homem com mala

Nota: O episódio que se segue, embora possa parecer inacreditável, foi-me contado por duas fontes diferentes, ambas credíveis, e em tempos diferentes.
A cortesã amiga

Em tempos de resistência não se limpam armas e há que deitar mão a todas as possibilidades para se escapar à prisão ou, pelo menos, para esconder à polícia o maior número de provas possível.

Todos os que andaram nestas andanças conhecem muitos dos truques que se engendra-vam para esconder documentos comprometedores: do autoclismo ao colchão, do interior de um livro colocado por trás de outros numa prateleira da estante à arca no sótão, às vezes na casa de um amigo insuspeito ou de um parente na província. Se a imaginação dos resistentes tinha que ser muita, a da polícia não lhe ficava atrás e, de um modo geral, acabava por ir direitinha aos esconderijos. Mas, nem sempre.

Estamos em meados dos anos sessenta, talvez 1964, quando este episódio, a roçar o inacreditável, se passa. Um companheiro que morava ali para as avenidas novas, começou a desconfiar que a sua casa estava a ser vigiada. Como, semanas antes, havia sido preso um outro com quem ele mantinha ligações conspirativas, receou que ele tivesse falado na polícia. A situação adensa-se qundo recebe a informação de que o melhor era limpar a casa e preparar-se para o pior, ou seja, a prisão. Dirige-se para casa e verifica que a vigilância tinha sido reforçada. A prisão está eminente. Sobe no elevador, entra em casa e mete a papelada conspirativa e alguns livros numa pequena mala de viagem, tendo tido o bom senso de não queimar nada na sanita: os restos queimados ficam sempre à tona. Mas sabe que não pode sair com a mala.

No andar de baixo morava uma senhora de idade balsaquiana, com muito boa presença e simpática, com quem ele já se cruzara por várias vezes. Como se dizia então, a senhora «recebia», embora sempre com a maior discrição. Era uma cortesã. O nosso amigo, com a polícia à perna e não vendo outra alternativa, corre o risco de bater à porta da senhora, contar-lhe o que se passava e pedir-lhe para guardar a mala. A senhora manda-o entrar, fecha a porta e, espante-se, diz que ali é que ela ficaria bem guardada, que a  punha debaixo da cama. Ainda mal refeito da surpresa da sorte, regressa a casa. Passados alguns minutos a PIDE esta lá, passa revista e leva-o preso. A prisão não durou mais do que uma semana. A PIDE não tinha grandes provas até porque o companheiro anteriormente preso não falara nele. Foi o que se chamava «andar à pesca».

Regressado a casa, aguardou uns dias até ganhar coragem para ir bater à porta da senhora. Quando o viu, a nossa boa dama diz-lhe «Entre, entre, a sua malinha continua aqui, debaixo da cama». Quando ele se debruça para puxar a mala, remata ela «Aqui é que ela estava mesmo bem guardada», e em voz mais baixa quase sussurante, «porque um dos que vem cá a casa é da PIDE!»

O episódio termina aqui, o resto da história não, mas também não é para aqui chamado.

Poderia ter sido de outro modo se em Portugal houvesse burguesia forte, coisa que não havia nem há. E não vou ser eu a lamentá-lo.

João Martins Pereira

Há livros que, antes mesmo de serem lidos ou sequer folheados, só pelo título, parecem prometer descobertas que estranhamente nos atraem e inquietam. Um pouco como se deles esperássemos uma revelação e ao mesmo tempo temêssemos que essa tão alta expectativa não resistisse aos primeiros minutos de leitura. Nessa incerteza vivemos algum tempo, alimentado de uma calma tensão que afinal nos prepara para o momento da verdade, do qual surja algo de decisivo que só pode ser a decepção ou o deslumbramento. No Reino dos Falsos Avestruzes é, para mim, um desses livros, cujo título improvável e algo misterioso foi a antecâmara para os momentos de prazer anunciados (e plenamente alcançados) da sua leitura.

George Steiner fala de livros que são «presenças reais» e Eduardo Lourenço fala de alguns como «livros-acto», e para mim estamos perante um desses casos. JMP joga-se inteiro nesta obra de balanço de um percurso individual e colectivo profundamente enlaçados, que tendo como cenário e horizonte o Portugal pós-revolucionário, é também uma lúcida e implacável auto-reflexão geracional e pessoal: «julgo que alguém irá detectar neste livro um sem número de ajustes de contas – e com isso ‘lavar daí as suas mãos’. É claro que haverá nisso alguma razão, certo como é que começo por ajustar algumas contas comigo próprio. Julgo mesmo conveniente acentuar que, por muito que pareça estar a falar de outros são inúmeras as vezes que me auto-retratei sem excessiva piedade» (p.9/10).

Na verdade, sem excessiva piedade, quer com a direita quer com a esquerda em que se filia, JMP regressa em 1984 (recorde-se que data de 1971 uma obra sua intitulada justamente Pensar Portugal Hoje) ao imenso filão que, genericamente e das mais variadas formas, reflecte a persistente e quase obsessiva questão da identidade nacional. Tema por demais abrangente e vago que tem servido para as mais fantásticas construções ideológicas as quais, em vez de fonte de auto-conhecimento, são antes formas de perpetuação de imagens distorcidas e falsas sobre a realidade nacional, o seu passado e o seu lugar no mundo de hoje. É a tão falada «imagologia portuguesa» de que Eduardo Lourenço faz o mais brilhante e certeiro diagnóstico, arriscando com a sua finíssima ironia (as mais das vezes tão mal compreendida!) a terapêutica da psicanálise colectiva.

JMP foi, parece-me, um dos muitos que leu com indisfarçável admiração esse fascinante Labirinto da Saudade, mas foi dos poucos que com ele dialogou, num confronto «corpo a corpo» com aquele que considera «o mais brilhante livro sobre a sociedade portuguesa publicado nos últimos anos» (p.16).

Incomodou-o visivelmente (e creio que um tanto precipitadamente se atendermos à tal ironia lourenceana) a sugestão de regressarmos todos ao divã de Freud…. Mas incomodou-o sobretudo a ideia, repetida até à exaustão, de que temos uma forte mitologia nacional, uma hiper-identidade, que nos defende de todos os acidentes da história, receita segura (quase milagrosa!) contra todas as crises. Porque, afinal, é a direita que tem aproveitado e mesmo explorado freneticamente esse verdadeiro balão de oxigénio para a sua sobrevivência quer antes quer depois do 25 de Abril.

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1000 anos Liceu Camões

Um texto de Cecília Cunha (*)

O que vos proponho é a leitura de um livro, Liceu de Camões. Cem Anos. Cem Testemunhos, título que nos chama, literal – como se verá.

Afinal dois títulos, dois painéis, dois autores, estes em estado de graça: José Luís Falcão de Vasconcellos dá-nos o essencial que a sua erudição autoriza e entramos na História e na Cidade. Comprova a colagem dum liceu a Cem Anos com memórias, tal como prefaciou António Nóvoa. Sarah Adamopoulos encarrega-se do fio condutor que integra cada testemunho e fala da escola na perspectiva dos que nela viveram ou por ela passaram.

Os cem anos são revistos num capítulo que é Das «Origens» aos «anos fundadores», e apresenta um manancial de informação, a partir de documentos e sua inscrição na diacronia. Por exemplo: a fotografia das crianças que plantam uma «árvore da liberdade» na Praça José Fontana, em 1910, transporta-nos para uma época e para um ambiente, poucos meses antes da Revolução Republicana. Já construído, o Lyceu Camões sofreu danos originados pelos violentos combates entre republicanos e monárquicos – «Numa relação nominal dos credores do Estado (…) por despesas efectuadas no mês de Novembro de 1910 pode ler-se:”A José Passos Mesquita, pelas reparações feitas nas salas d’este lyceu provenientes dos estragos causados nos dias 4 e 5 de Outubro,……….36 400 (réis)”.» (páginas 40-41).

