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No dia 20 de Setembro de 1960, a Assembleia Geral das Nações Unidas admitiu, como membros, mais de uma dezena de países africanos: República dos Camarões, República Togolesa, República Malgache, República da Somália, República do Congo (Leopoldville), República do Daomé, República do Niger, República do Alto Volta, República da Costa do Marfim, República do Chade, República do Congo (Brazzaville), República do Gabão, República Centro-Africana. A estes novos membros juntaram-se, 8 dias depois, a República do Senegal e a República do Mali. A 7 de Outubro, era a vez da Federação da Nigéria. Estavam criadas as condições para que, a 14 de Dezembro desse ano, a mesma Assembleia Geral aprovasse a Resolução 1514 (XV), Declaração sobre a concessão da independência aos países e povos coloniais.

“Reconhecendo o apaixonado desejo de liberdade de todos os povos dependentes e o papel decsivo desses povos na conquista da sua independência”, “consciente dos crescente conflitos originados pela negação ou impedimento dessa liberdade, que constituem grave ameaça para a paz mundial”, “reconhecndo que os povos do mundo desejam ardentemente o fim do colonialismo em todas as suas manifestações”, a Asssembleia Geral das Nações Unidas declarava que “todos os povos têm direito à auto-determinação”, “a falta de preparação de ordem política, económica, social ou educativo não deve servir de pretexto para adiar a independência”, “nos territórios que não conseguiram ainda a sua independência devem ser tomadas medidas imediatas para entregar todos os poderes aos povos desses territórios, sem condições nem reservas, em conformidade com a sua vontade e desejo livremente expressos, sem distinção de raça, credo ou cor, a fim de lhes permitir gozar uma liberdade e uma independência absolutas.” A Assembleia expressa ainda o seu desejo de cooperação de todos os Estados membros nesses objectivos.

Algo que Portugal não se mostra com vontade de fazer. Argumentando que os seus territórios são, não colónias, mas províncias ultramarinas, recusa prestar a informação sobre as condições nesses territórios, exigida ao abrigo das disposições do Capítulo XI da Carta das Nações Unidas.

Salazar terá sido avisado que o equilíbrio internacioal era agora favorável ao eclodir da luta de libertação nas colónias. O que não o demove, nem mesmo quando alguns movimentos de libertação lhe endereçam memorandos nos termos das resoluções da ONU. Estamos em Dezembro de 1960. A luta armada de libertação inicia-se no ano seguinte.

Quando muitos culpam de todos os males acontecidos nas antigas colónias aquilo a que chamam, com desprezo, a “descolonização exemplar”, vale a pena reler o Memorandum então enviado ao Governo Português pelo Partido Africano da Independência (Guiné e Cabo Verde), que aqui se reproduz (*):

 
(*) Documento do Arquivo Amílcar Cabral/ Fundação Mário Soares. 

 
N.B. – O documento encontra-se também online em formato PDF.
 
 
MEMORANDUM ENVIADO AO GOVÊRNO PORTUGUÊS pelo PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA (Guiné e Cabo Verde)
 
O PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA (P.A.I.G.C.), que luta pela independência total e imediata dos povos guineense e caboverdiano no quadro da unidade africana, tem seguido com atenção todas as medidas tomadas pelo Govêrno português para tentar manter o seu dominio colonial sobre os povos da Guiné e Cabo Verde. Forçado pela opressão colonial e pela repressão policial, a agir na clandestinidade, o nosso Partido tem mobilizado e organizado as massas populares para a luta de liquidação urgente da dominação colonial portuguesa na Guiné e em Cabo Verde. 

Embora conhecendo de sobejo a posição até agora adoptada pelo Governo português em relação à descolonização, os povos da Guiné e Cabo Verde e o nosso Partido têm estado a “esperar o melhor sem deixar de se preparar para o pior”. Temos esperado, com paciência que os actuais dirigentes de Portugal se resolvam a  analisar concretamente a situação dos nossos paises e dos próprios interesses portugueses – e se decidam a reconhecer aos nossos povos o direito à autodeterminação, consagrado pela Carta das Nações Unidas e respeitado pela esmagadora maioria das potências coloniais. 

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prp acção porco 1972

Em Julho de 1972, quando Américo Tomás foi reeleito Presidente da República, as Brigadas Revolucionárias lançaram dois porcos nas ruas de Lisboa, conforme descrito no comunicado que então foi distribuído e que abaixo se transcreve. Os ditos porcos estavam untados, pelo que a polícia não conseguiu agarrá-los e teve de os matar à metralhadora.

  
Comunicado BR's Porcos 1972

Fonte: Fundação Memoriando

avante
 
Numa vila de forte concentração fabril assente em três pólos (CUF, oficinas ferroviárias, corticeiros) onde as colectividades proliferavam como cogumelos, agregando afinidades e gerando rivalidades, era nesses locais que se concentrava o grosso do convívio e a partilha das paixões menores, onde a distensão pós-laboral encontrava o seu espaço de catarse. O primeiro passo para a inserção era escolher e escolher pressupunha optar entre grandes ou médios amores e pequenos ódios, depois havia que fazer o itinerário da iniciação, a que se sucedia a fusão cultural com os rituais e os símbolos até se atingir o estágio identitário. O operariado dominante, em termos demográficos e sinaléticos sócio-políticos, transpunha para a colmeia associativa do Barreiro reproduções possíveis, aquelas que eram passíveis de romperem a malha da vigilância repressiva, das suas organizações produtivas, incluindo as respectivas hierarquias (os empregados e a aristocracia operária dominavam os órgãos dirigentes), formas culturais próprias, os seus mitos e as aproximações às camadas urbanas estabelecidas fora dos muros das fábricas. Nesta rede social de convívios compensadores de realidades laborais, com códigos sucedâneos vincados, as maiores dificuldades de escolha e inserção estavam, naturalmente, reservadas aos jovens, particularmente aos que estudavam e que tinham adquirido afinidades que extravasavam a fixação paranóica na urbe onde as fábricas eram pólos de dominação e opressão, em que uma «cultura fabril» prolongava a sua centralidade económica. De tal forma o conseguia, misturando tradição, reconhecimento, consciência e insubmissão, traços muito próprios e genuínos nos barreirenses, que os grandes mitos humanos circulantes, enquanto referências exaltadas, caminhando a par e em espantosa conciliação, eram Cunhal (o herói-mártir da resistência) e Alfredo da Silva (o super-patrão da CUF e adepto da gestão paternalista-assistencialista). O que representava um milagre cultural e político pela completa ausência de antinomia com que a maioria dos barreirenses fazia a gestão harmoniosa destes dois símbolos afectivos, tão opostos na luta de classes, mas tão próximos no afecto da admiração dos gratos. 

No início da década de sessenta, o Café Tico-Tico, colocado bem no centro do Barreiro, na avenida mais nobre, junto ao mercado e ao jardim do núcleo urbano (o Parque), assume uma dimensão convivial excêntrica relativamente às colectividades, operando uma espécie de importação dos espaços gregários e lúdicos homólogos que vincavam Lisboa, ali tão perto e tão longe. Rapidamente, o Café Tico-Tico transformou-se no pólo de encontro da pequena e média intelectualidade do Barreiro. Com um piso térreo onde abancavam os clientes mais maduros e onde pontificava o Mestre Cabanas, um idoso combatente antifascista, artista autodidacta em gravura sobre madeira, e que ali montara a sua banca de realização estética. O piso mais alto, em forma de varandim, com vista para o movimento em baixo, era o poiso preferido de estudantes que liam ou descansavam os livros e cadernos de estudo, galhofavam e ensaiavam namoros, enquanto os mais dados às aventuras intelectuais, cruzavam apreciações definitivas sobre os últimos livros publicados ou jogavam xadrez.

