Untitled-1Comunicação apresentada no dia 31 de Outubro no colóquio «As eleições de 1969 e as oposições. 40 anos depois», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

1. Esta intervenção procura relatar o modo como as eleições foram perspectivadas pelo ambiente político-ideológico que se costuma chamar de «esquerda radical» ou «extrema-esquerda». Note-se, antes de mais, que este campo plural ainda se encontrava em processo de definição e estruturação nessa altura. Fazendo uma leitura algo esquemática da sua evolução, diríamos que em 1968 e 1969 se está na antecâmara de uma segunda fase. Se três ou quatro anos depois já existirá um conjunto vasto e hiper-ramificado de grupos maoístas, trotskistas, guerrilheiristas e socialistas de esquerda, uma boa parte destas futuras organizações ainda se encontrava em estado embrionário ou latente na altura em que o Estado Novo promove as suas eleições para a Assembleia Nacional.

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botswana

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, neste site da BBC, fotografias e resumo histórico de doze muros ainda existentes no mundo.

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Fotografias e pequenos vídeos, enter os quais um com um excerto do discurso de J.F.Kennedy, em 26/6/1963, com a frase que ficou célebre: «Ich bin ein Berliner».

Gazeta, Novembro 2009

Amigos de João Martins Pereira juntam-se na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, um ano depois da sua morte, na sexta-feira 13 de Novembro às 21h30.
(A Casa da Achada fica na Rua da Achada nº 11 -ver localização aqui.)

* Notas biográficas de João Martins Pereira

(Clique aqui para ler a primeira página da Gazeta, Novembro de 2009.)

muro berlim

Estamos à beira dos vinte anos passados desde a queda do Muro. Esse Muro que foi o símbolo maior, um autêntico ícone, da separação radical de dois mundos, dos pontos de vista político, ideológico e social, em permanente confronto até à vitória de um sobre o outro, um desfecho de antagonismos herdados de 1917 e há muito anunciado que alimentou medos de décadas de que se iria «resolver» pela via da hecatombe nuclear e que, surpreendendo todos, se deu de uma forma instantânea e pacífica, porque o comunismo simplesmente tinha apodrecido (como aqui, em Portugal, acontecera ao fascismo de Caetano). Nesse momento histórico, o Muro, caindo, transmutou-se, por via da dinâmica dos símbolos, de emblema maior opositivo entre capitalismo democrático e comunismo totalitário para o sinal maior da vitória de um e falência do outro.

Nunca vi, ao vivo, o Muro que a maior parte das pessoas conhece através da imagem, o Muro odiado, conspurcado, repleto de graffitis obscenos, humorísticos ou artísticos, decorado com repulsa que ia do talento irónico até ao ódio, aquele Muro em que o ocidente cuspia na antítese comunista. Mas conheci, no princípio da década de 80, um outro Muro no lugar do mesmo Muro, um Muro limpo, sepulcral, bélico e emblemático da luta de classes, o Muro visto de Berlim-Leste, então capital da RDA. E ainda hoje, quando se fala do Muro, é esse Muro que remexe a minha memória. Em viagem turística, com dois casais metidos num velho Fiat 127 atafulhado de apetrechos campistas, todos militantes empenhados do PCP, ali estávamos, eu e os meus companheiros de viagem, após quatro mil quilómetros de estrada e calcorrearmos a Checoslováquia e a RDA, a olhar para a face comunista do Muro, o lado do mundo que Lenine iluminava. O percurso tinha sido feito até à Porta de Brandenburgo, onde o Muro apresentava uma espécie de «barriga», por uma zona em que raros eram os berlinenses que ali passeavam ou simplesmente circulavam, o meio envolvente era dissuasor, fortemente policiado e militarizado, a vista alcançava a «terra de ninguém» e, ao fundo, o Muro com a sua frieza de betão, um betão lívido a fazer de horizonte após ouriços de arame farpado numa faixa de terreno que se sabia minada. Entre espaços repetidos, elevavam-se as guaritas com guardas armados de kalash e binóculos. Por muito que isso me apetecesse, e na altura apetecia-me muito e acima de tudo, eu não conseguia encontrar naquela imagem gélida, bélica, desumanizada, petrificada a betão, a classe operária que eu tudo fazia por servir e seguir, as lutas dos trabalhadores, os gritos anticapitalistas contra a opressão, a igualdade e a fraternidade que procurei no comunismo, a camaradagem representada na vida do partido, a festa da festa do avante, o Cunhal contado a admiradores, seguidores e crédulos, muito menos amanhãs mesmo que afónicos. Mais que para fora, o Muro pareceu-me apontado para dentro, também para mim, comunista e internacionalista, marxista-leninista pois claro. E a visão do Muro, enquanto claustrofobia totalitária, reencontrei-a quando o vi de novo á minha beira estando sentado numa esplanada durante uma visita à beleza de Potsdam, perto de Berlim, dando-me a dimensão tentacular daquele polvo de betão. Apesar do choque, o Muro não me trouxe, então, indignação ou protesto. Simplesmente, engoli-o, por disciplina e fidelidade, como outros que ainda hoje andam enfartados com gulags e lubiankas a inchar-lhes o estômago transformado em sede de pensamento político e absorvedor de neurónios para serem corroídos pelo suco gástrico.

Hoje, quando vejo pedaços expostos do Muro que engoli em Berlim-Leste há quase trinta anos atrás, graffitados como não o conheci, sinto-os como se tivessem saído de dentro de mim por via de vómitos, admirando-me com as dimensões daquilo que um ser humano, abdicando da inteligência e da lucidez, sobretudo do juízo sem amos, pagando o preço da tranquilidade de uma paz ideológica, é capaz de olhar sem ler na escrita do betão, o que petrifica ideais, sonhos e utopias.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

O seu ponto de vista em «20 años después del Muro la historia continua», hoje publicado no El País.

velho no muro de Berlim

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Era uma figura trágica e ao mesmo tempo grotesca. De boina e casacão coçados, cabelos brancos compridos, esbracejava de bengala na mão e vociferava sem cessar. A névoa gelada abafava-lhe os gritos dirigidos ao «outro lado». O velho soltava imprecações na direcção de Berlim-Leste, do alto de um palanque nas imediações da Friedrichstrasse. Por vezes calava-se e ficava de olhos fechados, braços abertos, como quem espera acolher alguém. Perdera o tino há anos, disseram-me, quando lhe mataram o filho que tentava fugir para o Ocidente, naquele mesmo local. E agora estava ali todos os dias, arengando a sua revolta enlouquecida.