O leitor apreende todos os factores que confluíram para o aparecimento do edifício de Ventura Terra. Tem a apoiá-lo uma excelente cronologia e é-lhe permitido reconhecer o aparecimento do edifício no contexto duma época de transição política, mas de aposta na instrução pública. O capítulo contém uma escrita de sabor original e sustentada por estilo sóbrio. Muito recomendável e à disposição de vários tipos de leitores.

Sarah Adamopoulos apresenta-nos 100 anos/100 testemunhos, visões da escola ao longo de um século. Capítulo sinalizado por uma fotografia tirada duma galeria para um dos dois pátios gémeos, marca para uma abordagem mais «intimista». Atente-se, também, à fotografia da capa, imagem ilustrativa doutro ângulo do pátio, com um tronco de plátano no primeiro plano: qualquer um que tenha passado por aquela escola, reconhece o pátio e o significado dessa imagem. Ninguém fica indiferente, porém.

Os autores souberam criar um conjunto de efeitos, a começar pela consciência de uma comunidade dentro doutra(s) comunidade(s): podemos conhecer períodos e personagens notáveis, misturadas com os anónimos que foram professores, alunos e funcionários. As fotografias dos primeiros tempos ilustram a época anterior à ditadura – correm imagens, a par do texto, documentos preciosos que «as fadas e os duendes» trouxeram à luz do dia (e parafraseando a ideia que Margarida Sérvulo Correia nos trouxe, em plena sessão solene, no dia do centenário).

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Shmiel, Ester e a filha Bronia

As circunstâncias que determinaram Daniel Mendelshon a escrever Os Desaparecidos são relatadas: a sua parecença física com Shmiel Jäger, um tio-avô assassinado pelos alemães, juntamente com a mulher e as quatro filhas, na cidade polaca, hoje ucraniana, de Bolechow, provocava de imediato a consternação dos familiares mais velhos sempre que em criança lhes surgia à frente. Foi essa memória incómoda que o levou a procurar esclarecer o que acontecera. Descreve então os trabalhos e os dias na complexa perseguição desse objectivo. Conforme avançava na leitura, e como se de obra de ficção se tratasse, fui-me deixando levar por uma trama policial, comovi-me com os encontros e os desencontros, exasperei-me com certos desvios de percurso e algumas resistências. Mas vi-me também perante uma proposta de releitura circunstanciada da memória do Holocausto. Na realidade, esta obra é muito mais do que uma história dramática de família, representando uma meditação pessoal sobre o modo como o passado se esconde para vir subitamente ao nosso encontro.

Vencedor do National Book Critics Circle Award, escrito num registo intimista e sedutor, Os Desaparecidos revelam um autor envolvido numa sucessão de acasos e de circunstâncias que o impelem a ir cada vez mais longe. O trabalho de casa foi feito muito cedo – percorrendo bibliotecas e arquivos, consultando milhares de sítios na Internet, recuperando objectos e papéis preservados pela família – mas o objectivo foi materializado no terreno, percorrendo o planeta para entrevistar os sobreviventes que o ajudaram a recuperar a sua história. Estranhamente, estes foram bem mais do que seria de prever, e, apesar da passagem do tempo, quase todos pareciam conservar uma recordação vívida do mundo que haviam conhecido mais de seis décadas antes. Esta lembrança intensa introduziu um factor paradoxal: se é verdade que ela parece ampliar desmedidamente o volume de informação, evidencia também um dos problemas característicos da história oral, que se traduz na intromissão de uma nostalgia intensamente ficcional capaz de sobrepor a imprecisão à materialidade dos factos. Parte do trabalho de Mendelsohn consistiu, pois, na depuração de factores óbvios de fantasia e embelezamento do passado, arbitrando a inevitável tensão verificada entre o registo histórico e a evocação pessoal. No termo, como um investigador policial, o único na posse de todos os elementos do puzzle e com capacidade para separar o falso do verdadeiro, é no seu trabalho de interpretação e relato que reside a chave da trama que procurou.

Destaca-se ainda uma percepção impressionante: a de sermos lembrados ao longo da leitura, quando confrontados com os vestígios materiais do passado reencontrado – os papéis, as casas, as ruas, objectos, roupas –, de que o nosso presente é também feito de uma redução compassada ao silêncio dos milhões de pessoas que, como Shmiel e a sua família, foram privados para sempre de um futuro. «Não conseguimos tirar isso da nossa cabeça», escreve Mendelsohn. Por isso, e como uma redenção, se foi tornando cada vez mais importante para ele, não tanto o modo terrível como aquelas pessoas morreram – era esse o seu objectivo inicial – mas a forma como tinham vivido o tempo que lhes estivera destinado.

Daniel Mendelsohn, Os Desaparecidos. À procura de seis em seis milhões. Trad. de Margarida Santiago. D. Quixote, 552 págs. [Publicado na LER de Outubro]

guerra

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Porque é que naquele momento eu desisti de fazer uma coisa e fiz outra? O que comanda as nossas vidas? O que é que nos faz tomar uma decisão súbita num determinado segundo? O destino? O simples acaso?

O que me fez, naquele dia tórrido de 1973, decidir repentinamente não subir para a pesada Berliet atascada nas margens do rio Nango? A verdade é que cheguei a colocar a espingarda sobre a caixa e a pôr um pé na roda para subir. Lá em cima, o Gil, impante como de costume ao sol do meio-dia, mãos nas ancas, chamava-me: “Anda para aqui, daqui é que se vê bem.”

Não sei o que ele queria ver, a não ser a largueza da mata em redor, as clareiras de capim ressequido. Mas ele era assim: o cabelo loiro quase rapado, os olhos azuis que cintilavam, a boca fina num ricto de desafio e basófia. Ele adorava aquilo, adorava a jactância, o combate, a dureza e a glória da guerra. Era homem de poucas palavras e riso escarninho, que imprimia aos seus soldados um ritmo infernal e uma mística arrogante que apelava à mais masculina das auto-estimas, quase ascético de hábitos, despojado nas exigências diárias, admirador dos grandes feitos. Judeu beirão, idolatrava o general Moshe Dayan e a sua condução fulgurante da guerra dos Seis Dias: costumava encher o peito de ar, arrotar a cerveja e gargalhar tapando um olho com a mão espalmada: “O zarolho! O zarolho é que os topava a todos!”

Porque não ir também para cima da camioneta, juntar-me ao espectáculo? A tensão, o cansaço e o tédio das longas jornadas militares pedem por vezes gestos simbólicos que dêem algum sentido e alento ao que fazemos, nem que sejam de pura encenação. Não há nada de heróico em desatascar uma camioneta presa na lama, mas um pouco de basófia não faz mal a ninguém. Oferecer o peito às balas de algum atirador que andasse por ali era coisa que o Gil adorava fazer.

Mas de repente, resolvi não subir. Estava calor, e a água aquece nos cantis. Decidi que era mais interessante ir mergulhar o meu na corrente do Nango, de água leitosa mas fresca – uma espécie de frappé de campanha. E foi assim que retirei a G3 da caixa da Berliet e me fui agachar na orla do rio, dez metros ao lado.

Tínhamos saído de manhã de Nambude, dois pelotões sob o comando do Gil, como de costume ao raiar da aurora. A coluna mensal de reabastecimento vinha de Mocímboa da Praia, ofegando penosamente pela picada, a passo de homem, seguindo a vanguarda apeada de “picadores” em busca de minas. Como de costume, limparíamos a picada de eventuais engenhos, encontrá-la-íamos a meio do caminho e regressaríamos com ela a Nambude, já montados nos carros. Era a forma de se abreviar uma jornada de apenas 40 quilómetros mas que, naquele caminho aberto na mata, por vezes nada mais que rodados lamacentos, chegava a durar um dia inteiro.

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A caminho do Gulag

No Público de 13 de Novembro de 2009.