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Manifestação em CuChi, Vietname (1965)
  Manifestação anti-americana em CuCchi, Vietname (1965)

A morte de McNamara (hoje ocorrida) traz-me à memória o primeiro abaixo-assinado que subscrevi.
Tinha 17 anos. Entrara, há pouco ainda, para a Faculdade de Medicna de Lisboa – e, quase de seguida, para a CPA – a Comissão Pró-Associação dos estudantes da mesma.
A minha entrada na vida associativa revelara bem a extensão da minha inexperiência política: tendo ouvido por acaso o que me pareceu ser uma manobra para eleger o “bom” delegado de turma do 1º ano, decidi candidatar-me contra ele, explicando a razão. Penso que só não fui banida para sempre do convívio associativo pela intervenção do Luís Lemos (que, pouco depois, escaparia por pouco às prisões do 21 de Janeiro de 1965) que, quando vários me fuzilavam com o olhar, veio em meu socorro dizendo que era de jovens assim – afoitos defensores dos princípios que consideravam correctos – que a CPA precisava. Tive 2 votos. Um foi, naturalmente, o meu. Tendo o voto sido secreto, ignoro, até hoje, quem, de entre os meus colegas, depôs o voto solidário.
O certo é que, a partir daí, me integrei, melhor ou pior, na vida política estudantil. O que explica como é que alguém – julgo que um então estudante de Direito, famoso tanto pela inteligência como pela perícia nos matraquilhos – me convidou a ler e subscrever, estando de acordo, esse primeiro abaixo-assinado.
É que estava para actuar em Lisboa, salvo erro tocando jazz, uma banda da Marinha norte-americana. E a Marinha dos Estados Unidos era aquela mesma que bombardeava as costas – e o povo – do Vietnam. Poderíamos nós, jovens conscientes, anti-colonialistas e anti-imperialistas, admitir essa afronta? Seria possível para nós ouvir tocar esses homens esquecendo que, nesse mesmo momento, havia gente a morrer pela acção dos seus camaradas de armas?
Não!
Havia que mostrar aos Estados Unidos e à sua esquadra que a música não bastava para nos fazer esquecer os bombardeamentos no Pacífico. Eu gostava (e gosto) de jazz. Mas foi sem grande hesitação que assinei o documento. Até hoje, não me envergonhei de o ter feito.

Comboio da Memória

Depois de em 2005 ter publicado Pós-Guerra, Tony Judt passou a ser um dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos circuitos universitários. Mas O Século XX Esquecido, editado posteriormente, aproxima-se mais de The Burden of Responsability, lançado em 1998, um livro sobre a tradição intelectual francesa do período inaugurado com a vitória dos aliados que se inscreve num dos interesses estáveis de investigação de Judt. A edição portuguesa omite a palavra que se destaca no título original – Reappraisals, reavaliações – e é pena que o tenha feito, pois o volume, agrupando 23 ensaios escritos entre 1994 e 2006, propõe justamente uma série de olhares bastante originais, apoiados por uma excelente capacidade de argumentação e apresentados sob a forma de regressos, de releituras, a realidades relativamente recentes que a vertigem da «era do esquecimento» se tem encarregado de suprimir.

Do conjunto emergem duas preocupações maiores de Judt. A primeira enfrenta o «desaparecimento do intelectual» como instrumento de uma consciência crítica do seu tempo, cuja herança não está garantido que sobreviva às mudanças actualmente em curso. A outra diz respeito à aceleração dos processos de esquecimento do passado e de instrumentalização da memória. Ambas atravessam as quatro partes nas quais os ensaios escolhidos foram arrumados. A inaugural apresenta um conjunto de viagens ao «coração das trevas», olhando de perto a trajectória de intelectuais que de diferentes maneiras se confrontaram com a experiência totalitária: Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt e o agora quase esquecido Manès Sperber, inequivocamente observados com um respeito enorme pela dificuldade extrema das suas escolhas e do seu trabalho solitário. Já a segunda parte, ocupando-se do «compromisso intelectual», regressa de uma forma crítica e bastante original à obra de Albert Camus, Leszek Kolakowski, Edward Said, Eric Hobsbawm, Louis Althusser e Karol Wojtyla, os dois últimos glosados de um modo particularmente cáustico.

Nas terceira e quarta partes intervêm outros interesses de Judt, que vão da história política e cultural da Europa a partir do pós-Segunda Grande Guerra, narrada ponderando a relação das diferentes experiências nacionais com os seus diversos «lugares da memória» – apropriando-se aqui do conhecido conceito lançado por Pierre Nora – à evolução da sociedade americana desde os tempos duros da Guerra Fria aos anos de George W. Bush e da vertigem neocon. Pelo meio dois importantes artigos relativos à história de Israel – onde Judt, de ascendência judaica, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvida na experiência inicial dos kibutzim – , contendo a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias (1967), bem como a defesa de um «Estado binacional». Posições que lhe valeram o ódio e actos de vindicta por parte de organizações judaicas, em particular algumas das sediadas nos Estados Unidos. Quase sem momentos fracos, O Século XX Esquecido é um livro soberbo, cuja leitura nos pode ajudar bastante a decifrar o presente que nos cabe viver.

Tony Judt, O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias. Tradução de Marcelo Felix. Edições 70, 464 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Junho]

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  Fotografia de Hélder Gonçalves

O exercício de caminhar através das memórias mais distantes, e profundas, é um acto de libertação. Partilhá-las com a comunidade que se dispõe a acolhê-las para nelas se rever, ou não, é um acto de comunhão. São razões que bastam para retomar alguns escritos antigos do tempo em que o Absorto era um mero espelho das palavras que nele desenhava.

Não queria ir. Não me sentia bem na minha pele. Mas estava tudo preparado. A teoria e o ritual. Sabia de cor as orações e o resto. Mas não queria ir. No dia dos actos solenes sempre me sinto com vontade de fugir. Não gosto de actos solenes. Depende das circunstâncias sofrer mais ou menos. Com os anos aprendi a defender-me e sofro menos. Porque não podemos fugir a todos os actos solenes.

Mas naquele dia fugi mesmo. A minha mãe correu atrás de mim. Fui à força a caminho da Sé. Cumpri, como sempre, com a minha obrigação. Percorri todos os caminhos de uma autêntica formação católica. Ficaram-me marcados na memória os personagens, os rostos e os cheiros. Alguns admiráveis e repousantes como os padres Patrício e Henrique. Outros execráveis e repugnantes. Aprendi a olhar para dentro e a falar comigo próprio.

Gosto de ler a poesia de Adélia Prado. E de ouvir o silêncio solene do interior de um templo vazio. De olhar as capelas e os altares. De admirar as obras de arte que os habitam. E de observar a crença dos que os frequentam. No fim da vida o meu pai, que eu julgava agnóstico, rezava. Mas não gosto de participar em rituais. Não gosto de seitas. Nem de associações secretas. Sejam religiosas, políticas ou outras. As suas obediências e silêncios não se conjugam com o meu conceito de liberdade. Isso explica muita coisa.

Fiz a comunhão solene. Tenho até uma fotografia, muito impressiva, acompanhado pelos meus pais e padrinhos (ou será do crisma?). Não me lembro, ao certo, como regressei da Sé. Mas lembro-me de nunca ter acreditado na confissão. Nunca ninguém, de verdade, se confessa. O que retenho, com nitidez, foram a vista e o cheiro das laranjeiras do largo da Sé de Faro. E um sorvete que comi, na Brasileira, às escondidas. Em pecado. Capital.

 
Biografia de Eduardo Graça

Vasco Carvalho

Por ocasião do centenário do seu nascimento, um texto de José Hipólito dos Santos (*)

Lamento não ter, neste momento, a possibilidade de dizer o muito que me apetecia sobre o meu convívio de 50 anos com Vasco de Carvalho.

Apenas algumas palavras sobre esse Homem íntegro, discreto, estudioso e rigoroso em tudo em que se envolvia, a nível profissional, político e cívico. Isso lhe permitia participar activamente em debates, conhecendo bem os assuntos, mas sempre aberto a novas abordagens de reflexão, a novas formas organizativas, a novas alternativas.