Vi Berlim pela primeira vez nesse Inverno de 1977. Estava muito frio. O Muro tinha 16 anos, e era uma atracção turística. A plataforma no alto do qual se encontrava o velho louco era uma das várias que foram erguidas do lado de cá, e das quais se podia ver por cima do muro. Os autocarros de turistas paravam regularmente junto delas, despejando hordas tagarelas que subiam, excitadíssimas, para espreitar «o comunismo» ao vivo. Pouca coisa se via além de ruas desertas e casas cinzentas, para lá das fiadas de arame farpado e obstáculos da terra-de-ninguém. Mas isso só reforçava a ideia de que para lá do Muro era o Inferno, e os turistas voltavam a entrar nos autocarros consolados por terem nascido do lado certo. Alguns até choravam com a história do velho.

Em 1961, Kruschev dissera: «Vamos fazer um muro em Berlim, e o Ocidente vai ficar a olhar para ele como uma ovelha estúpida.» Tinha razão. Mas que poderia o Ocidente fazer, sem arriscar, julgava-se na altura, uma guerra medonha? A ovelha ficou a olhar e fez de Berlim uma espécie de montra do chamado «mundo livre», regada com o sangue de centenas de alemães apanhados pelo muro no lado errado à hora errada, cujos nomes estão gravados em cruzes que se perfilam acompanhadas de coroas de flores. Den Toten der Mauer. Aos mortos do Muro.

Um dos mortos fora o filho daquele velho tonto. Ele vira tudo, disseram-me, enquanto lhe gritava e estendia as mãos do lado de cá: o rapaz a correr desvairado, depois as rajadas, e o corpo que se abate como um boneco atirado ao chão. Como aconteceu a outros, ficou ali vários dias antes que o fossem buscar.

Não deve haver dor pior. Em Novembro de 1989, quando, a golpes de picareta, os alemães começaram a destruir o Muro, eu lembrei-me daquele velho cujo filho podia ter esperado 28 anos. Uma eternidade.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas.)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

Duas informações:

1 – No passado dia 3 de Abril, teve lugar no Auditório da Junta de Freguesia de São João de Brito, em Lisboa, uma sessão comemorativa da intervenção dos católicos na vida política portuguesa, na década de 50. Foi promovida pelo Fórum Abel Varzim e pelo Centro Nacional de Cultura e as comunicações apresentadas encontram-se recolhidas num documento intitulado «Católicos e Política» que pode ser consultado e copiado no portal do Fórum Abel Varzim.

2 – Pus agora online «Problemas da relação Igreja-Estado em Portugal». Trata-se de um documento que resultou de uma reunião de 75 pessoas ligadas aos cadernos GEDOC, realizada em Setembro de 1969 como contributo para a campanha das eleições legislativas de 1969, então em curso.
(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril de Coimbra)

Varlam ShalamovNascido em 1907 na cidade russa de Vologda, durante a juventude o escritor, poeta e jornalista Varlam Shalamov participou das actividades do grupo literário esquerdista LEF. Em Fevereiro de 1929, quando era estudante da Universidade de Moscovo, foi detido pela primeira vez sob a acusação de difundir o «testamento político» de Lenine. Tratava-se de uma das últimas cartas do dirigente bolchevique, na qual este apontava a necessidade de afastar Estaline do cargo de secretário-geral do Partido Comunista. Nos anos trinta, a difusão do documento, considerado apócrifo pelas autoridades, iria custar a vida a diversas pessoas. O escritor passou então cerca de três anos em campos de concentração nos Urais. Em 1937 foi novamente detido e enviado para a Sibéria Oriental, para Kolima, um dos mais mortais campos do Gulag. Primeiro como prisioneiro e depois como deportado, ali permaneceu até 1953. Seria completamente reabilitado em 1956, após o XX Congresso do PCUS. Os Contos de Kolima, de um dos quais se transcreve aqui um fragmento, foram escritos entre 1954 e 1973 com um cunho acentuadamente autobiográfico, mas só começaram a ser publicados em revistas e jornais literários nos anos da perestroika. Durante a vida, Shalamov apenas conseguiu publicar cinco colectâneas de poesia, tendo morrido sozinho, cego, surdo e sem meios pessoais em 1982.


Os homens surgiram do nada, uns atrás dos outros. À noite, um homem desconhecido deitava-se na minha tarim­ba, encostava-se ao meu ombro ossudo, transmitindo-me o seu calor – gotas de calor – recebendo o meu em troca. Havia noites em que nem sequer uma gota de calor chegava até mim através dos farrapos de um casaco, de um jaquetão acolchoado. E, de manhã, olhava para o vizinho como para um cadáver e ficava admirado quando via que o cadáver estava vivo, se levantava ao som dos gritos, se vestia e cum­pria obedientemente as ordens. Eu tinha muito pouco calor. Nos meus ossos restava muito pouca carne. Bastava apenas para ter raiva, o último dos sentimentos humanos. O último dos sentimentos humanos, o mais próximo dos ossos, não é a indiferença mas a raiva. O homem, que aparecia do nada, desaparecia de dia: na mina de carvão havia muitos sectores, e desaparecia para sempre. Não conheço as pessoas que dormiram ao meu lado. Nunca lhes fiz perguntas, não porque seguisse o provérbio árabe: não perguntes para que não te mintam. Era-me indiferente que me mentissem ou não, eu estava para além da verdade, para além da mentira. Sobre isto os criminosos têm um ditado severo, claro e gros­seiro, cheio de um desdém profundo para quem faz a per­gunta: se não acreditas, pensa que é um conto de fadas. Eu não perguntava e por isso não ouvia contos.

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Mário Brochado Coelho está a tentar reconstituir a história desta cooperativa, criada no Porto em 1966, e que teve um papel muito importante em tempos de ditadura, mas precisa que todos os que possam contribuir com «factos, documentos, fotografias, gravações, relatos e opiniões» o contactem o mais depressa possível (mbc@mail.telepac.pt).
 Aqui fica o pedido, com insistência para que seja atendido – é de um verdadeiro serviço público que se trata.