Tal como tem acontecido com a tentativa de reexame do Holocausto, decorrem processos de revisionismo histórico da experiência do Gulag que tendem a reduzir o seu papel na edificação da sociedade soviética ou a requalificá-la como opção politicamente válida. Emergem em parte da historiografia e do actual sistema educativo do Estado russo, determinados a justificar perante as novas gerações o uso da violência na construção de uma política centralista e imperial «eficaz». Em The Future of Nostalgia, Svetlana Boym fala de incentivos a uma «megalomania da imaginação» que na Rússia actual se tem servido das dificuldades diárias vividas pelas pessoas comuns para estimular uma revisão heróica e gratificante do passado. Mas estas releituras provêem também dos sectores políticos, próximos ainda da matriz leninista, que conservam uma atracção reverente pelo antigo «país do futuro radioso». Há cerca de uma década, o debate público em torno do controverso Livro Negro do Comunismo terá contribuído para estimular esta via branqueadora e justificativa da violência totalitária.

Entre nós, muito mais relevantes do que o caso recente da jovem deputada do PCP que declarou não ter ideias sobre o assunto, ou das afirmações de militantes que dizem ou escrevem aquilo que o instinto gregário e a ignorância determinam, são as declarações de pessoas com reais responsabilidades políticas que se esforçam por limpar da memória ou por desculpabilizar os horrores praticados no sistema concentracionário do «socialismo real». O texto de opinião de António Vilarigues que saiu no Público de 30 de Outubro serve de indicador. Ele contesta os números excessivos apresentados por muitos historiadores para contabilizarem as vítimas do Gulag, o que merece alguma atenção. Mas toca o inaceitável quando se permite comparar o número das pessoas «reprimidas» na antiga União Soviética (as significativas aspas são da sua responsabilidade) com o volume de detidos de delito comum actualmente nas prisões americanas, comparando aquilo que não pode ser comparado e criminalizando quem foi deportado e perseguido apenas por motivos políticos ou étnicos.

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Soldado ferido

Nas «eleições» de 1969, a guerra colonial, então particularmente acesa em Moçambique e na Guiné, foi o principal separador das posições das duas agregações oposicionistas – a CDE reproduzia o posicionamento do PCP e apostava forte na denúncia máxima e possível da guerra colonial com partido implícito pelos movimentos de libertação; a CEUD evitava referir o tema e quando este era incontornável procurava um posicionamento não radical sobre a guerra e punha em cima da mesa a quimera retórica de defesa de «autonomias». Nas «eleições» seguintes, as de 1973, já a oposição se apresentou unificada e o posicionamento acerca da guerra colonial, entretanto agravada, retomou o essencial das posições da CDE de 1969.

A guerra colonial era, para o regime, a grande questão política tabu. Caetano, por convicção e pela pressão dos ultras nacional-colonialistas entrincheirados atrás do Presidente Tomás, continuava o dogma-mito herdado de Salazar: «não discutir o Ultramar», continuar a guerra. Então, colocar sequer a questão da guerra colonial, discutindo saídas para ela, mesmo que tímidas, configurava uma traição à pátria. Tal não era sequer permitido durante as «campanhas eleitorais» (se tal fosse feito, e normalmente era-o no último discurso, o representante das «autoridades» intervinha e fazia terminar a sessão, a que se seguia, por regra, uma carga policial). Mas Caetano não só prosseguiu a guerra colonial, como o fez recorrendo a «operações sujas» e outras em larga escala perante o progressivo agravamento das situações militares em Moçambique e na Guiné, gerando uma dinâmica de «tudo ou nada». E, nesta via, aprofundou-se a «fusão», na máquina de guerra colonial, entre a polícia política (PIDE) e o exército colonial. Logo no início de 1969, pouco tempo depois de Caetano suceder a Salazar, o então líder da Frelimo (Moçambique), Mondlane, foi assassinado na Tanzânia através de uma encomenda-bomba, o que desencadeou não só uma crise na Frelimo como uma atribulada luta pela sucessão na liderança. E, no ano seguinte, Kaulza de Arriaga (comandante-chefe) montou uma das operações militares mais gigantescas e recheadas em meios humanos e militares ocorridas na guerra colonial, a operação «nó górdio».  Em resultado final, a Frelimo expandiu a sua área de intervenção guerrilheira em Moçambique. Na Guiné, Caetano deu luz verde a Spínola e à PIDE para uma das mais vastas e custosas operações de tentativa de aliciar e corromper uma das frentes do PAIGC, ocorridas no norte no «chão manjaco», e que terminou em Abril de 1970 quando os guerrilheiros atraíram a uma cilada um grupo de elite dos oficiais do exército português, massacrando-o. Spínola e a PIDE, com o acordo prévio de Caetano, reagiram no final de 1970 através de uma operação com grandes meios («mar verde») de invasão da Guiné-Conacry e que tinha, entre os objectivos, assassinar o Presidente deste país (Sekou Touré) e colocar um «partido amigo» no poder, assassinar Amílcar Cabral e o núcleo dirigente do PAIGC (sediado em Conacry), destruir a força aérea e a frota naval guineense, libertar os prisioneiros militares portugueses. Só o último objectivo foi alcançado (mas a troco de um número ainda maior de «comandos africanos» deixados no terreno e posteriormente fuzilados). Em 1973, como culminar de uma operação de infiltração da PIDE, foi conseguido o velho objectivo de assassinar Amílcar Cabral. A este desaire, a perda do seu líder carismático, o PAIGC respondeu, através de novo e sofisticado armamento, com a prática neutralização do domínio do espaço aéreo pelo exército colonial e declarar a independência unilateral da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecida por dezenas de países membros da ONU.

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capa história

Pré-publicação de um excerto do artigo A ocupação da sede da PIDE/DGS em 1974, de Luísa Tiago de Oliveira e Isabel Gorjão Santos, incluído no próximo número da revista «Ler história».

 
«Num contexto geralmente marcado por uma forte pressão da população que ocupava as ruas próximas, a tomada da sede da PIDE/DGS foi o culminar de um trajecto com várias etapas. Primeiro, na manhã de dia 25, a operação inicial dos fuzileiros, mal sucedida. Depois, o cerco mantido sobretudo por forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, cujos efectivos orçavam pelos 100 homens. Em seguida, o substancial reforço de 230 fuzileiros, organizados em duas forças, uma das quais já lá havia estado. Finalmente, a ocupação e rendição da PIDE/DGS.

No momento libertador, na manhã do dia 26, são indiscutíveis as presenças de Costa Correia, oficial de Marinha, pelo menos à frente de 230 fuzileiros, bem como de Campos Andrada, oficial de Cavalaria do Exército, às ordens de Spínola, também de Cavalaria, munido da autoridade emanada do general mas sem efectivos militares próprios. As presenças destes militares e os seus modos de acção bem como a memória que transmitem são significativas das contradições que caracterizaram este momento, das tensões entre ramos das Forças Armadas, entre correntes políticas e personalidades, nomeadamente entre sectores do Exército e da Marinha, entre spinolistas e não-spinolistas.

Através da descrição densa destes eventos, é possível perceber como, em tempos de grande aceleração da História (como o 25 de Abril e os processos revolucionários), se cruzam acções previstas para grupos organizados com outras desencadeadas por decisões pessoais, não programadas, ou com movimentações espontâneas, entrelaçando-se projectos amadurecidos com circunstâncias imponderáveis. Ao estudá-las, pode-se entender como os homens lidam com as “janelas de oportunidades” e quais os riscos que correm em momentos em que ainda não se sabe quem vai vencer. No fundo, trata-se de tentar perceber aquilo por que os homens agem e como o fazem, o grande propósito da História.»

Berlin Wall

Faz agora 20 anos a notícia abalava o mundo e deixava todos estupefactos. Não é que não se percebesse já, e desde pelo menos há dois ou três anos que o “campo socialista”, o “socialismo real”, o regime que abarcava um terço da humanidade e mudara grande parte do mundo nos últimos 70 anos tinha os dias contados. Pelo menos tal como tinha sido até ali. Em que se transformaria, e como se transformaria, isso era ainda uma incógnita. Mas nesse dia 9 de Novembro de 1989 o Muro de Berlim caía. Dois milhões de cidadãos do outro lado do mundo viriam nos três dias seguintes ver os brilhos do capitalismo, as infindáveis variedades de produtos dos supermercados, as faiscantes montras Vuitton, os reluzentes Mercedes.

