvio Tendeler sobre Marighella, seguido de debate. Em seguida, seria iniciada uma homenagem aos companheiros que tombaram à época da ditadura, quando chegou o aviso para todos deixarem o recinto, (eram mais de 100 pessoas), porque a administração do prédio recebeu um comunicado que haviam colocado uma bomba no local.

A maioria dos presentes permaneceu por algum tempo no auditório para assistir a entrega de diplomas as famílias de alguns militantes: Sônia (neta de Cléia Moraes) recebeu em nome da família a homenagem à Sônia Moraes Angel Jones; Zilda Xavier por seus filhos Yuri e Alex Xavier; Ana Müller em nome da família de Mário Alves; Victória Grabois por seu pai Maurício Grabois,seu irmão André Grabois e seu marido Gilberto Olímpio.

Companheir@s a ameaça que nos fizeram é muito grave, temos que divulgar o ocorrido e denunciar esta atitude fascista para todos os órgãos de governo, sindicatos, entidades da sociedade civil organizada, etc.
Aqueles que tiverem contato com jornalistas devem procurá-los para divulgar este ato indecoroso contra a democracia.
O Globo emitiu uma notinha na seção de Notas – pág 13, muito incipiente.

Saudações fraternais,
Victória Grabois

   
P.S. – A curta notícia em O Globo

Quem foi Carlos Marighella.

Por ocasião de mais um aniversário da morte de Amílcar Cabral.

 
Aqui, «Amílcar Cabral» pelo grupo Korda Skrabu Kauguiamo

Um vídeo com declarações de Amílcar Cabral. Clique na barra:

retrouver ce média sur www.ina.fr

ou ver excertos legendados em português aqui.

 
Crónica publicada no jornal Público em Janeiro de 1993:

Para a gente que, no início dos anos 60, frequentava a Casa de Estudantes do Império – e, depois do seu fim, se refugiou nos cafés mais próximos, como a Mimo ou o Rialva, o nome de Amílcar Cabral surgia como quase mitológico. Talvez por isso, pelas conversas e histórias em seu redor, a sua morte causou-me, não só a natural indignação perante o assassínio de um grande dirigente, mas também a mágoa de quem perde um amigo que não chegou a conhecer. Por tudo isso, Amílcar Cabral e os factos do 20 de Janeiro surgiam, naturalmente, sempre que falava com gente que com ele se tinha cruzado, no PAIGC. Dessas conversas se tece este relato:

“Quando o conheci, numa casa da Rua Actor Vale, em Lisboa, não o associei a esse Amílcar Cabral de cujo trabalho na Guiné já tínhamos ouvido os ecos. O engenheiro que me apresentaram não parecia capaz de fazer nada disso…”

Ana Maria Cabral riu-se, quando me contou esta história, em Cabo Verde, há já alguns anos. Ri-me também: porque já ouvira comentários semelhantes, mas também porque talvez fosse essa qualidade, fazer sem tornar evidente que fazia, que lhe tivesse permitido estar entre a escassa dezena e meia de guineenses a ascender a um curso superior, em Portugal. Talvez fosse ainda essa qualidade que lhe permitiu, durante dois anos, correr a Guiné de lé a lés, na sua qualidade de agrónomo: fazendo um trabalho científico (que seria depois publicado pela Imprensa Nacional), mas também adquirindo um conhecimento que esteve na base da luta vitorosa do PAIGC, semeando ideias, cultivando cumplicidades. Até que finalmente o disfarce caíu e foi proibido de permanecer na terra natal, onde só era autorizado a entrar uma vez por ano, para uma curta visita a sua mãe.

Nessa altura tinha já uma ideia muito clara sobre os problemas que levantaria, à luta de libertação, a existência de múltiplas etnias, sem laços entre si. Mas dizia: “É com esta gente, como ela é, que temos de fazer a luta. Será a própria luta que os fará avançar.” Conseguiu assim que os Balantas, depois de combaterem no seu próprio terreno, admitissem ir dar uma mão aos Fulas, no chão destes. Tal como deixou que fosse a prática a combater as superstições: “Se um chefe está tão carregado de amuletos que pecisa de carregadores para o ajudar a transportá-los e, por isso, não se precipita para o abrigo em caso de bombardeamento e morre, e outro sem amuletos, que está no abrigo, escapa, as pessas começam a perceber que é o abrigo o melhor dos amuletos…”

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