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É natural. Julgo que acontece o mesmo a todos. Perdemos a memória dos primeiros tempos da infância. Dessa fase, ficará um ou outro flash mas terá de ser algo muito marcante para resistir à erosão do tempo e à necessidade da nossa capacidade para memorizar expelir recordações e registos para receber outras, mais recentes. Qual a idade mais recuada em que nos recordamos de nós próprios? Exceptuando uma grande alegria ou um enorme desgosto de tempo mais infantil talvez seja a fase do início escolar e mesmo assim através de um ou outro breve episódio. O certo é que pouco me lembro dos meus primeiros anos de vida. Por isso, muitas vezes dei comigo a olhar as fotografias guardadas de quando era muito pequeno e perguntar-me: mas este sou (fui) eu? E nunca me conseguia rever na personagem retratada, ligando imagem e realidade vivida.

Entre as fotografias que guardaram de quando eu era criança, havia uma (não sei onde pára) que me despertava especial curiosidade. Teria os meus quatro anos. O ambiente do cenário era campestre, tinha uma flor na mão e usava um enorme chapéu de palha de adulto para me proteger do sol. O meu riso foi captado escancarado pelo fotógrafo e deve ter sido assim por cauda da novidade de ser retratado pois não me lembra outra qualquer fotografia minha em que estivesse tão risonho. Mirei e remirei essa fotografia vezes sem conta. Aquela foto era uma espécie de redenção da minha absoluta e persistente falta de fotogenia. Achei sempre que nela tinha ficado muito bem e que nunca tinha voltado a ser tão bonito. Melhor, ficou cá para mim a certeza de que, na altura da fotografia, foi a única vez em que a beleza foi generosa para com a minha figura tão vulgar quanto desinteressante. Mas havia mais, olhando-a, a minha atracção por aquela fotografia tinha ainda qualquer coisa de misterioso que me prendia a ela e que ia além do riso, da flor e do chapéu grande. Durante anos, volta e meia, vasculhava no álbum familiar à procura dela. Tornou-se uma obsessão. Havia algo que ou não batia certo ou então faltava ali.

Um dia, teria os meus catorze anos, percebi num instante o que me levava a perscrutar insistentemente o raio da foto. Desvendei o mistério num ápice. É que a fotografia estava excelente mas o fotógrafo tinha-me cortado os pés no enquadramento. Não entendi como é que estando eu tão bonito, o fotógrafo (o meu Tio Luís) tinha feito aquele enquadramento desajeitado e logo ele que se ufanava de ser mestre amador naquela arte. Resolvi exprimir a minha indignação e lavrei o meu protesto verbal. Mas o artista tinha as suas razões. O meu tio explicou-me que me enquadrara sem pés porque eu estava descalço por ainda não ter ganho estatuto social suficiente para calçar sapatos, sandálias ou chinelos que fosse e decidiu poupar-me a essa evidência da minha desqualificação social (só depois, arrancado aos meus pais e à minha aldeia de Trás-os-Montes, com a vinda para a cidade, onde se proibia circular-se descalço, entregue aos meus tios e pais substitutos, passei a ter direito a sapatos). Percebi a boa intenção mas achei mal que a vergonha (do fotógrafo, não a minha) tivesse impedido que a melhor de todas as minhas fotografias me mostrasse incompleto, sem direito aos meus pés.

 
(Texto revisto de um post publicado no blogue Água Lisa)

Feminismo

Um texto de Adriana Bebiano (*)

O feminismo permanece estranho, mesmo para a esquerda. Da sua história destacam-se muitas vezes os clichés, e das questões que são hoje objecto de lutas e debate interno pouco passa para o público em geral, para além das mediáticas «quotas» ou dos casos de «violência de género». Foi por isso particularmente importante que a Ágora: O Debate Peninsular tenha incluído na sua 10ª edição, que acaba de ter lugar aqui ai lado, em Cáceres, um curso de dois dias designado «A Agenda Feminista: Chegar e Ficar». A Ágora é um evento anual, da responsabilidade da Junta da Estremadura espanhola, que tem por objectivo promover o conhecimento mútuo e o intercâmbio entre Portugal e Espanha. Apesar de habitarem espaços contíguos e de terem um passado em larga medida partilhado, sob o franquismo e o salazarismo, como ficou claro das conferências inaugurais de Amelia Valcárcel e Manuela Tavares, as feministas de ambos os lados da fronteira têm vivido, até certo ponto, no desconhecimento mútuo, que procuram agora superar.

A convite das coordenadoras do curso, Joana Amaral Dias e Monserrat Boix, e perante um público sempre numeroso, um grupo de activistas, académicas, jornalistas e políticas portuguesas e espanholas debaterem, por vezes calorosamente, questões como a história comum, as novas tecnologias, a educação, as representações, a pobreza, a migração e a exclusão social das mulheres. Se a história e os problemas presentes atravessam a fronteira, há, no entanto, diferenças notáveis entre os dois lados, que resultam tanto de realidades como de posições teóricas e políticas diversas, as quais se fizeram sentir com grande impacto no decorrer do encontro.

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Desenho de Cláudia Santos Silva

(Desenho publicado originalmente em Blue Moleskin)

Biografia de Cláudia Santos Silva

Que mais não fosse pelo título, havia que o referir neste blogue. Trata-se de um filme que acaba de ser estreado em Espanha, da autoria de um belga, filho de exilados espanhóis. «Para devolver a dignidade às vítimas do fascismo», José Luis Peñafuerte levou três anos a fazer este primeiro grande documentário que será um importante instrumento ao serviço dos objectivos da Memória Histórica.

(Fonte)

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António Abreu enviou-nos o link para um longo testemunho que publicou no seu blogue – Como vivi as “eleições” de 1969 -, que agradecemos e entendemos útil divulgar.

Colóquio Tarrafal 2008

Este é o texto de uma comunicação feita em 29/10/2008, no Colóquio Internacional «Tarrafal: uma prisão, dois continentes».