Sempre o conheci radicalmente anticapitalista, sua matriz de fundo, como o conheci sempre comunista, como eu próprio e muitos outros jovens na época.

Mas um comunismo sem partido único, sem polícias políticas, nem a tortura como forma generalizada de interrogatório, sem milhares de Tarrafais para onde as pessoas eram enviadas para morrer, sem Tribunais Plenários, sem condenações aos milhões, incluindo à morte; sem Sindicatos Únicos dirigidos por membros do partido, transmissores das ordens do mesmo, sem o medo generalizado dos trabalhadores, dos estudantes, das pessoas em geral, de se exprimir ou tão só de pensar!

A rejeição do capitalismo e desse comunismo totalitário tornou-se para nós numa referência de reflexão e busca. É quase um legado do Vasco.

O Vasco de Carvalho procurava conhecer as novas alternativas sociais, políticas, cívicas, ecológicas, femininas ou não, que estavam (estão) surgindo por toda a parte – a antiglobalização, os movimentos sociais (os novos e não aqueles que reproduzem os modelos do «antigamente», monolíticos e sectários), novas formas cooperativas e outras experiências sócioeconómicas fundadas sobre a auto-organização, a solidariedade, o anticonsumismo e a rejeição do valor trabalho como valor supremo de referência para toda a reflexão de esquerda.

Face à crise, raio de esperança, é tempo de voltar ao legado intelectual, político e cívico de homens como José de Sousa, Emídio Santana, António Sérgio, Vasco de Carvalho. Há que ter a coragem de pôr em cima da mesa o contributo extraordinário de homens esquecidos, caluniados mas que se mantiveram sempre de cabeça alta, que mantiveram sempre a sua cabeça ao serviço da Humanidade.

 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos

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«La coalición de la canciller alemana, Angela Merkel, planea aprobar una ley para rehabilitar a todas las personas catalogadas como traidores por los nazis durante la Segunda Guerra Mundial, dijo el martes un líder conservador.(…)

Los tribunales militares nazis condenaron a cerca de 30.000 personas a muerte por deserción y traición durante la guerra y cerca de dos tercios de ellos fueron ejecutados, según medios alemanes. Según historiadores, los nazis utilizaron el cargo de traición para condenar a soldados y civiles a muerte por resistencia política y por ayudar a judíos.»
 
(Público.es)

Cunhal e Soares 1974

Analisámos até aqui apenas figuras militares, que foram com toda a justiça estrelas de primeira grandeza no universo revolucionário. Contudo, o seu protagonismo não é exclusivo e outros haverá, também da parte civil, que se destacam. E, entre estes, tal como acontece com Vasco e Otelo, há uma dupla na qual, por breve tempo, o imaginário da revolução se projectou, e cuja separação tornou o sonho inalcançável. 

1. É o caso dos dois maiores líderes da oposição, ambos perseguidos e condenados ao exílio, que regressam triunfalmente ao país, para assumir as mais altas responsabilidades, logo após a vitória militar: Álvaro Cunhal e Mário Soares. Basta recordar o entusiasmo com que foram acolhidos, os paralelismos históricos, as metáforas e ressonâncias míticas que o seu regresso desencadeou no imaginário colectivo. A chegada de Mário Soares de comboio a Sta Apolónia (num claro paralelismo com os dirigentes da 1ª República, ou com Humberto Delgado) chegou mesmo a ser comparada com o regresso de Lenine do exílio em 1917. O comentário de Mário Soares a propósito – «Lenine era um grande homem, eu sou apenas um militante…» – não deixa de contrastar com o papel central que lhe estava destinado desde o primeiro dia.Álvaro Cunhal, não menos simbolicamente, realiza o seu primeiro comício no aeroporto, de cima de um carro blindado repleto de cravos, para o qual foi literalmente lançado mal saiu do avião, numa nítida antecipação do que viria a ser o alfa e o ómega da linha política do partido que chefiava: «Aliança Povo/MFA». E quando lhe perguntaram o que sentia, respondeu simplesmente: «Confiança, confiança no Povo Português!»Também o abraço do seu reencontro, presenciado com indescritível emoção pela impressionante massa humana naquele memorável 1º de Maio de 1974, ficou registado como um brevíssimo momento de unidade entre os dois «inimigos íntimos» (expressão de Mário Soares) que tudo parecia juntar, mas cujas vidas extraordinárias se limitaram a passar breves e cautelosas tangentes. 

2. Ambos filhos de oposicionistas ilustres receberam no berço a mesma formação. O pai de Cunhal foi, em 1923, Governador Civil da Guarda, cargo que fora ocupado por João Soares, pai de Mário Soares. Conheceram-se em Lisboa, no Colégio Moderno, onde CunhaDebate Soares-Cunhal 1975l foi regente de estudos de Soares que, por influência dele, aderiu ao PCP. Mas os seus encontros, na condição de exilados e opositores à ditadura, foram marcados por crescentes dissidências políticas e, para além disso, por personalidades inconciliáveis.Juntou-os o «milagre» do 25 de Abril, mas essa comunhão duraria pouco, menos ainda do que a dos heróis militares Vasco e Otelo. Porém, ao contrário do que aconteceu com estes, a separação, apesar de fatal à revolução, não os enfraqueceu nem condenou ao esquecimento. Muito pelo contrário: cada um a seu modo, vão ser referências nucleares do processo de normalização pós-revolucionária. 

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Senho Roubado
 

Um texto de Jorge Martins (*)

Vem este texto a propósito de uma situação que se arrasta há muitos anos e que tem feito caminho. De facto, tem-se repetido sistematicamente um erro histórico, que os nossos estudantes copiam exaustiva e acriticamente. Não se lhes pode imputar o erro, mas há que corrigi-lo, para que a verdade seja reposta e deixe de servir de (mau) exemplo, sobretudo para as escolas. Acresce que o próprio painel de azulejos do monumento ao Senhor Roubado conta a história do caso de acordo com os interesses do clero, que tomou a iniciativa de erguer o padrão e relatar os acontecimentos com erros históricos e numa versão manipulatória. 

A história conta-se em meia-dúzia de palavras. Na manhã do dia 11 de Maio de 1671 o padre da paróquia de Odivelas encontrou a Igreja Matriz virada do avesso: tinha sido assaltada na noite anterior, tendo sido roubadas algumas peças, vestuário de santos e as hóstias. Logo se responsabilizaram os judeus pelo nefando sacrilégio. Fizeram-se preces, procissões, versos antijudaicos, auto-flagelações indescritíveis e a Corte ficou de luto. Um mês depois, em 16 de Junho, foram encontradas algumas das peças roubadas, enterradas justamente no local onde viria a ser edificado em 1744 o padrão ao Senhor Roubado. Em 16 de Outubro do ano do roubo foi preso, junto ao Mosteiro de São Dinis – a dois passos da assaltada Igreja Matriz de Odivelas –, um sujeito que tentava roubar as galinhas do mosteiro. Foi preso e identificado como autor do roubo de 10 de Maio. Como não bastasse a confissão, foi interrogado sob tortura, por dois inquisidores, concluindo-se que se tratava de um pobre diabo, sem o juízo todo, que ficara fascinado com as reluzentes vestes dos santos e, perdido de bêbedo, comera as hóstias. O ladrão chamava-se António Ferreira e foi condenado a que lhe cortassem em mãos em vida e queimadas à sua vista, após o que foi garrotado e queimado numa fogueira ateada no Rossio no dia 23 de Novembro de 1671. 