A queda do muro de Berlim, todos tinham percebido, era um sinal. O símbolo e a antecipação de que tudo aquilo que estava lá para oriente poderia vir, mais depressa do que se pensara, por aí abaixo. E talvez sem armas nucleares, sem tanques nem canhões. Pelo menos em grande número e sem demasiado sangue.

Como reagiu o principal adepto e suporte ideológico do regime comunista da RDA, na sua forma mais pura e dura, o PCP e Álvaro Cunhal?

O Secretário-Geral do Partido Comunista Português tinha passado o dia encafuado numa sala que então abrigava o Cinema Universal, na Rua da Beneficência, a duzentos metros da sua casa, a sede do CC, na Soeiro Pereira Gomes. Decorria lá uma reunião magna da Juventude Comunista Portuguesa, a JCP, uma assembleia, um congresso, qualquer coisa com uma dimensão menor e a minguar, que não podia fazer história nem sequer para a pequena história do “Partido”. À saída Cunhal tinha um batalhão de jornalistas que lhe apontaram à cara uma parafernália de microfones, objectivas, gravadores e máquinas de filmar. Não adivinho que terá pensado Álvaro Cunhal. Que os media estavam a dar tanta importância à reunião quanto ele? A dúvida, se houve, foi um momento porque o que lhe atiraram com perguntas foi o muro. O muro de Berlim. Aí Cunhal não gostou e não teve tempo de medir , em segundos, o alcance de tal queda . Prenúncio do desmoronamento do comunismo, coisa que não admitia, nem admitiu depois, mesmo contra a realidade dos factos. Aliás, desde há algum tempo que deixara de dar importância aos factos e à realidade que teimosamente contrariavam o que estava escrito. Tanto pior para eles e para ela. De modo que insurgiu-se contra os jornalistas e contra o disparate de perguntas daquelas, sensacionalistas e provocatórias, quando ele “acabava de sair de uma magnífica reunião da JCP onde foram tomadas importantíssimas decisões.”

O «grupo secreto»… era uma acusação sibilina que reboava pelos corredores da sede do CC do PCP, e designava uns quantos “camaradas”, inimigos internos, talvez ligados à CIA ou, ainda pior, ao PS e que, topem a tineta, dera-lhes para no comité central e noutras reuniões menores contrariar a justa orientação do partido.

As vítimas (muito pouco vítimas) da vã e tola atitude de querer impor na actividade mesma do “Partido” discussão livre por células, pela imprensa, por congressos e outras leviandades, as vítimas – dizia eu – deram a acusação por boa e falavam entre si “olha lá pá vamos mas é reunir o grupo secreto e comemorar a queda do muro com um jantar na Varina da Madragoa”.
E agora mesmo lembrámo-nos… e se fossemos comemorar os 20 anos da queda do Muro à Varina? Dito e feito. Lá iremos. Mas não todos porque José Barros Moura e António Graça, já não podem estar presentes. A não ser na nossa saudade.

Untitled-1Comunicação apresentada no dia 31 de Outubro no colóquio «As eleições de 1969 e as oposições. 40 anos depois», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

1. Esta intervenção procura relatar o modo como as eleições foram perspectivadas pelo ambiente político-ideológico que se costuma chamar de «esquerda radical» ou «extrema-esquerda». Note-se, antes de mais, que este campo plural ainda se encontrava em processo de definição e estruturação nessa altura. Fazendo uma leitura algo esquemática da sua evolução, diríamos que em 1968 e 1969 se está na antecâmara de uma segunda fase. Se três ou quatro anos depois já existirá um conjunto vasto e hiper-ramificado de grupos maoístas, trotskistas, guerrilheiristas e socialistas de esquerda, uma boa parte destas futuras organizações ainda se encontrava em estado embrionário ou latente na altura em que o Estado Novo promove as suas eleições para a Assembleia Nacional.

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botswana

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, neste site da BBC, fotografias e resumo histórico de doze muros ainda existentes no mundo.

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Fotografias e pequenos vídeos, enter os quais um com um excerto do discurso de J.F.Kennedy, em 26/6/1963, com a frase que ficou célebre: «Ich bin ein Berliner».

Gazeta, Novembro 2009

Amigos de João Martins Pereira juntam-se na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um ano depois da sua morte, na sexta-feira 13 de Novembro às 21h30.
(A Casa da Achada fica na Rua da Achada nº 11 -ver localização aqui.)

* Notas biográficas de João Martins Pereira

(Clique aqui para ler a primeira página da Gazeta, Novembro de 2009.)

muro berlim

Estamos à beira dos vinte anos passados desde a queda do Muro. Esse Muro que foi o símbolo maior, um autêntico ícone, da separação radical de dois mundos, dos pontos de vista político, ideológico e social, em permanente confronto até à vitória de um sobre o outro, um desfecho de antagonismos herdados de 1917 e há muito anunciado que alimentou medos de décadas de que se iria «resolver» pela via da hecatombe nuclear e que, surpreendendo todos, se deu de uma forma instantânea e pacífica, porque o comunismo simplesmente tinha apodrecido (como aqui, em Portugal, acontecera ao fascismo de Caetano). Nesse momento histórico, o Muro, caindo, transmutou-se, por via da dinâmica dos símbolos, de emblema maior opositivo entre capitalismo democrático e comunismo totalitário para o sinal maior da vitória de um e falência do outro.

Nunca vi, ao vivo, o Muro que a maior parte das pessoas conhece através da imagem, o Muro odiado, conspurcado, repleto de graffitis obscenos, humorísticos ou artísticos, decorado com repulsa que ia do talento irónico até ao ódio, aquele Muro em que o ocidente cuspia na antítese comunista. Mas conheci, no princípio da década de 80, um outro Muro no lugar do mesmo Muro, um Muro limpo, sepulcral, bélico e emblemático da luta de classes, o Muro visto de Berlim-Leste, então capital da RDA. E ainda hoje, quando se fala do Muro, é esse Muro que remexe a minha memória. Em viagem turística, com dois casais metidos num velho Fiat 127 atafulhado de apetrechos campistas, todos militantes empenhados do PCP, ali estávamos, eu e os meus companheiros de viagem, após quatro mil quilómetros de estrada e calcorrearmos a Checoslováquia e a RDA, a olhar para a face comunista do Muro, o lado do mundo que Lenine iluminava. O percurso tinha sido feito até à Porta de Brandenburgo, onde o Muro apresentava uma espécie de «barriga», por uma zona em que raros eram os berlinenses que ali passeavam ou simplesmente circulavam, o meio envolvente era dissuasor, fortemente policiado e militarizado, a vista alcançava a «terra de ninguém» e, ao fundo, o Muro com a sua frieza de betão, um betão lívido a fazer de horizonte após ouriços de arame farpado numa faixa de terreno que se sabia minada. Entre espaços repetidos, elevavam-se as guaritas com guardas armados de kalash e binóculos. Por muito que isso me apetecesse, e na altura apetecia-me muito e acima de tudo, eu não conseguia encontrar naquela imagem gélida, bélica, desumanizada, petrificada a betão, a classe operária que eu tudo fazia por servir e seguir, as lutas dos trabalhadores, os gritos anticapitalistas contra a opressão, a igualdade e a fraternidade que procurei no comunismo, a camaradagem representada na vida do partido, a festa da festa do avante, o Cunhal contado a admiradores, seguidores e crédulos, muito menos amanhãs mesmo que afónicos. Mais que para fora, o Muro pareceu-me apontado para dentro, também para mim, comunista e internacionalista, marxista-leninista pois claro. E a visão do Muro, enquanto claustrofobia totalitária, reencontrei-a quando o vi de novo á minha beira estando sentado numa esplanada durante uma visita à beleza de Potsdam, perto de Berlim, dando-me a dimensão tentacular daquele polvo de betão. Apesar do choque, o Muro não me trouxe, então, indignação ou protesto. Simplesmente, engoli-o, por disciplina e fidelidade, como outros que ainda hoje andam enfartados com gulags e lubiankas a inchar-lhes o estômago transformado em sede de pensamento político e absorvedor de neurónios para serem corroídos pelo suco gástrico.