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
Passa hoje mais um aniversário sobre a criação do Campo do Tarrafal e logo uma pergunta se coloca: tem sentido e actualidade recordar esta data? Como já alguém disse, «os que não são capazes de recordar o passado estão condenados a repeti-lo». Nós, não o queremos repetir, pelo contrário, diremos sempre «nunca mais, isto nunca devia ter acontecido» e propomo-nos reflectir neste colóquio sobre questões simples e incontornáveis, onde o homem, na angústia dramática de si próprio, se pergunta: O que se passou? Porque aconteceu? Como foi possível?

Na economia do pouco tempo de que disponho, queria telegraficamente dar conta duma curta investigação e reflexão que fiz sobre a realidade do Tarrafal, no sentido de a compreender e de hoje aqui a apresentar.

A deslocalização de seres humanos das suas regiões de origem ou local de residência tem antigas tradições nas figuras jurídicas do degredo ou do desterro, dando origem aos degredados ou desterrados e, num sentido mais amplo, já político, conforme os casos, aos expatriados, aos deportados, aos proscritos, aos banidos e até aos «desnaturalizados». Hoje, como se sabe, em linguagem já global, temos os combatentes inimigos do império do mal.

No campo restrito que nos traz a este colóquio, a deslocalização tem origem, desde logo, na pena de expulsão do reino, definida no art. 36 do Código Penal de 1852, importando a obrigação de o condenado sair do território português, com a proibição de a ele não voltar. Esta pena, na prática só aplicada a opositores políticos, aparecia com o significativo nome de pena de «desnaturalização» e consistia em remeter para outros países ou lugares os chamados maus cidadãos. Assim se criava a figura do apátrida.

É ainda o legislador do Código Penal de 1852 que fixa que a pena de morte é substituída pela pena fixa, de degredo, por vinte e oito anos, com prisão no lugar do degredo por oito a dez anos.

Em face dos protestos das colónias, o degredo foi proibido por Despacho do Ministro das Colónias, de 24 de Dezembro de 1931, e tomadas as providências que constam do decreto no 20 887, de 13 de Fevereiro de 1932.

Mas verdadeiramente o degredo foi, em definitivo abolido pela Lei Orgânica do Ultramar, de 1953 (Lei nº 2066, de 27 de Junho), que na sua base LXIX, III, estabelecia que a pena de degredo não se ordenará nem cumprirá mais nas províncias ultramarinas.

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De um comunicado do movimento «Não apaguem a Memória»:

«Quando, no ano passado, em 29 de Outubro, organizámos na Assembleia da República o colóquio internacional «Tarrafal uma prisão dois continentes», Edmundo Pedro propôs, com o apoio da direcção do NAM, que essa data fosse escolhida como o Dia da Memória dos Resistentes e das Vítimas da Ditadura. Esse foi, em 1936, o dia da abertura do campo de concentração do Tarrafal e da entrada nele do primeiro contingente de presos políticos idos de Portugal. 

Para lembrar aquele acontecimento histórico, e a luta contra a ditadura em geral, a direcção do NAM realizará, na Fundação Mário Soares (Rua de S. Bento em frente à Assembleia da República), na próxima 5ª feira, dia 29 de Outubro de 2009, às 21 horas, uma sessão com a apresentação do documentário «Há 70 anos, o Tarrafal», de Fernanda Paraíso, seguido de debate.

VereaçãoCML-IP091108

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
A vereação republicana de Lisboa em 1908

Após a ruptura com a monarquia, em Novembro de 1907, Braamcamp Freire justifica a sua adesão ao Partido Republicano, em declaração ao jornal O Mundo: «O que se tem passado enoja-me, mas não só me enoja: irrita-me, obriga-me a romper». Se com esta sua atitude incomodou os seus amigos monárquicos, pelo contrário, originou dezenas de cartas e telegramas de solidariedade da parte de figuras gradas do republicanismo: Afonso Costa, Manuel de Arriaga, João Chagas, José Relvas, Bernardino Machado, Alexandre Braga, Francisco Grandela, França Borges, Augusto Vasconcelos, Alves da Veiga.

Atentemos em alguns exemplos. Afonso Costa: «Saúdo entusiasticamente novo correligionário prestando homenagem seu carácter». França Borges: «Em nome do [jornal] Mundo, do meu, saúdo respeitosa e entusiasticamente V. Exª uma nobreza de ideias e sentimentos que não pode deixar indiferente um português que ama sinceramente o seu país e que antepõe a todas as considerações o ideal de uma pátria feliz: respeitada e servida por homens de grande bondade e provada inteligência!». Francisco Grandela: «Feliz país que tais filhos possui!». Um militar do 31 de Janeiros de 1891: «António José Carlos Silva Sargento demitido suspeita implicado revolta 31 de Janeiro Porto na impossibilidade felicitar V. Exª pessoalmente por estar bastante doente fá-lo por este meio fazendo votos que a vossa nobre atitude de carácter seja seguida por outros que há muito deviam estar no outro partido do povo e que trabalha para a emancipação do nosso infeliz país». Um cidadão anónimo de Grândola: «Espero que V. Exª não levará a mal que eu, um obscuro cidadão português, o felicite pelo seu procedimento altivo e nobreza de carácter em face do poder absoluto que actualmente oprime e vexa a nossa pátria».

Perante esta calorosa recepção republicana à adesão de Braamcamp Freire, não causou nenhuma admiração o facto de se ter candidatado às eleições municipais para a Câmara de Lisboa no ano seguinte. O desânimo e a desorganização impossibilitaram os monárquicos de sequer se submeterem a votos. A lista republicana, liderada pelo «cidadão Freire», ganhou naturalmente. Eis os nomes dos dez vereadores que o acompanharam nesta importante vitória dos republicanos, como se veria dali a dois anos: Francisco Grandela, Ventura Terra, Tomás Cabreira, Veríssimo de Almeida, José Miranda do Vale, Luís Filipe da Mata, Cardoso de Oliveira, Carlos Ferreira Alves, Cunha e Costa e Augusto José Vieira. Os nomes dos onze suplentes também incluíam republicanos proeminentes: Barros Queirós, Afonso de Lemos, Agostinho José Fortes, Nunes Loureiro, Dias Ferreira, Aurélio da Costa Ferreira, Pimentel Leão, Alberto Marques, Inácio Costa, Ramos Simões e Manuel Caetano Alves.