Na minha actividade docente tenho solicitado aos alunos – futuros professores dos 1º e 2º Ciclos – trabalhos sobre o património e a história do concelho de Odivelas, o que tem incluído, naturalmente, o caso do Senhor Roubado. Ora, se formos à página electrónica da Câmara Municipal de Odivelas, podemos ler:

«Numa época de extrema religiosidade, a dimensão deste caso foi tal que, quando chegada a notícia à capital, a rainha D. Luísa de Gusmão (mulher do Rei D. João IV, e nessa data regente do reino) enviou missivas a todo o reino, e foram afixados éditos prometendo recompensa em dinheiro e um emprego na justiça ou na fazenda, a quem denunciasse o autor do crime; a corte pôs luto e foram feitas procissões nas ruas.» (acesso em 27/06/2009 às 17.30h)

Na verdade, a rainha D. Luísa de Gusmão (1613-1666) havia falecido 5 anos antes do roubo da igreja, pelo que não poderia, obviamente, enviar cartas. Este e outros erros são repetidos à exaustão, pois o recurso à Internet constitui hoje a primeira forma de pesquisa. Senhor Roubado - AzulejoRapidamente chegam à página da Câmara Municipal e ressuscitam inimputavelmente a rainha. Este erro foi introduzido no concelho por um pequeno opúsculo publicado originalmente pela Junta de Freguesia de Odivelas e reeditado pela Comissão Instaladora da Câmara Municipal de Odivelas, onde se afirma: «A rainha D. Luísa de Gusmão (viúva do rei D. João IV e mãe do príncipe regente D. Pedro) aconselhou um dos secretários de Estado a enviar missivas para que todo o reino soubesse do sucedido.» (O Senhor Roubado, Município de Odivelas / Divisão de Turismo, Odivelas, s.d. [2001], p. 10). O mínimo que se exige é que os serviços competentes da Câmara corrijam imediatamente este embaraçoso erro de palmatória.

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No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos pintou, em Lisboa, um mural que viria a desaparecer, num incêndio, em 1981. Entre os pintores, muitas caras conhecidas : Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, etc., etc.

O filme que hoje se divulga é um documento precioso, muito pouco conhecido. É da autoria de Manuel Costa e Silva e foi-me disponibilizado por Fernando Matos Silva.

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 Peter Marlow   

Reproduzo, de seguida, o meu testemunho, acerca do contexto em que a Nova Esquerda que eu conheci surgiu, e morreu, numa posta que escrevi, em Abril de 2004, sob o título «“Do MES à Nova Esquerda«. A ideia generosa da «Nova Esquerda« fracassou, nos difíceis anos 80 do século passado, como movimento autónomo porque, na verdade, a renovação da esquerda carece de muito mais do que de imaginação, boas ideias e boas vontades.  Ontem como hoje.    

Nas reuniões e discussões prévias ao I Congresso [do MES] lembro-me de ter, em diversos momentos, divagado a sós, angustiado pela percepção da «quadratura do círculo« que constituía, naquelas circunstâncias, conciliar a democracia representativa com a democracia directa, ou «poder popular».

Uma síntese impossível. Era necessário ganhar tempo, mas a gestão do tempo não era o nosso forte, nem o «espírito da época» favorecia as esperas sábias e pacientes.

As revoluções criam uma especial escala do tempo em que nos sentimos atraídos pela acção e a acção exige mais acção. A única saída possível para tornar o MES um Partido útil, na construção da democracia representativa e participativa, tinha-se esfumado com o desenlace daquele Congresso.

Os que romperam prepararam pacientemente a sua integração no PS. Os que ficaram, por convicção ideológica ou devoção a amizades autênticas, forjadas nas lutas do passado, foram absorvidos pela voragem dos acontecimentos e foram saindo, em levas sucessivas, até à extinção do movimento no célebre jantar do Mercado do Povo.

Após a extinção do MES alguns de nós dinamizaram, no início dos anos 80, a criação da «Nova Esquerda» em cuja declaração de princípios se preconizava o «desenvolvimento de um novo pensamento de esquerda que, assentando fundamentalmente na ideia do socialismo democrático, clarifique as suas fronteiras, encare os valores da liberdade individual, da solidariedade social e da iniciativa modernizadora (tanto ao nível económico como cultural), como elementos constitutivos essenciais».

Defendia-se, num notável documento de Julho de 1984, que mantém plena actualidade, entre outros objectivos, o debate «”aberto e inconformista que envolva todos os sectores interessados na modernização do país», o «reforço da democracia» e a «adesão à CEE».

Esse documento preparado para a criação de uma abortada «Cooperativa Nova Esquerda» foi assumido por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça, Eurico de Figueiredo, Jofre Justino, José Leitão, Júlio Dias, Margarida Marques, Sara Amâncio, Tereza de Sousa e Vitor Wengorovius.

Em 21 de Abril de 1986 a Comissão Coordenadora da «Nova Esquerda», constituída por Afonso de Barros, Agostinho Roseta, Eduardo Ferro Rodrigues, Eduardo Graça e Vitor Wengorovius anuncia que, após seis anos, a «atitude de solidariedade crítica externa ao PS se esgotou e deve ser superada por uma intervenção política concreta que, para a maioria dos membros desta comissão, pode e deve ser realizada, desde já, dentro do PS».

Em consequência, no decurso do ano de 1986, todos os membros da Comissão da «Nova Esquerda», com excepção de Vitor Wengorovius, entre outros ex-activistas do MES, aderiram colectivamente ao PS.

 
Biografia de Eduardo Graça


  Malangatana – Auto-retrato

No dia 7 de Setembro de 1974, em Lusaca, foi assinado, pelos representantes do governo português e da FRELIMO, o acordo que levaria à independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975.

 

 
Algumas datas e imagens aqui.

O «Movimento Activista por um Camões Alternativo» do Liceu Camões, em Lisboa, tem um blogue onde acaba de divulgar como foi vivido o 25 de Abril deste ano naquela escola.

«Na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974, um grupo de jovens soldados arrisca as suas vidas e as suas liberdades por um bem maior: a Liberdade e a Vida de uma Nação, de um Povo.
No dia 24 de Abril de 2009, um grupo de jovens estudantes arrisca…pouco ou nada, diga-se de passagem, recriando essa madrugada e homenageando os jovens de 74, para se certificar de uma coisa: que 25 de Abril não será esquecido. Pelo menos não pelos habitantes do Lyceu Camões.»

Quando se fala de desinteresse dos jovens por estas realidades do nosso passado recente, importa não esquecer que há muitas e notáveis excepções.

 

Lenine no rio 

Havia (e haverá, pois julgo que ainda estará vivo,) no Barreiro, uma pessoa chamada Estaline de Jesus (julgo que Estaline por parte do pai e Jesus por parte da mãe) o que era uma prova viva que as religiões sempre se encontram. Nunca o conheci pessoalmente apesar de ele ser, pelo impacto do nome, uma referência da terra, mas será de uma geração mais nova que a minha, o que explica que dele só fale por eco. Não tenho, assim, testemunho a dar sobre este famoso barreirense.  

Mas tenho um sucedâneo que, sobre esse, posso prestar testemunho directo e vivo na memória. Continuando no mesmo Barreiro que gerou o Estaline de Jesus, nos anos 50 do século ido, tive um colega de escola e turma, que se chamava, por nome próprio, Lenine (este sem santidade cristã acopolada). E ainda hoje re-oiço os ecos dos gritos das nossas futeboladas de recreio em que nós, os outros putos (reles mencheviques por falta de brasão revolucionário no apelido), desesperados pelo egoísmo de posse de bola do craque que era bolchevique por vontade parental, lhe gritávamos a pulmões cheios: “foda-se, passa a bola, ó Lenine!”, o que, em tresleitura, até parece um slogan de dissidentes. O que é uma falsa aparência pois aquele Lenine era catita, questão de fome de posse de bola à parte, e sobre bolchevismo, a malta, naquela idade, sabia menos que nada. Mas este Lenine, enquanto Lenine no nominativo, não durou muito (o titular do nome, esse, deve ser um reformado sobrevivo e cheio de genica, pelo menos são estes os meus votos). É que, como se compreende para a época, o nome deste meu estimado colega de meninice não era bem visto pelas autoridades, tanto mais que, no Barreiro da época, reinava uma repressão de chumbo, estando sob ocupação militar da GNR que acolitava os olhos e as matracas da PIDE. 