Hoje, quando vejo pedaços expostos do Muro que engoli em Berlim-Leste há quase trinta anos atrás, graffitados como não o conheci, sinto-os como se tivessem saído de dentro de mim por via de vómitos, admirando-me com as dimensões daquilo que um ser humano, abdicando da inteligência e da lucidez, sobretudo do juízo sem amos, pagando o preço da tranquilidade de uma paz ideológica, é capaz de olhar sem ler na escrita do betão, o que petrifica ideais, sonhos e utopias.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

O seu ponto de vista em «20 años después del Muro la historia continua», hoje publicado no El País.

velho no muro de Berlim

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Era uma figura trágica e ao mesmo tempo grotesca. De boina e casacão coçados, cabelos brancos compridos, esbracejava de bengala na mão e vociferava sem cessar. A névoa gelada abafava-lhe os gritos dirigidos ao «outro lado». O velho soltava imprecações na direcção de Berlim-Leste, do alto de um palanque nas imediações da Friedrichstrasse. Por vezes calava-se e ficava de olhos fechados, braços abertos, como quem espera acolher alguém. Perdera o tino há anos, disseram-me, quando lhe mataram o filho que tentava fugir para o Ocidente, naquele mesmo local. E agora estava ali todos os dias, arengando a sua revolta enlouquecida.

Vi Berlim pela primeira vez nesse Inverno de 1977. Estava muito frio. O Muro tinha 16 anos, e era uma atracção turística. A plataforma no alto do qual se encontrava o velho louco era uma das várias que foram erguidas do lado de cá, e das quais se podia ver por cima do muro. Os autocarros de turistas paravam regularmente junto delas, despejando hordas tagarelas que subiam, excitadíssimas, para espreitar «o comunismo» ao vivo. Pouca coisa se via além de ruas desertas e casas cinzentas, para lá das fiadas de arame farpado e obstáculos da terra-de-ninguém. Mas isso só reforçava a ideia de que para lá do Muro era o Inferno, e os turistas voltavam a entrar nos autocarros consolados por terem nascido do lado certo. Alguns até choravam com a história do velho.

Em 1961, Kruschev dissera: «Vamos fazer um muro em Berlim, e o Ocidente vai ficar a olhar para ele como uma ovelha estúpida.» Tinha razão. Mas que poderia o Ocidente fazer, sem arriscar, julgava-se na altura, uma guerra medonha? A ovelha ficou a olhar e fez de Berlim uma espécie de montra do chamado «mundo livre», regada com o sangue de centenas de alemães apanhados pelo muro no lado errado à hora errada, cujos nomes estão gravados em cruzes que se perfilam acompanhadas de coroas de flores. Den Toten der Mauer. Aos mortos do Muro.

Um dos mortos fora o filho daquele velho tonto. Ele vira tudo, disseram-me, enquanto lhe gritava e estendia as mãos do lado de cá: o rapaz a correr desvairado, depois as rajadas, e o corpo que se abate como um boneco atirado ao chão. Como aconteceu a outros, ficou ali vários dias antes que o fossem buscar.

Não deve haver dor pior. Em Novembro de 1989, quando, a golpes de picareta, os alemães começaram a destruir o Muro, eu lembrei-me daquele velho cujo filho podia ter esperado 28 anos. Uma eternidade.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas.)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

Duas informações:

1 – No passado dia 3 de Abril, teve lugar no Auditório da Junta de Freguesia de São João de Brito, em Lisboa, uma sessão comemorativa da intervenção dos católicos na vida política portuguesa, na década de 50. Foi promovida pelo Fórum Abel Varzim e pelo Centro Nacional de Cultura e as comunicações apresentadas encontram-se recolhidas num documento intitulado «Católicos e Política» que pode ser consultado e copiado no portal do Fórum Abel Varzim.

2 – Pus agora online «Problemas da relação Igreja-Estado em Portugal». Trata-se de um documento que resultou de uma reunião de 75 pessoas ligadas aos cadernos GEDOC, realizada em Setembro de 1969 como contributo para a campanha das eleições legislativas de 1969, então em curso.
(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril de Coimbra)

Varlam ShalamovNascido em 1907 na cidade russa de Vologda, durante a juventude o escritor, poeta e jornalista Varlam Shalamov participou das actividades do grupo literário esquerdista LEF. Em Fevereiro de 1929, quando era estudante da Universidade de Moscovo, foi detido pela primeira vez sob a acusação de difundir o «testamento político» de Lenine. Tratava-se de uma das últimas cartas do dirigente bolchevique, na qual este apontava a necessidade de afastar Estaline do cargo de secretário-geral do Partido Comunista. Nos anos trinta, a difusão do documento, considerado apócrifo pelas autoridades, iria custar a vida a diversas pessoas. O escritor passou então cerca de três anos em campos de concentração nos Urais. Em 1937 foi novamente detido e enviado para a Sibéria Oriental, para Kolima, um dos mais mortais campos do Gulag. Primeiro como prisioneiro e depois como deportado, ali permaneceu até 1953. Seria completamente reabilitado em 1956, após o XX Congresso do PCUS. Os Contos de Kolima, de um dos quais se transcreve aqui um fragmento, foram escritos entre 1954 e 1973 com um cunho acentuadamente autobiográfico, mas só começaram a ser publicados em revistas e jornais literários nos anos da perestroika. Durante a vida, Shalamov apenas conseguiu publicar cinco colectâneas de poesia, tendo morrido sozinho, cego, surdo e sem meios pessoais em 1982.


Os homens surgiram do nada, uns atrás dos outros. À noite, um homem desconhecido deitava-se na minha tarim­ba, encostava-se ao meu ombro ossudo, transmitindo-me o seu calor – gotas de calor – recebendo o meu em troca. Havia noites em que nem sequer uma gota de calor chegava até mim através dos farrapos de um casaco, de um jaquetão acolchoado. E, de manhã, olhava para o vizinho como para um cadáver e ficava admirado quando via que o cadáver estava vivo, se levantava ao som dos gritos, se vestia e cum­pria obedientemente as ordens. Eu tinha muito pouco calor. Nos meus ossos restava muito pouca carne. Bastava apenas para ter raiva, o último dos sentimentos humanos. O último dos sentimentos humanos, o mais próximo dos ossos, não é a indiferença mas a raiva. O homem, que aparecia do nada, desaparecia de dia: na mina de carvão havia muitos sectores, e desaparecia para sempre. Não conheço as pessoas que dormiram ao meu lado. Nunca lhes fiz perguntas, não porque seguisse o provérbio árabe: não perguntes para que não te mintam. Era-me indiferente que me mentissem ou não, eu estava para além da verdade, para além da mentira. Sobre isto os criminosos têm um ditado severo, claro e gros­seiro, cheio de um desdém profundo para quem faz a per­gunta: se não acreditas, pensa que é um conto de fadas. Eu não perguntava e por isso não ouvia contos.

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Mário Brochado Coelho está a tentar reconstituir a história desta cooperativa, criada no Porto em 1966, e que teve um papel muito importante em tempos de ditadura, mas precisa que todos os que possam contribuir com «factos, documentos, fotografias, gravações, relatos e opiniões» o contactem o mais depressa possível (mbc@mail.telepac.pt).
 Aqui fica o pedido, com insistência para que seja atendido – é de um verdadeiro serviço público que se trata.

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É natural. Julgo que acontece o mesmo a todos. Perdemos a memória dos primeiros tempos da infância. Dessa fase, ficará um ou outro flash mas terá de ser algo muito marcante para resistir à erosão do tempo e à necessidade da nossa capacidade para memorizar expelir recordações e registos para receber outras, mais recentes. Qual a idade mais recuada em que nos recordamos de nós próprios? Exceptuando uma grande alegria ou um enorme desgosto de tempo mais infantil talvez seja a fase do início escolar e mesmo assim através de um ou outro breve episódio. O certo é que pouco me lembro dos meus primeiros anos de vida. Por isso, muitas vezes dei comigo a olhar as fotografias guardadas de quando era muito pequeno e perguntar-me: mas este sou (fui) eu? E nunca me conseguia rever na personagem retratada, ligando imagem e realidade vivida.