Claramente, o Partido Republicano apostava forte nesta candidatura. Se demonstrasse ter capacidade para governar bem a capital, também poderia ambicionar o governo do país.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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Por iniciativa da Câmara de Paris, realiza-se hoje em Madrid uma dupla homenagem: aos membros das Brigadas Internacionais que lutaram na Guerra Civil de Espanha e aos espanhóis que combateram os nazis durante a Segunda Guerra mundial.
As Brigadas integraram voluntários de 54 países, 10.000 dos quais franceses. Por outro lado, cerca de 8.000 espanhóis ajudaram a libertar Paris da ocupação nazi.

(Fonte)

dissidente  

Com atraso, verifiquei só agora que em Julho passado fez dez anos que faleceu o António Graça, funcionário clandestino do PCP durante muitos anos, torturado e preso durante seis anos pela PIDE, dirigente daquele partido e depois impulsionador de uma das mais importantes dissidências no PCP no final da década de 80. 

Sobre António Graça, transcrevem-se duas evocações. A primeira é da autoria de Raimundo Narciso: 

«O António Graça era um dos quatro ou cinco membros do Comité Central que em 1987 e 1988 desenvolveu, naquele órgão do PCP, uma assinalável actividade crítica à linha política da direcção de Cunhal. Demitiu-se em 1991. Foi desde muito novo um destemido lutador contra a ditadura fascista e militante do PCP. Desenvolveu nos anos cinquenta e sessenta, como quadro clandestino do PCP, importante actividade política que o levou à prisão durante seis anos a partir de 1964. Submetido a torturas pela PIDE para denunciar companheiros, resistiu a tudo. Por isso, no PCP, pertencia à galeria dos heróis, até ao momento em que contestou as orientações e as práticas da direcção do partido. Foi um dos iniciadores do INES e da Plataforma de Esquerda. Não aderiu ao PS nem foi para a Política XXI. Defendia que os ex-comunistas deviam, com outros, criar um partido próprio. António Graça, foi membro do CC do PCP de 1979 a 1988, participou nos trabalhos da Comissão de Extinção da PIDE/DGS em 1974 e 75. Nos anos seguintes, foi responsável pelos serviços de informação do PCP. Era um quadro político com grande experiência, argúcia e uma prodigiosa memória. Faleceu com 60 anos, em 1 de Julho 1999. Era muito respeitado e estimado pelos seus companheiros políticos. Era meu amigo. Era teu amigo.» 

(depoimento incluído numa entrevista que Raimundo Narciso concedeu em Abril de 2004 ao blogue «Água Lisa».
 
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josé manuel tengarrinha

Em 2005, a Revista Seara Nova, então dirigida por Ulpiano Nascimento, publicou uma conversa com José Manuel Tengarrinha, um dos dirigentes que mais se destacaram na liderança da oposição democrática, em 1969 e 1973. Dessa longa conversa, em que o político e historiador reflecte e relata na primeira pessoa factos da resistência anti-fascista ao longo dos 48 anos da ditadura, transcrevemos a parte relativa ao movimento CDE.
 
 
Seara Nova – Em 1969, surge a Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Todos estes aspectos que já abordámos influenciaram a CDE?
José Manuel Tengarrinha – Daí a necessidade de compreender as características que a CDE tem em 1969. É evidente que é fortemente marcada pela queda política de Salazar e pela pretensa esperança na abertura do regime. Todos nós fomos embalados nessa esperança, embora uns mais que outros. Na nossa área, a esperança era limitada, mas a área socialista estava eufórica. Mário Soares, que tinha estado no exílio em São Tomé, foi amnistiado por Marcelo Caetano e regressou. Este facto é importante para se perceber o contexto em que nasce a CDE. Mário Soares pretende apresentar-se como o dirigente máximo da oposição e como o interlocutor legítimo para Marcelo Caetano dialogar com a oposição. Nesse sentido, elabora um documento que é tornado público e enviado para Marcelo Caetano, em que diz que é preciso encontrar forças políticas capazes de ter visibilidade, e dando como completamente excluída a hipótese de o PCP desempenhar qualquer acção relevante no panorama da oposição portuguesa por se encontrar praticamente extinto. Ou seja, apresenta-se como o único capaz de ser a face da oposição democrática. Esse documento reúne cento e vinte assinaturas, entre as quais as de Urbano Tavares Rodrigues, Rogério Fernandes e outros.

SN – Que importância tem nessa altura e nesse contexto o II Congresso de Aveiro?
JMT – Era aí que queria chegar. Nota desta evolução que tenho estado a assinalar são as características dos três congressos de Aveiro. Os dois primeiros são congressos republicanos, só o último se designa Congresso da Oposição Democrática. 

SN – O que denota o peso do republicanismo histórico.
JMT – Exactamente. O primeiro é inclusive presidido por um antigo ministro da Primeira República. 

SN – Mas Mário Sacramento já participa.
JMT – É a condescendência porque não tinham ninguém que o conseguisse organizar. Reconheciam o Mário Sacramento e respeitavam-no, embora soubessem que era militante do Partido Comunista. Havia uma enorme admiração intelectual por Mário Sacramento, que foi o secretário do Congresso e teve grande influência em toda a sua organização, ainda que este primeiro congresso se tivesse limitado a fazer a denúncia política, com intervenções dispersas e com um acento mais «comicieiro» do que propriamente de reflexão sobre os problemas. O segundo congresso, em 1969, realiza-se já com o Marcelo Caetano como presidente do Conselho de Ministros e, nessa altura, a intervenção dos elementos da área comunista, digamos assim, tanto os intervenientes como os que estão na organização, já é mais forte. E tem esta característica que é interessante: está dividido em secções e com a preocupação de análise das situações concretas do País. Não é já apenas a proclamação política, como no primeiro, e no velho estilo da retórica republicana, mas um congresso em que se pretendeu estudar problemas e encontrar soluções. Dado que a participação foi muito mais diversificada que no primeiro congresso e dado que a nova situação política, com o Marcelo Caetano, trazia algumas perspectivas de que a oposição se apresentasse como uma força que exercesse influência na condução política, elabora-se a Plataforma de São Pedro de Moel. 