Entre os vigilantes mores da situação estabelecida e dos bons costumes, contava-se, como quase sempre esteve no fascismo, a Santa Madre Igreja. E o padreca, nosso professor de Religião e Moral, tirou a peito aliviar o bom do Lenine daquele nome ímpio que lhe constava no Registo. E conseguiu-o, após pressões e chantagens várias, exercidas sobre a família. Não me recordo qual o nome substituto pelo qual, numa qualquer operação manhosa de crisma, o Lenine passou a chamar-se à luz da Igreja e do Registo. Mas o que garanto é que, para nós, os inconscientes mencheviques seus camaradas em escola e recreio, ele continuou a ser “o Lenine“, sobretudo quando das nossas futeboladas acesas. Falando só por mim, mas não duvidando que não terei sido caso único, cresceu, deste modo, uma imensa curiosidade em saber quem era esse tal Lenine, não aquele puto egoísta de posse de bola mas o inspirador baptismal, que tinha um nome proibido de se chamar. Este é um dos paradoxos da minha educação política e ideológica, obtida no santo mistério da contradição, que ainda hoje não renego como dívida eterna à Santa Madre Igreja dirigida por Cerejeira.

 
Biografia de João Tunes

Boris Vian

Boris Vian morreu com 39 anos, vítima de crise cardíaca, em 23 de Junho de 1959. Escritor, engenheiro mecânico, inventor, poeta, cantor e trompetista, teve uma vida muito acidentada e ficou sobretudo conhecido pelos livros de poemas e alguns dos seus onze romances, como L’écume des jours e L’automne à Pékin.

Célebre ficou também uma canção – Le déserteur – que foi, durante muitos anos, uma espécie de hino para todos os que recusavam a guerra – incluindo muitos portugueses. Lançada durante a guerra da Indochina, foi grande o seu impacto e acabou mesmo por ser proibida por antipatriotismo, na rádio francesa, pouco depois do início da Guerra da Argélia.

 

 
Por ocasião do 50º aniversário da morte de Boris Vian, Valère-Marie Marchand acaba de publicar uma biografia – Boris Vian, le sourire créateur – que pode ser lida gratuitamente na internet, ou comprada online sob a forma de PDF.

A autora deu também esta longa entrevista onde fala da vida e da obra de Boris Vian.

 

Assembleiada Republica

 
Um texto de Helena Pato (*)

A esta distância, pelas minhas contas, creio que corria o ano lectivo de 1957/58. Contas de um longo rosário (ver a nota informativa que junto a este testemunho).
O dia 16 de Janeiro de 58 iria ser um dia especial: aos meus olhos de jovem, acabadinha de sair de um liceu da Capital poucos meses antes, eram milhares os estudantes universitários que se encontravam na Assembleia Nacional, prontos a pressionarem o simulacro de debate que aí teria lugar. Estava em causa um decreto-lei que visava liquidar o movimento associativo estudantil, em crescente expansão nos anos lectivos anteriores. Na verdade, com o Dec-Lei 40900 o Governo propunha-se restringir a autonomia das Associações e Pró-Associações de Estudantes do Ensino Superior, limitando-lhes de tal modo as funções que, na prática, as encerrava através de legislação.
De uma coisa tenho a certeza: alguns estudantes nem conseguiram entrar e a maior parte ficou pelos corredores, enchendo-os, sem sequer aceder às galerias. Não havia lugares para tantos. Mas eu entrei e lembro-me, lembro-me desse dia muito bem – já vão ver porquê.

Em baixo, os deputados, vestidos de negro, pareciam-me semi-adormecidos, recostando-se nas cadeiras como se procurassem uma posição confortável para a sesta. Não seria exactamente assim, mas tantos anos depois ainda retenho a imagem de uma massa negra sonolenta, emitindo um estranho rumor, produto confuso de múltiplas exclamações de «Apoiado!» com algo que então se me afigurou ser o ressonar de uns quantos, já completamente caquécticos. Isto enquanto uma meia dúzia de oradores com maiores convicções, ou mais ambição política, discursaram, a tentar ser escutados por um mumificado presidente da Assembleia.
Duraram pouco esses momentos em que, cheios de bom humor, gracejávamos, observando tudo atentamente, registando inconscientemente para a História a nossa visão da Assembleia Nacional fascista em funções. Era facto que tínhamos ido ali com um objectivo preciso – acompanhar os dirigentes num gesto inequívoco de contestação – e só nos mantivemos em silêncio enquanto aguardámos a entrada do Dec-Lei na ordem do dia. Depois, aconteceu uma espontânea pateada geral, com a consequente expulsão de todos nós das galerias e do edifício. Em boa verdade, a minha história começa aí.
Nas escadarias da Assembleia começou a desenhar-se uma manifestação que, claro, foi prontamente reprimida pelas «forças da ordem». A polícia chegara às centenas antes do início da sessão, já tinha começado a bater nos que não chegaram a entrar no edifício e aguardava sofregamente a nossa saída. Eram dezenas e dezenas, de cassetete em punho, numa corrida louca, carregando forte e feio sobre todos os que conseguiam apanhar. Alguns de nós tentaram escapar-se, subindo as Escadinhas da Travessa da Arrochela, em frente do Palácio de São Bento, e muitos foram brutalmente espancados nesse lugar. Lugar de memória, esse.

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José AugustoDesde a infância até à adolescência, ter-se um ídolo, ou vários, é uma âncora fundamental para a saúde do crescimento. Depois, em idade adulta, o culto dos ídolos já é mais discutível – pode dar para o torto quando deriva de infantilização tardia ou ser uma bengala útil que ora se usa e se vai metendo em repouso. O problema dos ídolos é que eles são fugidios, deixam marcas fortes pelo rasto de mimetização e depois seguem viagem para dar lugar a outros ou devolvendo-nos à orfandade de refúgio para darmos conta de nós. Por instinto, vamos lidando com as projecções nos nossos ídolos, gerindo a sua volatilidade entre presença e ausência e ainda, parte dura, a sua intangibilidade. Pelo meio, é a boa gestão desta relação com os ídolos que nos dá a paz do equilíbrio por não sermos forçados nunca a medirmos, taco a taco, a dimensão da nossa «pequenez» perante tanta «grandeza», a do ídolo, podendo viver, com autoestima, um talento ou fama emprestadas. Mas o problema original da lide com os ídolos surge em conseguir tê-los à mão de semear, mas que pode, por proximidade com o imaginário, matá-los ao abrir da redoma. Se a distância desaparece e eles passam do ideal para a realidade, ou caem com os seus pés de barro e adeus vindima, afinal são humanos como nós, ou então são mesmo grandes e supremos e sentimo-nos mal ao medirmos as alturas relativas. Assim, para poder ser fonte de saúde, o herói deve estar suficientemente longe mas em altar onde façamos as nossas missas.