Entre as fotografias que guardaram de quando eu era criança, havia uma (não sei onde pára) que me despertava especial curiosidade. Teria os meus quatro anos. O ambiente do cenário era campestre, tinha uma flor na mão e usava um enorme chapéu de palha de adulto para me proteger do sol. O meu riso foi captado escancarado pelo fotógrafo e deve ter sido assim por cauda da novidade de ser retratado pois não me lembra outra qualquer fotografia minha em que estivesse tão risonho. Mirei e remirei essa fotografia vezes sem conta. Aquela foto era uma espécie de redenção da minha absoluta e persistente falta de fotogenia. Achei sempre que nela tinha ficado muito bem e que nunca tinha voltado a ser tão bonito. Melhor, ficou cá para mim a certeza de que, na altura da fotografia, foi a única vez em que a beleza foi generosa para com a minha figura tão vulgar quanto desinteressante. Mas havia mais, olhando-a, a minha atracção por aquela fotografia tinha ainda qualquer coisa de misterioso que me prendia a ela e que ia além do riso, da flor e do chapéu grande. Durante anos, volta e meia, vasculhava no álbum familiar à procura dela. Tornou-se uma obsessão. Havia algo que ou não batia certo ou então faltava ali.

Um dia, teria os meus catorze anos, percebi num instante o que me levava a perscrutar insistentemente o raio da foto. Desvendei o mistério num ápice. É que a fotografia estava excelente mas o fotógrafo tinha-me cortado os pés no enquadramento. Não entendi como é que estando eu tão bonito, o fotógrafo (o meu Tio Luís) tinha feito aquele enquadramento desajeitado e logo ele que se ufanava de ser mestre amador naquela arte. Resolvi exprimir a minha indignação e lavrei o meu protesto verbal. Mas o artista tinha as suas razões. O meu tio explicou-me que me enquadrara sem pés porque eu estava descalço por ainda não ter ganho estatuto social suficiente para calçar sapatos, sandálias ou chinelos que fosse e decidiu poupar-me a essa evidência da minha desqualificação social (só depois, arrancado aos meus pais e à minha aldeia de Trás-os-Montes, com a vinda para a cidade, onde se proibia circular-se descalço, entregue aos meus tios e pais substitutos, passei a ter direito a sapatos). Percebi a boa intenção mas achei mal que a vergonha (do fotógrafo, não a minha) tivesse impedido que a melhor de todas as minhas fotografias me mostrasse incompleto, sem direito aos meus pés.

 
(Texto revisto de um post publicado no blogue Água Lisa)

Feminismo

Um texto de Adriana Bebiano (*)

O feminismo permanece estranho, mesmo para a esquerda. Da sua história destacam-se muitas vezes os clichés, e das questões que são hoje objecto de lutas e debate interno pouco passa para o público em geral, para além das mediáticas «quotas» ou dos casos de «violência de género». Foi por isso particularmente importante que a Ágora: O Debate Peninsular tenha incluído na sua 10ª edição, que acaba de ter lugar aqui ai lado, em Cáceres, um curso de dois dias designado «A Agenda Feminista: Chegar e Ficar». A Ágora é um evento anual, da responsabilidade da Junta da Estremadura espanhola, que tem por objectivo promover o conhecimento mútuo e o intercâmbio entre Portugal e Espanha. Apesar de habitarem espaços contíguos e de terem um passado em larga medida partilhado, sob o franquismo e o salazarismo, como ficou claro das conferências inaugurais de Amelia Valcárcel e Manuela Tavares, as feministas de ambos os lados da fronteira têm vivido, até certo ponto, no desconhecimento mútuo, que procuram agora superar.

A convite das coordenadoras do curso, Joana Amaral Dias e Monserrat Boix, e perante um público sempre numeroso, um grupo de activistas, académicas, jornalistas e políticas portuguesas e espanholas debaterem, por vezes calorosamente, questões como a história comum, as novas tecnologias, a educação, as representações, a pobreza, a migração e a exclusão social das mulheres. Se a história e os problemas presentes atravessam a fronteira, há, no entanto, diferenças notáveis entre os dois lados, que resultam tanto de realidades como de posições teóricas e políticas diversas, as quais se fizeram sentir com grande impacto no decorrer do encontro.

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Desenho de Cláudia Santos Silva

(Desenho publicado originalmente em Blue Moleskin)

Biografia de Cláudia Santos Silva

Que mais não fosse pelo título, havia que o referir neste blogue. Trata-se de um filme que acaba de ser estreado em Espanha, da autoria de um belga, filho de exilados espanhóis. «Para devolver a dignidade às vítimas do fascismo», José Luis Peñafuerte levou três anos a fazer este primeiro grande documentário que será um importante instrumento ao serviço dos objectivos da Memória Histórica.

(Fonte)

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António Abreu enviou-nos o link para um longo testemunho que publicou no seu blogue – Como vivi as “eleições” de 1969 -, que agradecemos e entendemos útil divulgar.

Colóquio Tarrafal 2008

Este é o texto de uma comunicação feita em 29/10/2008, no Colóquio Internacional «Tarrafal: uma prisão, dois continentes».

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
Passa hoje mais um aniversário sobre a criação do Campo do Tarrafal e logo uma pergunta se coloca: tem sentido e actualidade recordar esta data? Como já alguém disse, «os que não são capazes de recordar o passado estão condenados a repeti-lo». Nós, não o queremos repetir, pelo contrário, diremos sempre «nunca mais, isto nunca devia ter acontecido» e propomo-nos reflectir neste colóquio sobre questões simples e incontornáveis, onde o homem, na angústia dramática de si próprio, se pergunta: O que se passou? Porque aconteceu? Como foi possível?

Na economia do pouco tempo de que disponho, queria telegraficamente dar conta duma curta investigação e reflexão que fiz sobre a realidade do Tarrafal, no sentido de a compreender e de hoje aqui a apresentar.

A deslocalização de seres humanos das suas regiões de origem ou local de residência tem antigas tradições nas figuras jurídicas do degredo ou do desterro, dando origem aos degredados ou desterrados e, num sentido mais amplo, já político, conforme os casos, aos expatriados, aos deportados, aos proscritos, aos banidos e até aos «desnaturalizados». Hoje, como se sabe, em linguagem já global, temos os combatentes inimigos do império do mal.

No campo restrito que nos traz a este colóquio, a deslocalização tem origem, desde logo, na pena de expulsão do reino, definida no art. 36 do Código Penal de 1852, importando a obrigação de o condenado sair do território português, com a proibição de a ele não voltar. Esta pena, na prática só aplicada a opositores políticos, aparecia com o significativo nome de pena de «desnaturalização» e consistia em remeter para outros países ou lugares os chamados maus cidadãos. Assim se criava a figura do apátrida.

É ainda o legislador do Código Penal de 1852 que fixa que a pena de morte é substituída pela pena fixa, de degredo, por vinte e oito anos, com prisão no lugar do degredo por oito a dez anos.

Em face dos protestos das colónias, o degredo foi proibido por Despacho do Ministro das Colónias, de 24 de Dezembro de 1931, e tomadas as providências que constam do decreto no 20 887, de 13 de Fevereiro de 1932.

Mas verdadeiramente o degredo foi, em definitivo abolido pela Lei Orgânica do Ultramar, de 1953 (Lei nº 2066, de 27 de Junho), que na sua base LXIX, III, estabelecia que a pena de degredo não se ordenará nem cumprirá mais nas províncias ultramarinas.

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De um comunicado do movimento «Não apaguem a Memória»:

«Quando, no ano passado, em 29 de Outubro, organizámos na Assembleia da República o colóquio internacional «Tarrafal uma prisão dois continentes», Edmundo Pedro propôs, com o apoio da direcção do NAM, que essa data fosse escolhida como o Dia da Memória dos Resistentes e das Vítimas da Ditadura. Esse foi, em 1936, o dia da abertura do campo de concentração do Tarrafal e da entrada nele do primeiro contingente de presos políticos idos de Portugal. 