SN – A Plataforma de São Pedro de Moel assenta num acordo, mas nas legislativas de 1969 a oposição concorre em duas listas distintas.
JMT – Chegou-se a acordo, mas havia questões em que as divergências eram grandes e são estas que acabam por vir a determinar a existência da CDE e da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática). Primeiro, a questão da guerra colonial com o reconhecimento do direito das colónias à independência que era visto pela corrente socialista de uma forma mais recuada, assente num estatuto de certa autonomia, diria que um neocolonialismo encapotado. Para isto, havia duas razões, uma delas por quererem captar sectores moderados da oposição, ainda na área próxima do republicanismo histórico que era colonialista; outra prendia-se com a pretensão de serem elementos válidos para o diálogo com Marcelo Caetano e, obviamente, se defendessem a independência das colónias não o conseguiriam, uma vez que para aquele a defesa das colónias era ponto de honra e quem defendesse a independência e o diálogo com os movimentos de libertação era, pura e simplesmente, considerado traidor. Recordo-me que nessa altura Mário Soares chegou a ter reuniões com o presidente da Acção Nacional Popular (ex – União Nacional) para tentar acertar posições. 

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redacção1

Por ocasião do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, decidimos fazer esta pergunta a nós próprios – os nove redactores deste blogue. As respostas revelam bem a variedade dos nossos passados.

Artur Pinto – Nas «eleições» de 1969 estava a cumprir o serviço militar. Participei tão activamente quanto pude, uma vez que já tinha uma prisão atrás de mim, em 1965, e a informação da PIDE foi-me acompanhando. E, como já tinha tido sido castigado por duas vezes, não me podia permitir grandes aventuras. Mas participei dando o meu apoio logístico em serviço nocturno na sede, ali ao Campo Pequeno. E é curioso referir que enquanto eu e a minha Mãe militávamos na CDE, o meu Pai, fiel às suas amizades, em particular com Soares e Zenha, apoiou a CEUD. Mas mais curioso é o facto de se ter afastado de Soares após o 25 de Abril, para virar à esquerda. A minha actividade e aprendizagem política prática tinham começado nas «eleições» do Delgado, tinha eu 16 anos, continuado na Crise de 1962, até à prisão em 1965. Mas a experiência da CDE foi particularmente importante pelo convívio que tive com figuras destacadas da Oposição. E lembro com saudade Sottomayor Cardia, que eu já conhecia da Crise Académica, um homem de grande cultura, saber e, até, coragem, sobretudo atendendo à sua fraca compleição física. Uma noite em que houve algumas provocações pidescas à porta da CDE, ele não hesitou em vir à rua comigo e defender os companheiros vítimas da provocação. Queria mesmo apresentar queixa, do que foi dissuadido. Como lembro o andar pelas casas dos amigos, noite dentro, a entregar propaganda para estes distribuírem. E dizer que foi com alguma surpresa que dois ou três oficiais do quadro, sabendo das minhas ideias, me abordaram para colher informações e propaganda. Um deles viria a ser um participante activo ao comando de uma das colunas militares em Abril de 1974. Afinal, ao fim de cinco anos, acabámos por ganhar mesmo as eleições.

Diana Andringa – Sendo Domingo, estava, provavelmente, em Peniche, a visitar o Alexandre. Teria provavelmente ido na véspera, como a Lena, a Graça e a Manuela, habituais companheiras desses fins de semana de «turismo prisional» e encontrado a Maria Emília Brederode, a Nita Feronha, a Zé Catanho, que visitavam no Forte os seus irmãos. Terei quase certamente desabafado com o Alexandre o desgosto pelo meu recente trabalho como copy-writer na Ciesa NCK, depois da demissão colectiva da Vida Mundial, onde fora tão exaltante trabalhar. Teremos voltado a falar dessa demissão que me ensinara tanto sobre solidariedade, e cuja razão sentia ligada às eleições e às disputas entre CEUD e CDE. Teremos talvez discutido, na vigiada conversa no Parlatório, a forma como as candidaturas de Oposição tratavam a questão colonial – e a exigência de um corte radical com a ideologia colonialista. Faltavam três meses para ser presa, Angola estava-me mais próxima que Portugal.
Em frente da porta, do lado de fora, terei talvez comprado uma batata-doce assada ao vendedor de castanhas. Afinal, era esse o sabor do Outono em Peniche.

Helena Pato – Lembro-me tão bem do 26 de Outubro de 1969! Durante o dia, sentada na mesa de voto da freguesia de Santa Maria dos Olivais, eu não tirava os olhos da urna dos votos e o grupo de velhos pidescos e ranhosos da União Nacional, que constituía a mesa, não tirava os olhos de mim – um olhar que parecia de nojo por eu ser mulher, uma garota, e estar ali delegada de uma lista da oposição. À noite, na sede nacional da CDE, no Campo Pequeno, troquei reflexões, notícias e nervoso, muito nervoso, com os companheiros da Comissão Política com quem reuni. Do Lindley Sintra e do Pereira de Moura tenho uma saudade imensa. Não me esqueço do arguto e obstinado Sottomayor Cardia remando contra a nossa maré. Já os outros, mal eu sabia que, um dia, haveria de os ver quase todos pela Assembleia da República interpelando-se na «defesa da honra da bancada» – e todos em diferentes bancadas, da esquerda claro está… –, ou passando revista às tropas num quartel, ou dando brilho a um governo, ou falando em Belém ao Povo, com a bandeira portuguesa de um lado e a da Comunidade Europeia do outro. Enquanto isso, eu ficava cada vez mais mulher e cada vez mais mãe. O eterno desgraçado destino de quem nasce no feminino. Porém, irremediavelmente apaixonada pela vida política e cegamente enterrada na profissão que, por maus motivos, agora mais brado dá neste país.