Arrasto, na minha memória, a sombra dos meus ídolos passados. A mais forte é, como costume, a do primeiro na fila da lembrança. Que, para não fugir à regra dominante dos miúdos varões, foi um jogador de futebol. Era o José Augusto, famoso extremo direito, então ainda a jogar no Barreirense mas já a gozar de fama mais que merecida. Um dia, tinha para aí os meus onze anos, fui cumprir uma das obrigações terríveis que um miúdo tem de suportar devido à ditadura dos adultos, a de cortar o cabelo. Havia uma barbearia bem junto ao campo do Barreirense com quem estava ajustado o contrato de, todos os meses, me cortarem o cabelo. Aquilo era um tormento, o feitio do corte estava pré-escolhido pela autoridade familiar, tinha um remoinho capilar que era indomável, custava-me esperar ouvindo conversas intermináveis sobre assuntos de adultos que nada me diziam e parecia-me infindável aquele tanto tempo de tesouradas e aparadelas com uns toques agressivos na cabeça de cada vez que tendia a virá-la para o lado errado ou deixá-la descair. O barbeiro tinha já iniciado a sua sessão de tortura quando se senta na cadeira ao meu lado, ali mesmo ao pé de mim, o José Augusto, o craque. Ia dando, emocionado e intimidado, as minhas miradas de soslaio para o meu herói, subitamente ali à minha beira, na singela distância entre duas cadeiras numa barbearia. O tempo foi passando e, enquanto eu ia sendo tratado secamente pelo profissional que cuidava da minha rebeldia capilar num crescendo de irritação para com ela, o colega que tratava do José Augusto era só mesuras e deferências para com o cliente famoso, um orgulho da terra e do clube. E a minha tortura arrastou-se, nesse dia, muito mais que o normal pois quem cuidava de mim era todo vagares e paragens na função para poder beber os pormenores que o José Augusto, ali ao lado, confidenciava sobre peripécias de jogos e treinos. Não gostei da experiência daquela proximidade que, antes, daria tudo para a conseguir. Porque em vez de ganhar grandeza com a proximidade do meu herói, senti-me ainda mais desprezível e irrelevante. Em vez de crescer, eu fui ainda mais reduzido à condição de miúdo irrelevante. Nada passaria a ser melhor, para mim e para a minha fama, não aprendi sequer uma finta ou um remate imparável, por ter, naquele dia, cortado o cabelo com o José Augusto ao meu lado. E um craque que viria a espantar todo o mundo com o seu talento de exímio extremo direito, a quem prestara culto embevecido, apeou-se ali em mistura com o meu cabelo aparado por uma tesoura de barbeiro. De vez em quando, cruzo-me com ele quando vou ao Barreiro, ambos envergando os nossos cabelos brancos. Presto-lhe um cumprimento de anónimo com a deferência mínima devida para com um ídolo apeado numa sessão de barbearia.

[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

Biografia de João Tunes

Otelo e Vasco Gonçalves

Com as suas características próprias, a seu tempo assinaladas, Abril tem indubitavelmente os seus heróis. Heróis supletivos como Spínola, ou heróis genuínos que, emergindo do grande corpo colectivo do MFA, se impuseram, breve mas intensamente. Desses elejo a dupla Otelo e Vasco Gonçalves. Surpreendentemente, eles funcionam como um par de opostos: como se a força catalisadora de cada um ganhasse com a presença do outro, numa tensão que se alimenta mais do conflito do que do consenso. 

Parto de uma fotografia, uma simples fotografia de Vasco e de Otelo, em Tancos, cenário de todos os confrontos, que inspira esta inquietante passagem do filme Gestos e Fragmentos de Alberto Seixas Santos:
«O que foi a Assembleia de Tancos? O começo da luta pelo poder? O fim dela? Estão juntos perante a Assembleia do MFA. Talvez os dois heróis estejam a olhar para o microfone. Ou estará Otelo realmente de olhos baixos? Está inclinado, já quase fora da imagem, puxado por uma força marginal invisível. Parece cair para o nosso lado. O rosto é apanhado em movimento. O corpo está torcido, numa incerteza na intenção, e Vasco segura-lhe a mão, impedindo-o de cair. Os tendões do pulso de Otelo estão retesados. O braço dele é puxado para trás, enquanto o pulso de Vasco é firme e seguro. Vasco dirige-se ao microfone voltado para a frente, para a Assembleia, mas metade do seu corpo parece desaparecer na espessa escuridão. Vão ser separados, sair de cena, mas o microfone permanecerá.»

O estudo comparativo das zonas de afastamento e proximidade entre eles, revelando muito sobre os respectivos traços e projectos pessoais, revela tanto ou mais sobre as imagens que deles construímos. Apesar das notórias diferenças intrínsecas, coexistiram no imaginário político abrilista durante algum tempo, até que a sua traumática e dolorosa separação, tantas vezes anunciada e outras tantas desmentida, foi um outro, porventura decisivo, golpe para os revolucionários e para a revolução. A célebre carta escrita por Otelo a Vasco – «Agora, companheiro, separamo-nos (…) Peço-lhe que descanse, repouse, serene, medite e leia» – abalou e emocionou o país inteiro como se tivéssemos perdido a nossa «fada Morgana»: a unidade dos revolucionários, os quais, cada um por seu lado, ditavam a morte da revolução e com ela também o fim do seu breve período como seus símbolos maiores.
Evoluem em cena, quer antes quer depois do decisivo afastamento, de forma radicalmente oposta. À teatralidade nata (por vezes vedetismo?) de Otelo, opõe-se a simplicidade sem pose (por vezes humildade?) de Vasco Gonçalves. À inconstância (quase leviandade?) de Otelo, opõe-se a firmeza (quase obstinação?) de Vasco Gonçalves. Finalmente, a um estilo lúdico de fazer política por gosto em Otelo, opõe-se a gravidade obsessiva de quem a faz por missão, em Vasco Gonçalves.
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Nuno Teotónio Ppereira 

Nuno Teotónio Pereira foi, recentemente, evocado numa cerimónia comemorativa do 85º aniversário da Associação de Inquilinos Lisbonenses. Um dia, pelos idos de 2004, numa série de postas, fiz-lhe uma breve, e escassa, referência considerando que é uma das personalidades mais marcantes da história do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Fiquei com uma dívida por pagar.  

O Arquitecto Nuno Teotónio Pereira é uma daquelas personalidades raras na qual se juntam um notável curriculum profissional e uma postura de intervenção cívica, persistente e pertinente, assumida desde os tempos da oposição à ditadura. Ele é, na verdade, um dos arquitectos portugueses contemporâneos que foi capaz, como poucos, de integrar, sem cedências à facilidade, as preocupações sociais e a arte de «arquitectar». Há por esse país muitas obras de sua autoria, ou co-autoria, que testemunham esta simbiose.  

Nos tempos de brasa do 25 de Abril foi um dos mais proeminentes dirigentes do MES, posição que saiu reforçada aquando da ruptura do grupo de Jorge Sampaio, ocorrida no 1º Congresso de Dezembro de 1974. O MES, na sua curta existência, só participou, de parte inteira, nas duas primeiras eleições da nossa III República: as eleições para a Assembleia Constituinte, disputadas em 25 de Abril de 1975, e as primeiras eleições para a Assembleia da República disputadas em 25 de Abril de 1976.

As nossas esperanças iniciais eram muitas elevadas. A lista do MES, pelo círculo de Lisboa, às eleições para a Assembleia Constituinte, foi encabeçada pelo Afonso de Barros a que se seguiram o Eduardo Ferro Rodrigues, o Augusto Mateus e o Luís Martins (padre, ainda a exercer…). A lista candidata às primeiras eleições legislativas, realizadas em 25 de Abril de 1976, foi encabeçada pelo Nuno Teotónio Pereira, seguido do subscritor destas linhas.  

Poder-se-ia pensar que o MES havia encontrado o seu líder. Puro engano. Ao contrário dos restantes partidos, sem excepção, a personalidade que encabeçava a lista por Lisboa nunca foi, no caso do MES, o líder do partido pela simples razão de que no MES nunca existiu um líder. O que hoje penso é que, por incrível que pareça, sempre assumimos, do princípio ao fim, o que poderia designar-se como uma obsessão pelo colectivo.        

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Casa de estudantesdo império

Abril de 1961. A guerra em Angola começara há pouco mais de um mês. As vitrinas do Palácio Foz, então sede do Secretariado Nacional de Informação ostentam ainda as terríveis fotografias dos massacres levados a cabo pela UPA (União dos Povos de Angola), no levantamento armado de 15 de Março – que o primeiro presidente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Mário Pinto de Andrade, viria a classificar de “jacquerie”. A Censura impedira os portugueses de conhecer outros massacres anteriormente ocorridos: milhares de mortos de população civil angolana, na repressão da revolta dos plantadores de algodão da Baixa do Cassange, centenas de mortos nos ataques aos muceques de Luanda e na repressão em Icolo e Bengo, na sequência do assalto pelos nacionalistas às prisões e quartéis da capital angolana, ocorrido a 4 de Fevereiro.