Para lembrar aquele acontecimento histórico, e a luta contra a ditadura em geral, a direcção do NAM realizará, na Fundação Mário Soares (Rua de S. Bento em frente à Assembleia da República), na próxima 5ª feira, dia 29 de Outubro de 2009, às 21 horas, uma sessão com a apresentação do documentário «Há 70 anos, o Tarrafal», de Fernanda Paraíso, seguido de debate.

VereaçãoCML-IP091108

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
A vereação republicana de Lisboa em 1908

Após a ruptura com a monarquia, em Novembro de 1907, Braamcamp Freire justifica a sua adesão ao Partido Republicano, em declaração ao jornal O Mundo: «O que se tem passado enoja-me, mas não só me enoja: irrita-me, obriga-me a romper». Se com esta sua atitude incomodou os seus amigos monárquicos, pelo contrário, originou dezenas de cartas e telegramas de solidariedade da parte de figuras gradas do republicanismo: Afonso Costa, Manuel de Arriaga, João Chagas, José Relvas, Bernardino Machado, Alexandre Braga, Francisco Grandela, França Borges, Augusto Vasconcelos, Alves da Veiga.

Atentemos em alguns exemplos. Afonso Costa: «Saúdo entusiasticamente novo correligionário prestando homenagem seu carácter». França Borges: «Em nome do [jornal] Mundo, do meu, saúdo respeitosa e entusiasticamente V. Exª uma nobreza de ideias e sentimentos que não pode deixar indiferente um português que ama sinceramente o seu país e que antepõe a todas as considerações o ideal de uma pátria feliz: respeitada e servida por homens de grande bondade e provada inteligência!». Francisco Grandela: «Feliz país que tais filhos possui!». Um militar do 31 de Janeiros de 1891: «António José Carlos Silva Sargento demitido suspeita implicado revolta 31 de Janeiro Porto na impossibilidade felicitar V. Exª pessoalmente por estar bastante doente fá-lo por este meio fazendo votos que a vossa nobre atitude de carácter seja seguida por outros que há muito deviam estar no outro partido do povo e que trabalha para a emancipação do nosso infeliz país». Um cidadão anónimo de Grândola: «Espero que V. Exª não levará a mal que eu, um obscuro cidadão português, o felicite pelo seu procedimento altivo e nobreza de carácter em face do poder absoluto que actualmente oprime e vexa a nossa pátria».

Perante esta calorosa recepção republicana à adesão de Braamcamp Freire, não causou nenhuma admiração o facto de se ter candidatado às eleições municipais para a Câmara de Lisboa no ano seguinte. O desânimo e a desorganização impossibilitaram os monárquicos de sequer se submeterem a votos. A lista republicana, liderada pelo «cidadão Freire», ganhou naturalmente. Eis os nomes dos dez vereadores que o acompanharam nesta importante vitória dos republicanos, como se veria dali a dois anos: Francisco Grandela, Ventura Terra, Tomás Cabreira, Veríssimo de Almeida, José Miranda do Vale, Luís Filipe da Mata, Cardoso de Oliveira, Carlos Ferreira Alves, Cunha e Costa e Augusto José Vieira. Os nomes dos onze suplentes também incluíam republicanos proeminentes: Barros Queirós, Afonso de Lemos, Agostinho José Fortes, Nunes Loureiro, Dias Ferreira, Aurélio da Costa Ferreira, Pimentel Leão, Alberto Marques, Inácio Costa, Ramos Simões e Manuel Caetano Alves.

Claramente, o Partido Republicano apostava forte nesta candidatura. Se demonstrasse ter capacidade para governar bem a capital, também poderia ambicionar o governo do país.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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Por iniciativa da Câmara de Paris, realiza-se hoje em Madrid uma dupla homenagem: aos membros das Brigadas Internacionais que lutaram na Guerra Civil de Espanha e aos espanhóis que combateram os nazis durante a Segunda Guerra mundial.
As Brigadas integraram voluntários de 54 países, 10.000 dos quais franceses. Por outro lado, cerca de 8.000 espanhóis ajudaram a libertar Paris da ocupação nazi.

(Fonte)

dissidente  

Com atraso, verifiquei só agora que em Julho passado fez dez anos que faleceu o António Graça, funcionário clandestino do PCP durante muitos anos, torturado e preso durante seis anos pela PIDE, dirigente daquele partido e depois impulsionador de uma das mais importantes dissidências no PCP no final da década de 80. 

Sobre António Graça, transcrevem-se duas evocações. A primeira é da autoria de Raimundo Narciso: 

«O António Graça era um dos quatro ou cinco membros do Comité Central que em 1987 e 1988 desenvolveu, naquele órgão do PCP, uma assinalável actividade crítica à linha política da direcção de Cunhal. Demitiu-se em 1991. Foi desde muito novo um destemido lutador contra a ditadura fascista e militante do PCP. Desenvolveu nos anos cinquenta e sessenta, como quadro clandestino do PCP, importante actividade política que o levou à prisão durante seis anos a partir de 1964. Submetido a torturas pela PIDE para denunciar companheiros, resistiu a tudo. Por isso, no PCP, pertencia à galeria dos heróis, até ao momento em que contestou as orientações e as práticas da direcção do partido. Foi um dos iniciadores do INES e da Plataforma de Esquerda. Não aderiu ao PS nem foi para a Política XXI. Defendia que os ex-comunistas deviam, com outros, criar um partido próprio. António Graça, foi membro do CC do PCP de 1979 a 1988, participou nos trabalhos da Comissão de Extinção da PIDE/DGS em 1974 e 75. Nos anos seguintes, foi responsável pelos serviços de informação do PCP. Era um quadro político com grande experiência, argúcia e uma prodigiosa memória. Faleceu com 60 anos, em 1 de Julho 1999. Era muito respeitado e estimado pelos seus companheiros políticos. Era meu amigo. Era teu amigo.» 

(depoimento incluído numa entrevista que Raimundo Narciso concedeu em Abril de 2004 ao blogue «Água Lisa».
 
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josé manuel tengarrinha

Em 2005, a Revista Seara Nova, então dirigida por Ulpiano Nascimento, publicou uma conversa com José Manuel Tengarrinha, um dos dirigentes que mais se destacaram na liderança da oposição democrática, em 1969 e 1973. Dessa longa conversa, em que o político e historiador reflecte e relata na primeira pessoa factos da resistência anti-fascista ao longo dos 48 anos da ditadura, transcrevemos a parte relativa ao movimento CDE.
 
 
Seara Nova – Em 1969, surge a Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Todos estes aspectos que já abordámos influenciaram a CDE?
José Manuel Tengarrinha – Daí a necessidade de compreender as características que a CDE tem em 1969. É evidente que é fortemente marcada pela queda política de Salazar e pela pretensa esperança na abertura do regime. Todos nós fomos embalados nessa esperança, embora uns mais que outros. Na nossa área, a esperança era limitada, mas a área socialista estava eufórica. Mário Soares, que tinha estado no exílio em São Tomé, foi amnistiado por Marcelo Caetano e regressou. Este facto é importante para se perceber o contexto em que nasce a CDE. Mário Soares pretende apresentar-se como o dirigente máximo da oposição e como o interlocutor legítimo para Marcelo Caetano dialogar com a oposição. Nesse sentido, elabora um documento que é tornado público e enviado para Marcelo Caetano, em que diz que é preciso encontrar forças políticas capazes de ter visibilidade, e dando como completamente excluída a hipótese de o PCP desempenhar qualquer acção relevante no panorama da oposição portuguesa por se encontrar praticamente extinto. Ou seja, apresenta-se como o único capaz de ser a face da oposição democrática. Esse documento reúne cento e vinte assinaturas, entre as quais as de Urbano Tavares Rodrigues, Rogério Fernandes e outros.

SN – Que importância tem nessa altura e nesse contexto o II Congresso de Aveiro?
JMT – Era aí que queria chegar. Nota desta evolução que tenho estado a assinalar são as características dos três congressos de Aveiro. Os dois primeiros são congressos republicanos, só o último se designa Congresso da Oposição Democrática. 

SN – O que denota o peso do republicanismo histórico.
JMT – Exactamente. O primeiro é inclusive presidido por um antigo ministro da Primeira República. 