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  Candidatos da CDE de Coimbra em 1969

 
Para evocar o 40º Aniversário da CDE de Coimbra, convidamo-lo a participar e a divulgar o Acto Cívico, que vai decorrer no Auditório da Agência de Coimbra da Fundação Inatel, Rua Dr. António Granjo 6, no próximo dia 26 de Outubro, segunda-feira, das 21h15 às 23h30, com o seguinte Programa:

Parte Política
. Cidadão José Dias
. Dr. Louzã Henriques
. Dr. António Arnaut

Parte Cultural
Choral Poliphonico de Coimbra Canta Zeca Afonso

Iniciativa: Fundação Inatel – Agência de Coimbra e Movimento Cívico de Coimbra para as Comemorações do Centenário da República. Insere-se nos
Actos Cívicos Preparatórios do Centenário da República.

 
Está disponível neste blogue um comunicado da CDE de Coimbra, de Julho de 1969: «Ao Povo do Distrito de Coimbra».

(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril)

Carteiros de fósforos - CDE 1969

Colecção de carteiras de fósforos, que penso terem sido feitas para a campanha eleitoral das legislativas de 1969.

Chile 1973

A justiça chilena está a reabrir centenas de processos das vítimas dos interrogatórios policiais do regime de Pinochet, com o objectivo de as indemnizar.

Acaba também de ser anunciada a criação do «Instituto de Derechos Humanos» e uma antiga prisão vai ser transformada em Museu da Memória. Mas, para muitos, a reconciliação será sempre impossível enquanto antigos torcionários passearem pelas ruas do Chile.

Para se entender um pouco do que se está a falar em termos de interrogatórios policiais, um testemunho entre muitos:
«Por la violación de los torturadores, y embarazada, aborte quedé en la cárcel. Sufri descargas eléctricas, acoso sexual y con perros me introdujeron ratas vivas por la vagina. Me obligaron um tener relaciones sexuales con mi hermano y padre, que también estaban detenidos. Tenía 25 años. Estuve en prisión hasta 1976.»

(Fonte)

Até 11 de Setembro de 1973, tudo isto pareceria impossível – mas não foi.

cartaz cde 1969

A propósito do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, no próximo dia 26, iniciamos hoje a publicação de alguns documentos, textos e imagens.

Pode ler aqui o «Resumo do programa político da Comissão Democrática Eleitoral do Distrito de Lisboa»

(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril)

melo antunesEstá neste momento em curso um conjunto de iniciativas para assinalar o 10º aniversário da morte de Melo Antunes, a primeira das quais é a exibição, na RTP Memória, de «Melo Antunes: um sonhador pragmático»

23 de Outubro, 22:26
24 de Outubro, 08:30

Serão entrevistados Joana Melo Antunes, Manuela Cruzeiro e Vasco Lourenço e poderão ser vistas duas significativas intervenções de Melo Antunes, nomeadamente a que o marcou para o resto da vida, quando em 25 de Novembro de 1975 defendeu que o PCP não podia ser excluído da construção da democracia em Portugal.

expo98

Vivemos um tempo paradoxal, em que a generalizada amnésia da sociedade civil convive com uma verdadeira obsessão pelo passado. Paradoxo apenas aparente, dado que esta operação sistemática de recuperação do passado se faz justamente à custa do apagamento de memórias conflituantes ou contraditórias. Impõe-se assim uma memória colectiva de que o florescente fenómeno do comemorativismo é a mais viva e espectacular expressão.

Como era de prever, entre nós essa onda comemorativista alimenta-se, ontem como hoje, do inesgotável leit-motiv dos Descobrimentos Portugueses. Também aqui o 25 de Abril pouco pôde contra a sobrevivência da velha mitologia descobridora e conquistadora, mesmo se revista e reciclada de acordo com a onda pós-moderna, onde queremos mergulhar, passando ao largo da própria modernidade. Na verdade, e pensando apenas nas grandes iniciativas de impacto nacional (e mesmo internacional), uma inquietante linha de continuidade une a Grande Exposição do Mundo Português (1940) à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos (1986-2002).

Entre elas, porventura não apenas em termos cronológicos, situa-se a Expo98 que configura, quanto a mim, um verdadeiro case study da incapacidade do regime democrático em construir uma imagem em tudo oposta à devoradora imagem da velha nação imperial. Não esqueçamos que, ao mesmo tempo que comemorava os 25 anos do 25 de Abril e se apresentava como a mais ambiciosa comemoração do próprio regime democrático, a Expo provocou inevitáveis paralelismos com outras manifestações do passado não democrático – mais precisamente a Grande Exposição do Mundo Português – com as óbvias diferenças que os novos meios tecnológicos permitiram, exemplarmente tipificadas no emblemático Pavilhão da Realidade Virtual, onde as viagens se faziam em frente a um computador, e os Lusíadas se liam do alto de uma torre panorâmica, com base em fantásticos meios audiovisuais. Revolução sim, mas apenas tecnológica…

Porém, tudo se complicou, quando a Expo98 se ultrapassou como Exposição Universal que era, para se assumir como comemoração política por excelência. Isto é, quando não podendo fugir à comparação com a sua antecessora, a Expo reivindica uma outra diferença essencial: é que ela comemora e consagra o regime democrático, ao contrário da Exposição do Mundo Português que consagra justamente o regime ditatorial. Ou seja: que ela se abre ao Mundo, ecumenicamente diluído nas águas de todos os oceanos, enquanto esta se refugiou no passado como uma espécie de Arca de Noé. E aí temos toda a ambiguidade da temática dos Oceanos, do Encontro de Culturas, do Portugal pioneiro da globalização… grandes metáforas para nomear a epopeia imperialista e colonialista. Temas em total sintonia com outros que vieram depois, como a celebração dos 500 anos da descoberta do Brasil, substituída para consumo interno por achamento. Uma actualização semântica, a esconder velhos conteúdos.

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eleicoes-1969

«As eleições de 1969 e as Oposições, 40 Anos depois», no dia 31 de Outubro, numa organização do Instituto de História Contemporânea. Programa detalhado aqui.