Os estudantes africanos em Portugal temem que também sobre eles se abata a repressão. Muitos deles – “nacionalistas progressistas” da Casa de Estudantes do Império, na classificação do inspector  Sachetti [1], baptistas e metodistas dos lares de Lumiar de Carcavelos – tinham acorrido ao aeroporto de Lisboa em Dezembro de 1960, protestando contra a deportação do médico Agostinho Neto para Cabo Verde, sendo por isso identificados e retidos para interrogatório pela PIDE. Por outro lado, a guerra que alastra em Angola dá-lhes uma oportunidade de se juntarem às forças que combatem o colonialismo português.

Com um número muito reduzido de militantes em Conacry – Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Eduardo dos Santos e Hugo de Meneses –  e um pequeno núcleo no então Congo-Brazaville, o MPLA apela aos jovens nacionalistas para que abandonem Portugal e reforcem as estruturas do Movimento no exterior.

O MEA, Movimento de Estudantes Angolanos, constituído sobretudo por frequentadores da Casa de Estudantes do Império, decide então enviar dois representantes a França, onde mais facilmente poderiam tentar contactar a Direcção do MPLA. Edmundo Rocha e Graça Tavares são os escolhidos. A resposta do Movimento, de que não tem possibilidade de os apoiar na saída, leva-os a procurar novos caminhos. Na Bélgica e na Alemanha, vão juntar-se a outros estudantes das colónias portuguesas – José Carlos Horta, de Moçambique, José Fret Lao Shong e Manuel Pinto da Costa, de S. Tomé, Alberto Passos, Arlindo Barbeitos, Carlos Rocha, Desidério Costa, Luís de Almeida, Luísa Gaspar e Ruth Neto, de Angola. E parte de Desidério Costa e Luísa Gaspar a sugestão de um contacto com o bispo metodista de Frankfurt, que talvez os possa ajudar. Este põe os jovens nacionalistas em contacto com outro bispo, Black, da Assembleia Mundial das Igrejas Protestantes, em Genebra. Conhecedor da realidade angolana através de um outro bispo protestante, Ralph Dodge, que vivera muitos anos em Angola, Black apoia as reivindicações dos nacionalistas. (Rocha, 2002:219). Ao responder ao incitamento do MPLA, é das igrejas protestantes, nomeadamente norte-americanas, que os jovens delegados do MEA vão receber auxílio.

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Este blogue nasceu em 15 de Junho de 2008. No fim deste primeiro ano, os nossos agradecimentos vão, antes de mais, para todos os leitores que por aqui passaram. Mas não podemos deixar de os alargar, também, ao grande grupo de pessoas que deram vida a estes «Caminhos» – 38, até à data. Continuaremos, claro…

À Esperade GodinhoÉ este o subtítulo de um livro (*) que resultou de longas conversas à volta da mesa de vários jantares, entre quatro portugueses (três, mais rigorosamente, já que o quarto se naturalizou belga), todos nascidos na década de 40. Todos também emigrantes de longa duração, que começaram por recusar sobretudo a guerra colonial, que foram profissionalmente muito bem sucedidos no exílio e que optaram por continuar a viver até hoje fora do país, embora com ele mantenham ligações mais ou menos frequentes, conforme os casos e as diferentes fases da vida.

Antes de mais, importa realçar, positivamente, esta modalidade de narrativa de memórias em grupo, sob a forma oral, que serve bem os objectivos que os intervenientes se propõem: partilhar e discutir, detalhadamente, experiências e visões diferenciadas do mundo, da Europa e de Portugal, no passado e no tempo presente – longuíssimos diálogos que nos proporcionam uma leitura fácil e agradável, mas que deixam adivinhar que muitas e muitas horas de trabalho se passaram entre o gravador e o papel… 

José Morais (neuropsicólogo), Manuel Paiva (físico), Jorge de Oliveira e Sousa (politólogo) e Amadeu Lopes Sabino (advogado) nunca chegam a encontrar-se com «Godinho» , o misterioso personagem que, ironicamente, está na origem do título ao livro. Dos quatro testemunhos, os dois mais interessantes são, no meu entender, o de José Morais que nos dá um fidelíssimo retrato das vicissitudes por que passou como membro do Partido Comunista (até dele sair e depois emigrar) e, principalmente, o de Amadeu Sabino.

Complexo é o percurso deste ex-PC, depois MRPP, UDP de passagem, hoje liberal assumido, europeísta com um entusiasmo que nem parece deixar lugar para quaisquer reservas quanto à actuação da Comissão Europeia (onde, aliás, é alto funcionário). O seu testemunho ilustra bem o que foi a segunda metade da década de 60, e o início da de 70, para uma parte significativa da juventude estudantil portuguesa, no caso concreto para a que foi seduzida pelo «maoísmo europeu» que era «uma utopia, uma ficção, que nada tinha a ver com o maoísmo chinês», mas que «exerceu uma força e um impulso imensos na revolução das mentes dos que o praticaram» (p. 298).

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Morreu o fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel.

Recordamos um texto de Diana Andringa, publicado neste blogue.

Brigadas InternacionalesEm Espanha, todos os estrangeiros que combateram nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil têm direito à nacionalidade espanhola, sem terem agora de renunciar à sua. Chegou a vez de sete sobreviventes receberem os novos passaportes na embaixada de Espanha em Londres.

(Fonte El País)

Foto de Hélder Gonçalves 
  Fotografia de Hélder Gonçalves 

O último lustro da década de 60 foi uma época de pesadelo. Lutas e mais lutas. Duras lutas. Crises e mais crises. O Maio de 68. A crise de 69, em todas as academias, não esquecendo as «eleições». No meio estudantil vivia-se um ambiente pesado de vigilância e repressão policiais. Os activistas eram especialmente seguidos e provocados. 

Quem se expunha na actividade associativa legal, tolerada, era inevitavelmente referenciado pela polícia política do regime. Corriam-se riscos. Temia-se a prisão a qualquer momento. Abundavam os rumores e choviam os avisos. Aqueles que, como eu, acreditavam, e acreditam, no progresso nunca se deixaram intimidar. A cada um de nós coube a sua sorte. 

Um dia alguém me convenceu que a minha prisão estava iminente. Pois bem, havia que tomar uma decisão. Manter a actividade? Entrar na clandestinidade? Ficar ou partir? Não pertencia, nem nunca pertenci, ao Partido Comunista que era a única organização verdadeiramente organizada em termos de clandestinidade. Não podia arriscar uma caricatura de vida clandestina sem rede. Optei por «dar o salto». Destino: Paris. 

Combinei com uns amigos os detalhes. Fizeram-se os contactos com quem havia de nos «passar». Tomámos as providências necessárias. A despedida de quem mais amava foi discreta mas dramática. Levantar todo o dinheiro do banco. Rapar a barba. Tomar o comboio na direcção do Porto. Ponto de encontro: restaurante «Ché-Lapin», à hora de almoço. Almoçámos e esperámos uma eternidade pelo contacto. Não apareceu ninguém. O contacto falhara. Ainda hoje não sei a razão. Nunca mais falei com o dito. 

Regresso a Lisboa. Reencontros inesperados. Ao tomar o meu lugar habitual na «Esplanada do Jardim da Estrela», sem barba, senti a extraordinária sensação de não ser reconhecido por ninguém. Nem sequer pelo empregado que me servia todos os dias. Só a minha voz me atraiçoou. Sempre me reconhecem pela voz. 

Nunca cheguei a ser preso. Segui o meu caminho. Por um triz estive para engrossar a fileira dos exilados, no caso, de um falso exilado. Felizmente o destino protegeu-me e nem os meus pais chegaram a saber da aventura. 