SN – Mas Mário Sacramento já participa.
JMT – É a condescendência porque não tinham ninguém que o conseguisse organizar. Reconheciam o Mário Sacramento e respeitavam-no, embora soubessem que era militante do Partido Comunista. Havia uma enorme admiração intelectual por Mário Sacramento, que foi o secretário do Congresso e teve grande influência em toda a sua organização, ainda que este primeiro congresso se tivesse limitado a fazer a denúncia política, com intervenções dispersas e com um acento mais «comicieiro» do que propriamente de reflexão sobre os problemas. O segundo congresso, em 1969, realiza-se já com o Marcelo Caetano como presidente do Conselho de Ministros e, nessa altura, a intervenção dos elementos da área comunista, digamos assim, tanto os intervenientes como os que estão na organização, já é mais forte. E tem esta característica que é interessante: está dividido em secções e com a preocupação de análise das situações concretas do País. Não é já apenas a proclamação política, como no primeiro, e no velho estilo da retórica republicana, mas um congresso em que se pretendeu estudar problemas e encontrar soluções. Dado que a participação foi muito mais diversificada que no primeiro congresso e dado que a nova situação política, com o Marcelo Caetano, trazia algumas perspectivas de que a oposição se apresentasse como uma força que exercesse influência na condução política, elabora-se a Plataforma de São Pedro de Moel. 

SN – A Plataforma de São Pedro de Moel assenta num acordo, mas nas legislativas de 1969 a oposição concorre em duas listas distintas.
JMT – Chegou-se a acordo, mas havia questões em que as divergências eram grandes e são estas que acabam por vir a determinar a existência da CDE e da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática). Primeiro, a questão da guerra colonial com o reconhecimento do direito das colónias à independência que era visto pela corrente socialista de uma forma mais recuada, assente num estatuto de certa autonomia, diria que um neocolonialismo encapotado. Para isto, havia duas razões, uma delas por quererem captar sectores moderados da oposição, ainda na área próxima do republicanismo histórico que era colonialista; outra prendia-se com a pretensão de serem elementos válidos para o diálogo com Marcelo Caetano e, obviamente, se defendessem a independência das colónias não o conseguiriam, uma vez que para aquele a defesa das colónias era ponto de honra e quem defendesse a independência e o diálogo com os movimentos de libertação era, pura e simplesmente, considerado traidor. Recordo-me que nessa altura Mário Soares chegou a ter reuniões com o presidente da Acção Nacional Popular (ex – União Nacional) para tentar acertar posições. 

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redacção1

Por ocasião do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, decidimos fazer esta pergunta a nós próprios – os nove redactores deste blogue. As respostas revelam bem a variedade dos nossos passados.

Artur Pinto – Nas «eleições» de 1969 estava a cumprir o serviço militar. Participei tão activamente quanto pude, uma vez que já tinha uma prisão atrás de mim, em 1965, e a informação da PIDE foi-me acompanhando. E, como já tinha tido sido castigado por duas vezes, não me podia permitir grandes aventuras. Mas participei dando o meu apoio logístico em serviço nocturno na sede, ali ao Campo Pequeno. E é curioso referir que enquanto eu e a minha Mãe militávamos na CDE, o meu Pai, fiel às suas amizades, em particular com Soares e Zenha, apoiou a CEUD. Mas mais curioso é o facto de se ter afastado de Soares após o 25 de Abril, para virar à esquerda. A minha actividade e aprendizagem política prática tinham começado nas «eleições» do Delgado, tinha eu 16 anos, continuado na Crise de 1962, até à prisão em 1965. Mas a experiência da CDE foi particularmente importante pelo convívio que tive com figuras destacadas da Oposição. E lembro com saudade Sottomayor Cardia, que eu já conhecia da Crise Académica, um homem de grande cultura, saber e, até, coragem, sobretudo atendendo à sua fraca compleição física. Uma noite em que houve algumas provocações pidescas à porta da CDE, ele não hesitou em vir à rua comigo e defender os companheiros vítimas da provocação. Queria mesmo apresentar queixa, do que foi dissuadido. Como lembro o andar pelas casas dos amigos, noite dentro, a entregar propaganda para estes distribuírem. E dizer que foi com alguma surpresa que dois ou três oficiais do quadro, sabendo das minhas ideias, me abordaram para colher informações e propaganda. Um deles viria a ser um participante activo ao comando de uma das colunas militares em Abril de 1974. Afinal, ao fim de cinco anos, acabámos por ganhar mesmo as eleições.

Diana Andringa – Sendo Domingo, estava, provavelmente, em Peniche, a visitar o Alexandre. Teria provavelmente ido na véspera, como a Lena, a Graça e a Manuela, habituais companheiras desses fins de semana de «turismo prisional» e encontrado a Maria Emília Brederode, a Nita Feronha, a Zé Catanho, que visitavam no Forte os seus irmãos. Terei quase certamente desabafado com o Alexandre o desgosto pelo meu recente trabalho como copy-writer na Ciesa NCK, depois da demissão colectiva da Vida Mundial, onde fora tão exaltante trabalhar. Teremos voltado a falar dessa demissão que me ensinara tanto sobre solidariedade, e cuja razão sentia ligada às eleições e às disputas entre CEUD e CDE. Teremos talvez discutido, na vigiada conversa no Parlatório, a forma como as candidaturas de Oposição tratavam a questão colonial – e a exigência de um corte radical com a ideologia colonialista. Faltavam três meses para ser presa, Angola estava-me mais próxima que Portugal.
Em frente da porta, do lado de fora, terei talvez comprado uma batata-doce assada ao vendedor de castanhas. Afinal, era esse o sabor do Outono em Peniche.

Helena Pato – Lembro-me tão bem do 26 de Outubro de 1969! Durante o dia, sentada na mesa de voto da freguesia de Santa Maria dos Olivais, eu não tirava os olhos da urna dos votos e o grupo de velhos pidescos e ranhosos da União Nacional, que constituía a mesa, não tirava os olhos de mim – um olhar que parecia de nojo por eu ser mulher, uma garota, e estar ali delegada de uma lista da oposição. À noite, na sede nacional da CDE, no Campo Pequeno, troquei reflexões, notícias e nervoso, muito nervoso, com os companheiros da Comissão Política com quem reuni. Do Lindley Sintra e do Pereira de Moura tenho uma saudade imensa. Não me esqueço do arguto e obstinado Sottomayor Cardia remando contra a nossa maré. Já os outros, mal eu sabia que, um dia, haveria de os ver quase todos pela Assembleia da República interpelando-se na «defesa da honra da bancada» – e todos em diferentes bancadas, da esquerda claro está… –, ou passando revista às tropas num quartel, ou dando brilho a um governo, ou falando em Belém ao Povo, com a bandeira portuguesa de um lado e a da Comunidade Europeia do outro. Enquanto isso, eu ficava cada vez mais mulher e cada vez mais mãe. O eterno desgraçado destino de quem nasce no feminino. Porém, irremediavelmente apaixonada pela vida política e cegamente enterrada na profissão que, por maus motivos, agora mais brado dá neste país.

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  Candidatos da CDE de Coimbra em 1969

 
Para evocar o 40º Aniversário da CDE de Coimbra, convidamo-lo a participar e a divulgar o Acto Cívico, que vai decorrer no Auditório da Agência de Coimbra da Fundação Inatel, Rua Dr. António Granjo 6, no próximo dia 26 de Outubro, segunda-feira, das 21h15 às 23h30, com o seguinte Programa:

Parte Política
. Cidadão José Dias
. Dr. Louzã Henriques
. Dr. António Arnaut

Parte Cultural
Choral Poliphonico de Coimbra Canta Zeca Afonso

Iniciativa: Fundação Inatel – Agência de Coimbra e Movimento Cívico de Coimbra para as Comemorações do Centenário da República. Insere-se nos
Actos Cívicos Preparatórios do Centenário da República.

 
Está disponível neste blogue um comunicado da CDE de Coimbra, de Julho de 1969: «Ao Povo do Distrito de Coimbra».

(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril)

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