«O quadro em que se realizaram as eleições de Outubro de 1969 colocou no centro de debate entre as oposições a questão do fim do regime e da transição. A abertura liberalizante por parte de Marcello Caetano não deixava ninguém indiferente, por mais que formalmente todos o negassem. Apesar de tudo, começava a construir-se um caminho que parecia apontar para uma participação eleitoral unida de comunistas e socialistas, que se consubstanciava na plataforma de S. Pedro de Muel. Todavia nunca deixara de borbulhar uma tensão surda pela hegemonia. CDE e CEUD serão a expressão legal para fins eleitorais dessa tensão que voltaria a dividir as oposições, ao mesmo tempo que outros sectores – católicos, monárquicos e radicais – ganhavam neste contexto alguma expressão. Apesar da velha querela entre ir ou não às urnas, as listas da oposição irão a votos com resultados bastante modestos num processo marcado mais uma vez pela manipulação, pela arbitrariedade e pela violência governamental. Nas eleições de 1969 com as oposições divididas e a repressão do governo esfumavam-se as ilusões numa via de transição gradualista, mas, ainda assim, germinava um novo modelo de organização oposicionista, configurando uma viragem significativa nos seus modos de operar na legalidade.»

tuol seng camodja

Há mais do que um motivo para ser impossível esquecer o Cambodja, onde estive há cerca de seis meses: os magníficos templos de Angkor, a miséria extrema em que vive uma parte da população (*) e as pegadas deixadas pelos inqualificáveis crimes dos Khmers Vermelhos.

O texto de Rui Bebiano, aqui publicado ontem, fez-me «regressar» porque não há família no Cambodja que não tenha uma história semelhante à que é contada no livro que é referido. A do guia turístico que acompanhou o grupo em que integrava não era muito diferente (tinha 13 anos em 1975), o que é inevitável num país que perdeu 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos), em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.

Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Cambodja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu – pura e simplesmente.

Mas o que nunca sairá da memória de quem por lá passou é a «fotografia» de um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como este, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.

 

 
(*) Escrevi, in loco, um pequeno texto sobre as terríveis condições em que vivem muitos cambojanos.

Vítimas do genocídio cambojano

Definir uma gradação para o horror perpetrado pela perversão totalitária é tarefa difícil e um pouco sórdida. Afinal, onde poderemos colocar os limites do razoável quando falamos da imposição pela força de uma ordem que se supõe acima do indivíduo? Ainda assim, os processos de repressão aplicados sob as experiências do «socialismo de Estado», quando comparados, acusam diferenças que não são meras nuances. Em From the Gulag to the Killing Fields, um livro tão necessário quanto terrível e sombrio, Paul Hollander compilou relatos de experiências pessoais da violência política sob os regimes «socialistas» de partido único que o mostram com clareza. De todas as experiências, porém, a mais extrema e absurda foi a vivida no Camboja entre Abril de 1975 e Janeiro de 1979, quando os Khmers Vermelhos procuraram impor, de um momento para o outro, uma experiência de engenharia social que passava pelo aniquilamento instantâneo de todos os vestígios materiais e humanos da ordem «capitalista», e pela instalação, sem quaisquer cedências, de um comunismo ruralista e integral. O resultado foi a destruição sistemática do país – da administração pública, da economia, da saúde, da cultura, da educação, e da própria vida urbana –, mas igualmente a morte de mais de um quinto da população, cerca de 2 milhões de seres humanos, maioritariamente aniquilados pela fome, pela doença, pela tortura ou pela exaustão.

Denise Affonço, filha de mãe vietnamita e pai francês de ascendência portuguesa, residente em Phnom Penh na altura da vitória dos guerrilheiros, poderia ter abandonado a cidade e o país mas escolheu ficar com o marido, um comunista que interpretava a tomada do poder pelos Khmers Vermelhos como um passo para a construção da utopia de igualdade na qual acreditava. De origem chinesa, seria por isso mesmo rapidamente executado, enquanto Denise, com dois filhos menores a seu cargo, se via envolvida numa descida ao inferno da deportação em massa, do trabalho escravo em regiões remotas, e do castigo sistemático, gratuito e cruel, determinados apenas, tal como aconteceu com milhões de cambojanos, pelo facto de ser arbitrariamente considerada uma «representante da velha sociedade», um vestígio vivo dos «demónios do passado» que era necessário matar. Foi longa a sua via-sacra: lugares cada vez mais inóspitos, regimes de trabalho cada vez mais inflexíveis, guardas cada vez mais brutais e discricionários, concentrada apenas na sobrevivência elementar. Mas também na resistência psicológica, particularmente difícil num quadro legal de desumanidade dentro do qual se declarava formalmente ser «proibido exprimir sentimentos de alegria ou de tristeza», queixar-se do quer que fosse, ou afirmar um qualquer traço de individualidade e diferença.

Apesar do tudo aquilo por que passou ao longo de quase quatro anos, e de lá onde se encontrava ter por diversas vezes tocado a frágil linha que parecia separar a vida da morte, Denise sobreviveu para nos oferecer este testemunho perturbante. Redigido com uma capacidade pictórica e uma intensidade dramática apenas possíveis em quem viajou de facto até onde a existência é regida pelo mal mais absoluto, pela barbárie extrema, que de tão inimaginável mais parece retirada do pior dos pesadelos.

Denise Affonço, No Inferno dos Khmer Vermelhos. Testemunho de uma sobrevivente. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Pedra da Lua, 184 págs. [Publicado na LER de Setembro]

Mail recebido hoje: 

«O Proxecto de Investigación Interuniversitario “Nomes e Voces” en colaboración coa Asociación Cultura Aberta de Carral e o Concello do Grove, está a organizar a visita do historiador Francisco Espinosa Maestre (Villafranca de los Barros, Badajoz, 1954) ás vilas de Carral, Santiago de Compostela e O Grove, para impartir tres conferencias entorno a diferentes cuestións sobre o estudo da guerra civil e da represión franquista, aproveitando a recente presentación do seu último libro Callar al mensajero (Península, 2009). 

Deste xeito o Proxecto “Nomes e Voces”, dirixido polo catedrático Lourenzo Fernández Prieto, segue traballando, no marco da súa pescuda sobre a guerra civil e a represión franquista, atento aos debates historiográficos, propiciando espazos de encontro favorables ao intercambio académico e científico. Coa visita de Francisco Espinosa pretende poñer en pé un instrumento de comunicación e reflexión histórica na sociedade favorable á normalización da investigación do Golpe de Estado de 1936 e da represión franquista. 

Acompáñase máis información no PDF.

Grazas pola vosa colaboración na difusión desta noticia, e recibide un cordial saúdo,
Chus Martínez»

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