 
(Retomo, com pequenos retoques, um conjunto de textos de memórias pessoais publicados, em 2004, no Absorto.)

Biografia de Eduardo Graça

alfaiate 

Sou do tempo em que o pronto-a-vestir ainda não tinha aparecido e estava, portanto, longe de se ter apoderado do mercado das fatiotas. Quando se queria um fato, recorria-se a um dos alfaiates que eram, então, artesãos numerosos e respeitados. E a concorrência permitia uma escolha amadurecida. Quando se encontrava, por mestria ou simpatia, um alfaiate que nos apanhava bem os pormenores das linhas do corpo, então dava-se uma fidelização. Mas o normal é que os serviços de uma alfaiataria fossem prestados a todos os varões da família, dos mais velhos até os mais novos e por escolha do patriarca. 

A construção da vestimenta tinha os seus preceitos e vagares. Havia, primeiro, a escolha do tecido, normalmente adquirido numa loja-armazem da baixa lisboeta, após demorada investigação das relações preço-qualidade e só depois, matéria-prima na mão, o artesão entrava em funções numa sucessão de cerimónias com várias fases e suas demoras. A abrir, a sessão de se tirarem as medidas que quase imitava uma investigação anatómica. Depois havia as tormentosas sessões de provas que se iam repetindo para ajeitar mangas, bandas, pregas na cintura, as alturas mais os comprimentos e mais as larguras. O alfaiate de giz branco empunhado, alfineteira no braço, dava-nos voltas e mais voltas, repetindo a verificação do efeito das correcções em novas sessões aprazadas e até que a obra fosse considerada acabada. Uma seca, que no caso dos juniores desafiava a sua atávica impaciência para com tão repetidos e enfadonhos rituais.

Por economia caseira, calhava-me herdar os fatos que o meu Tio Luís ia pondo de parte por terem atingido o prazo do uso. Porque o custo do tecido pesava, e muito, no orçamento. Então, o alfaiate desmanchava os fatos usados e ia dispondo as partes dos tecidos do avesso. Quando tudo estava revirado, eu lá ia às provas tirar medidas e ajustar os pedaços de pano até que, do fato usado do meu tio, virado do avesso e com ajuda do mérito da diligente tesoura, lá saía o meu fato «novo». «Está como novo», era o que me diziam. Mas havia sempre um problema insolúvel. Na altura, usava-se, na banda esquerda do casaco, uma ranhura (cuja designação técnica se me varreu da memória) que era o sítio onde se podiam colocar emblemas, cujo uso era corriqueiro na época. Da volta do tecido das bandas, resultava que a ranhura, que devia estar à esquerda, ia parar ao lado direito. Assim, os meus fatos só eram «como novos» na aparência distraída porque a malvada da ranhura ao lado direito estava lá, bem visível, a assinalar o ferrete de se tratar de um «fato revirado». E parecia-me que toda a gente que passava por mim olhava para a ranhura do meu casaco e me gozava por eu estar a usar os fatos do meu tio. Claro que, assim, só usava fato se a isso fosse obrigado. A certa altura, apareceu a moda de se usar uma ranhura em cada banda do casaco, o que prefigurava uma solução para a minha tormenta. Depois, veio rápido o uso e abuso do pronto-a-vestir. Finalmente, o abandono das ranhuras nas bandas dos casacos. Tudo mudanças demasiado tardias para mim. O «mal» estava feito e sem hipótese de reconciliação. Desde miúdo que só enfio um fato no corpo por estrita obrigação. Que tem de ser muito, mas mesmo muito, solene.

[Texto revisto de um post publicado no blogue Agua Lisa]

Biografia de João Tunes

Condecoracoes do 10Junho

Vem de longe a comemoração do dia em que Camões foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, em 1880. Feriado nacional desde os anos 20 do século passado, a data ganhou um novo significado em 1944, quando Salazar a rebaptizou como «Festa de Camões e da Raça». Fê-lo por ocasião da inauguração do Estádio Nacional, que ocorreu com toda a pompa, em cerimónias a que terão assistido mais de 60.000 pessoas e que foram filmadas por António Lopes Ribeiro (vídeos aqui e aqui). A linguagem é inequívoca – «Às cinco horas, chegou o chefe: Salazar. Salazar, campeão da pátria, era o atleta número um, naquela festa de campeões.» – e ouvem-se  comentários como este: «Já não vivemos, graças a Deus, naquela época em que parecia mal às mulheres portuguesas cuidarem da higiene e da saúde do corpo, não se preparando convenientemente para a sua altíssima função.»

Mais graves, e bem mais trágicos, passaram a ser os 10 de Junho a partir de 1963. Transformados em homenagem às Forças Armadas envolvidas na guerra colonial, eram a data escolhida para distribuição de condecorações, muitas vezes na pessoa de familiares de soldados mortos em combate (fotos reais no topo deste post).

Desde 1978 que não é Dia da Raça e, para além de Portugal e de Camões, passou a festejar-se também as Comunidades Portuguesas. Mas continua a haver condecorações – outras, evidentemente, por motivos totalmente diferentes e por razões certamente muito louváveis. Talvez fosse no entanto possível ter escolhido outro dia para as distribuir, já que, no meu entender, é quase inevitável associar qualquer distribuição de medalhas neste dia às trágicas imagens do Terreiro do Paço em tempo de guerra nas colónias.

 
(Publicado também em Entre as brumas da memória)

Tarrafal

 
 Simpósio Internacional sobe o Campo de Concentração do Tarrafal, 28 de Abril de 2009 

Em Agosto de 2006, sob meu impulso, o Conselho de Ministros aprovou a Resolução nº 32/2006, que reconhece o ex-Campo de Concentração do Tarrafal e suas respectivas dependências como Património Nacional da Republica de Cabo Verde. A mesma Resolução consagra o dia 29 de Outubro como o Dia da Resistência Antifascista em Cabo Verde. 

Foi, efectivamente, a 29 de Outubro de 1936, que chegaram ao então Campo de Concentração do Tarrafal, criado em Abril do mesmo ano, os primeiros prisioneiros políticos de Portugal: homens temperados na luta antifascista e imbuídos dos ideais mais nobres, quais sejam os da liberdade e da dignidade da pessoa humana.

Naquela altura, também sugeri que se organizasse um simpósio internacional que testemunhasse a dimensão deste Campo de Concentração, a um tempo, cárcere e espaço de luta contra o fascismo e pela independência de povos colonizados de África, «aldeia da morte» e um mundo de determinação e de vontade de vencer e de esperança na liberdade. 

Benditos aqueles – Fundação Amílcar Cabral e Ministério da Cultura de Cabo Verde, com os apoios das Fundações Mário Soares, Sagrada Esperança e José Eduardo dos Santos – que, sob o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, organizaram este importante encontro de reflexão sobre o «Longo Caminho para a Liberdade», como escreveu Nelson Mandela, depois de 27 anos de prisão, a lutar contra o apartheid e pela dignidade do povo sul-africano. 

Temos de continuar a trabalhar para que este que foi um dos mais sinistros Campos de Concentração do Salazarismo e que, hoje, é património Nacional de Cabo Verde, seja também reconhecido como Património da Humanidade. 

É que nestas paredes estão guardadas histórias de pessoas e de povos de Angola, de Cabo Verde, da Guine Bissau, de Portugal, escritas com suor, sangue e lágrimas, que adubaram o chão da luta e fermentaram os ideais da independência nas ex-colónias portuguesas e da resistência antifascista em Portugal. Este Campo é Património de toda uma Humanidade em luta contra o fascismo e todas as formas de totalitarismo. 

É um dever de memória recordar e homenagear todos aqueles que foram encarcerados neste campo de morte lenta, aqueles que morreram e rasgaram a estrada de emancipação dos povos e da conquista da liberdade e da democracia. 

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